Os
Dias do Medo
E-book
– Romance de Ariovaldo Matos
Editoração
& Capa – Ricardo Matos
ESCLARECIMENTO
PRELIMINAR
Morto
a 4 de janeiro de 1968, aos setenta e um anos, o senador Antônio Petrucci
recompôs – por vezes dando-lhe forma romanesca – aqueles que considerou os mais
importantes episódios de sua vida. Uma vida que, acredito, foi muito rica de
acontecimentos. Dois ou três dias antes de expirar, ainda lúcido e após assinar
seu generoso testamento (1), reafirmou o empenho de que eu expurgasse do texto
quanto contribuísse, de algum modo, para lhe embelezar a personalidade.
Convenientemente cadáver, queria-se nu diante da opinião pública. E não só a
brasileira. Terei de investir bons milhares de dólares para traduções em
italiano e em francês, obrigação que hoje não me desagrada: suponho experiência
interessante ser personagem.
Trabalhei
com afinco, pesando e sopesando os capítulos e “notas adicionais” que me foram
confiados. Quando chego ao “the end”
da tarefa, penso ter cumprido, com algum zelo, a última ordem daquele a quem
prestei uma colaboração que ele próprio reconheceu como eficiente, “mas, no
conjunto, Abelardo, no conjunto!”.
Neste “Os Dias do Medo”, e advirto que o título é meu
(ele queria o prosaico “Uma vida, árdua vida”), a tal ponto fui imparcial que
não omiti, embora pudesse fazê-lo, nenhuma assertiva ou insinuação prejudicial
à minha pessoa. Inclusive sobre atividades políticas e comportamentos outros
nem sempre bem compreendidos pelo finado. Os “cortes” aos quais me vi obrigado
– episódios e trechos outros que, somados, se alongam por mais de trezentas
laudas pessimamente datilografadas – devem-se a conveniências hodiernas. E eu
as reputo da maior relevância, eis que (esta expressão é dele, eis que) se
relacionam, envolvendo-as em meio a injustiças ou desajeitos, com numerosas
personalidades. Preocupam-me, em particular, senhoras e senhores que me honram
com amizade e respeito. Não raras dessas pessoas podem me ser úteis e eu a
elas. Como tia Cândida ensinava, “ninguém sabe o dia de amanhã e o futuro a
Deus pertence”.
Creio ter cumprido meu dever como cidadão deste belo
País, ao qual, e até morrer, cotidianamente continuarei servindo, de modo
morigerado, como é dos meus hábitos. Ainda hoje, remeto as páginas para a
tipografia já contratada com meu dinheiro. E, em seguida, na Europa, promoverei
as aludidas versões italiana e francesa, antes, é evidente, cuidando de
reencontrar Narda, esteja onde estiver, mesmo na Calábria. Ah, que doido amor
ele nutria pela Calábria. Aliás, a epígrafe da edição italiana, escolhida e
moldada com suas já trêmulas letrinhas, é a seguinte: “Calabreses,
acreditai-me, eu vos amei”.
A tarja que encima este esclarecimento preliminar é um
preito sincero e saudoso e também homenagem à minha irrequieta e tão querida
Marluce, tragicamente morta meses após tornar-se minha esposa.
Quero
ainda agradecer a preciosíssima colaboração do meu estimado e jovem amigo
Cristovão Miguel Dias (2). Não só por me ter ajudado a datilografar os
capítulos finais e sim principalmente pelo seu calor afetivo, abrasante algumas
vezes, reconheço, mas em geral satisfatório.
Guanabara,
5 de janeiro de 1970
Abelardo D’Antunes
(1) – Numerosas pessoas, jurídica e
moralmente aptas (a exemplo do dr. Nazareth), podem testemunhar sobre a lucidez
do senador Petrucci no instante, tanto quanto em dias precedentes e
posteriores, em que assinou o testamento, cujos termos causaram surpresas e
maledicências na Bahia, aqui no Rio, em Brasília, e – curioso, só agora disso tenho
ciência – também em São Paulo, este um lugar de gentes e paisagens que abomino.
Concordo, em número, gênero e grau com um dos muitos repentes do senador:
– Diante de tudo isso, Abelardo, –
ele gritou – o certo é o dr. Getúlio Vargas pegar esses malucos, com seus
cacarecos e tudo, e jogá-los na China! Ou você não acha?
Achei, continuo achando. Os paulistas são perturbadores.
Quanto ao testamento, o falecido me legou, em diferentes valores, setenta e
cinco por cento de todo o seu espólio, não tão vultoso como foi e tem sido
assoalhado. Os vinte e cinco por cento restantes, em sua maioria, foram
entregues à sra. Lourdes Carvalho Assumpção Borges, presentemente à residir na
Calábria, ora numa outra vilazinha, como atestam os postais que me envia com religiosa
regularidade. Narda a definiu como “uma mulher em busca”. E aduziu,
interessada: “Fascinante, Abelardo, fascinante”. Ela amou, de fato, o senador
Petrucci e fez questão de seu nome integralmente impresso. Porque, ela viúva,
não se casaram é, para mim, um mistério.
Ainda no que se refere às disposições testamentárias,
unicamente lamento as canseiras de duas obrigações:
a)
– devo manter permanentemente floridos dois túmulos no classe média cemitério
da Quinta dos Lázaros, Bahia: o do pai do senador, sr. Vincenzo Petrucci, –aliás,
pelo retrato, homem avantajado quanto a porte –, e o de um certo Arimar
Cardoso, de quem o senador, quando jovem estudante, foi colega na Faculdade de
Direito, fim dos anos dez, início da década vinte;
b)
– devo, igualmente, todos os anos, em janeiro ou fevereiro, comprar jangada já
bastante usada, atapetá-la com flores as mais alegres, provê-la com garrafões
de vinho tinto, de sempre mais caros salames e queijos populares calabreses, e
fazer com que uma lancha a reboque, vazia de gente tal jangada, até os começos
do oceano Norte baiano. E ali abandoná-la ao sabor e aos caprichos das águas,
“bem onde – ele explicou – as ondas não fraquejam e não morrem”. Diante de tal
exigência, contida no testamento, mostrei o espanto dos repentinamente
surpreendidos. O senador, então, disse:
–
Papai, eu, tio Leonardo, Lisa, guiados pelo bom Deus, nós encontraremos as
jangadas, ano após ano. Faça o que eu mando, Abelardo, ou perseguirei você até
o mais abissal dos infernos!
Tenho
obedecido, por via das dúvidas...
Cris
é o carinhoso apelido de Cristovão. Cris, compreenda, faça esforço para
compreender o motivo desta minha viagem em busca de Narda, mesmo esteja na
Calábria ou em Moscou ou no Tibet. Bobo! É tolice pensar que fujo de você para
sempre. Acontece que não posso recusar o silencioso desafio que Narda me lançou
naquela tarde em que, você desesperadamente ausente do Campo Santo, nós demos à
Marluce sua última morada.
Se
eu não regressar até o dia 25 de fevereiro, cuide da jangada – e esta é uma
ordem! Ivo o orientará. Ivo o admira muito, Cris, e me tem sido um servidor
fiel. É diante de todos, e aqui atendendo ao seu desafio – “façamos o jogo
aberto”, ou você recuou? --, que mando um até breve, querido, até breve.
Guanabara,
5 de janeiro de 1970.
A.
D’Antunes
ESCLARECIMENTO
– I
Antes de dar a palavra ao senador, para um relato que se
desdobra em sete partes, devo esclarecer que o de certo modo saudoso homem
contratou-me como secretário particular quando em 1933, já deputado estadual,
aspirava à Câmara Federal. Uns tantos mil réis, casa e comida. Feita as contas,
não me arrependo.
Ao contratar-me não desejou apenas um rapaz, promissor
jornalista, em condições de promovê-lo, ajudando-o em discursos, artigos,
entrevistas, pareceres e o mais que a tanto dissesse respeito, conforme o
apalavrado. Desejou além, indevidamente, a escutá-lo horas e horas. Creio ter
sido o primeiro “audiente” remunerado, senão no Brasil pelo menos da Bahia. E
quis usar-me, também, como uma espécie de guarda-costas. Quanto ao nosso
relacionamento pessoal foi meu primeiro grande erro. A propósito, é melhor transcrever
trecho de uma das “notas adicionais” escritas para aclarar esta narrativa. 1933
o ano e o texto remete-nos a um comício no Largo do Teatro (já, na época,
oficialmente, Praça Castro Alves), reunião que poderia ser, como foi, bagunçada
por adversários políticos lá com suas verdades e, sobretudo, encastelado no
Poder. Sugeri:
– É melhor o senhor não ir.
– Conselho e água-benta só se dá a quem pede, Abelardo.
Iremos.
Fomos. Mas, que fale o senador:
“... o melhor, resolvi, o menos perigoso, era emudecer
sobre as questões que suscitavam polêmicas idiotas, no entanto travadas com
fúria, paixão, temeridades. De outra parte, ponderei, faria de mim um maricas
se, em manifestações públicas como aquela, eu me reduzisse a ensinar aos
eleitores de que modo deviam ser preparadas ‘babas-de-moça’ ou ‘quindins de
yayá’. Cabia-me, sim, a todo custo, buscar o equilíbrio, contentando os gregos
sem impor desgostos aos troianos.
Eis que, na véspera do grande comício, presumivelmente
muito concorrido – em verdade só apareceram alguns dos nossos, alguns
adversários, além dos habituais farricocos (1), uns tantos policiais que eram
deles –, animei-me a discursar, não obstante desaconselhado pelo Professor
(...) Disse-lhe, e à Lucinha repeti, dispor de argumentos capazes de empolgar
até os farricocos e que teria em meu lado, qualquer violência ocorresse, um
rapagão como Abelardo (2). Alçar-me-ia, afirmei-lhe, acima das facções
desvairadas e desavidas por miuçalhas.
– Há que por cobro nisso, Professor. Há que colocar a Bahia
acima de tudo.
Abelardo e a tese superior, ótimo, papai e tio Leonardo
lá do céu enviando-me estímulos, magnéticos, e fui ao meeting. Aqui permito-me uma digressão. Naqueles anos, a boa
técnica recomendava, em comícios, que os melhores oradores fossem os primeiros.
Não existiam os alto-falantes. Julgava-se hoje a impostação como novidade.
Tolice. A voz, os de minha época, sabíamos tê-la impostada, usando-a, tanto
quanto as pausas, com precisão: éramos consumados atores, embora nossos
mestres, na arte, fossem os amigos e os espelhos, estes mudos, aqueles
exigentes de melhor desempenho. Fui o segundo, e o primeiro declamador
profissional, deu o tom embasbacante. E assumi-lhe o posto e fiz o elogio da
Bahia, a necessidade de reencontrarmos a grandeza ímpar do nosso passado
glorioso, soltando algumas frases pacientemente decoradas:
– Se pertenço, e pertenço com muita honra, aos quadros da
oposição estadual, oponho-me de igual modo, aos Poderosos Federais, a incidir
em passageiro equívoco.
Ninguém entendeu nada, ainda bem, e fui em frente:
– Nesse transe, reclamando pela luz do entendimento e d
razão, luto e não cessarei de lutar pela Bahia, a nossa eterna Bahia, aureola
pelas lições do nosso Sábio Maior, Ruy Barbosa, e pela altaneira poesia do
Insuperável Gênio, o vosso e o meu Castro Alves. Deles direi, como digo, que as
suas efígies imorredouras estão impressas em nossos estandartes, em nossos
baianos corações.
Sonora tirada, pois não, mas a massa, em baixo, de olhos
no palanque, permaneceu fria, ela que, antes, se mostrara comovida com o poema
“Lágrima de Mãe”, um bestialógico do declamador profissional. Todos, no bolo os
adversários, absolutamente todos, esperavam que, a exemplo dos oradores
habituais, eu fizesse malévolas insinuações contrárias ao respeitadíssimo
senhor capitão que governava (3), coisa que não me interessava. Coisa que me
seria prejudicial, eis que no interior do nosso vasto Estado, dádiva do senhor,
os meus correligionários excetuavam-se entre os hostilizados pelo partido
governista. Olhei cada olho, estudei cara e cara. Em todas e em os olhos, por
diferentes propósitos, havia a mesma ordem irracional: ‘xingue o homem,
xingue!’ Puta merda. Era como se ordenasse a Pilatos que absolvesse Cristo e
lhe fizesse cafuné, embalando-o com lânguidas modinhas. Lógico, não podia ser,
e mantive minha linha:
– Antes que existíssemos, os que aqui, neste largo
histórico, em comunhão agora estamos, existia a Bahia, e a ela, senhores, à
nossa Bahia, todos nos curvemos, em reverência ao passado e em luta para a
construção do futuro.
Um dos nossos, mais baderneiros, cochichou-me: “deixe de
frozô, Petrucci, malhe os descarados!”. Não lhe dei trela, prosseguindo:
– Sim, a Bahia, antes de tudo a Bahia, e todos e tudo
unidos no examinar a fundo suas queixas, seus reclamos, pressentindo suas
aspirações de terra mater do Brasil,
aspirações de hoje e as dos amanhãs, que já se anunciam nas fímbrias de um
horizonte onde o azul do mar – olhai-o! – e o verde da esperança de mãos dadas
marcham a indicar novos caminhos, novos tempos. Caminhos para todos nós, todos,
sem exceção, com casto amor filial.
Bobagem o propor olhar o mar de noite, buscar azul de
noite, estava uma escuridão danada, mas ao insistir no “todos nós, todos, sem
exceção”, implicitamente incluí os homens do partido oficial. Calhou bem e
tanto que a malta dos adversários foi-se afastando, ostensivamente. Quem, no
entanto, me assegurava não terem ali deixado um espia? Não tínhamos os nossos,
treinados para decorar frases, períodos, parágrafos, recitando-os?
Tática mantida – Bahia, grandeza, Ruy, glorioso futuro,
Castro Alves, etc. – na operação vi-me interrompido, um gaiato a gritar com
esculhambada voz:
– Basta de frouxidão! Abaixo os holandeses (4).
A canalhice contagia e outros pegaram o pião da unha:
– Botem um macho prá falar! Chega de frouxidão!
Raciocinando com rapidez, percebi que: 1.) – era
essencial terminar a imprudente intervenção oratória, terminá-la logo; e 2.) –
devia reagir contra o principal frenético, fiado na proteção de Abelardo e na
possivelmente numerosa turma do “deixa disso”, sempre benemérita. Assim, forrado
de boas expectativas, cumpria-me confundir, com resposta, o moleque aparteante,
dando prova da coragem conferidora de prestígio, eis que covarde, covarde
mesmo, nunca fui. E bradei, pulmões em fogo:
– Um “Não-Sei-Quem-É, cujos traços de tipo lombrosiano daqui
bem identifico, aqui e agora, receberá o castigo que merece.
Fez-se silêncio e avancei, incontrolável minha justa ira:
– Contra este vosso candidato, baiano, patrioticamente
baiano, ele empregou o chulo vocábulo “frouxidão”. É um provocador, correligionário,
amigos, um reles provocador. E (note,
Abelardo, sutil alusão à Holanda...) um provocador vindo de terras que não
são as nossas (aí, Abelardo, apareceu
junto ao nanica um negão que deve ter feito alguma coisa nele, eis que o safado
gritou um ‘ui,ui’!), estranhas terras que não são as nossas, estranhas
terras estercadas por fezes de urubus pestilentos. É este energúmeno que quer
atrair-me para um terreno que não é o nosso e nem o vosso, heroicos baianos. (O negão lá, segurando o nanica). Não
recuso, porém, o desafio mas à pútrida lama não desço. Capadócio, em tal lama
arraste-se você e ouça, animálculo, ouça: frouxo, maldito estrangeiro, frouxo é
a puta-que-o-pariu!
Rodopiei os olhos, querendo avaliar reações, e no giro,
ao completá-lo, não vi mais nem o negão e nem o nanica, Abelardo ao meu lado,
indômito, fiel.
No entrementes do giro ocular, chocante o palavrão (hoje
a profonia é moda), o ‘comitê’ organizador do comício – havia um velhote surdo
que não entendia picas do acontecimento, eu inda rio quando lembro a cara dele
– agiu prestamente. Fez apagar as pálidas luzes do palanque, enquanto eu
gritava que não me segurassem, eis que, por não admitir ofensas à minha honra,
iria esmigalhar, com balas, as fuças do bandido.
– Exijo que me larguem!
Não largaram, perfeito.
Tudo saiu superlativamente perfeito. Tanto que, além de
salvo e livre, pouco tempo depois, já no gabinete do Professor (...), do
assunto não tratei. Pedi chocolate e sequilhos, interessando-me por informações
sobre o estado de saúde de dona Carmen. Coitada, a erisipela avançava.
Lucinha foi quem puxou conversa sobre os acontecimentos
do meeting. Não me fiz de rogado e
narrei o episódio, evitando os pormenores e palavrões, mentindo ao dizer que
minha arma fora roubada, afirmando:
– Jamais comprarei outra. Estive a minutos de ser um
assassino.
Devo ter sido convincente, mas a arma é utensílio que
nunca pretendi à minha disposição, em qualquer minuto de minha vida, vida que
agora se esvai na quentura amiga do corpo de Nezinha (5) e some enquanto me
cresce a certeza de que o Senhor Todo Poderoso, bem sabemos das grandes
tempestades e dos grandes estios de tantos anos, me poupará do inferno e não me
fará Cavalcante (6).
Voltemos à cena do comício, que os leitores não devem ser
suplicado por indagações. Quem era o negro?
Não sei. Um admirador, quiçá, descrente que sou quanto a
Anjos da Guarda e Santos. Abelardo (como
você foi corajoso naquela noite!) retirou-me do palanque, o carro de minha
propriedade já a nos esperar. Ele, contudo, permaneceu no Largo do Teatro,
disposto a descobrir o provocador, dar-lhe uma lição e recomendei:
– Aja com energia, mas não exceda.
Contou-me, quando cheguei em casa, haver empurrado o
nanica à deserta Ladeira da Montanha, aplicando-lhe boa dúzia de “vá cagar” e
alguns merecidos bofetes, com prazo para deixar a cidade. O descarado sumiu
mesmo e o negro amigo jamais o reencontrei, mas – é estranho, como a vida é cheia
de mistérios – sentia sua presença protetora por onde andasse. Vejo, agora,
senhores, em amarelecido recorte de jornal, que Abelardo fez mais. Sim,
reconheço. No matutino em que trabalhava, imparcial mas simpático à oposição
comedida, em reportagem detalhada, explicou que eu, reagindo contra malfeitor
aliciado por comunistas deletérios, não trepidará em dar ao sujeito, “com
palavras veementíssimas e exitoso esforço físico, o troco devido”. Você me irritou muito, Abelardo, mas me
salvou de poucas e boas. O meu testamento dirá o que hoje penso a seu respeito.
Esta é a versão do senador. E, na ocasião, como ele,
assim também muitos pensaram. Eu poderia queimar esta “nota adicional”. Talvez
só o dr. Nazareth a tenha lido. De resto (outra expressão que o senador
utilizava a torto-e-a-direito), usá-la e as demais foi algo que ficou a meu
critério. Não bastasse tanto, o próprio dr. Nazareth advertiu-me:
– Não faça livro grosso que ninguém lê livro grosso.
E isso me foi dito – Nezinha é testemunha – durante a
cerimônia fúnebre. Bem, mas prometi a Marluce, a Cris e a Narda que faria o
jogo da verdade, na medida do possível. É uma experiência a mais.
É certo que redigi a reportagem. O tal aparteante, um
tanto atarracado nas sem nada de nanica, era um autonomista apaixonadíssimo (7)
e sentiu-se frustrado. Esperam-se “graves denúncias” contra o Governo e a
verdade é que o senador Petrucci fez um papelão, só ao final se recompondo. Os
chamados “corretivos físicos” foram aplicados, mas não fui eu o autor da lamentável
proeza. Durval, um bitelo de negro, espécie de cria de minhas tias (cedo perdi
mãe e pai, elas me acolheram, me educaram), é quem fez o “serviço”. O aqui
referido e outros. Mais faria, às escondidas e por gosto, se aceitasse convite
para me acompanhar Brasil onde eu fosse. Não quis abandonar as “dindinhas”,
como chamava Tia Cândida e Tia Inácia. Jamais embolsou um centavo de
gratificação. Amava os perigos, participando de conflitos com os quais nada
tinha a ver. Estará morto, talvez e, no fundo, um homem bom no seu primarismo:
a gratidão, nele, assumia força religiosa.
Quanto a mim, no burburinho, fui repórter e só. Toda
violência, seja qual for, é estúpida. Todo o violento é carente de
inteligência. Isso me aproximou do senador. É ainda esse entendimento que me
prende a Narda: Marluce era sexualmente violenta, agressiva, na cama era como
um animal sedento. Coitada!
Talvez esteja me alongando, e fazer-me maçante. E há,
ainda, explicações a dar.
Se aceitei simular a condição de guarda-costa do senador
do senador Petrucci, fi-lo porque contava com Durval e, confesso, já naqueles
anos, bem jovem, minha aspiração era a de sair da Bahia, era a de ganhar o
mundo, o Rio em primeiro lugar. A Bahia era e é uma terra de velharias, de
pessoas abelhudas, gentes pobres e feias, sem movimento, sem atrativos. Agora
que conheço quase todos os países civilizados, afirmo: o Rio é uma maravilha.
Ipanema, Copacabana, Leblon, ah! eu amo o Rio.
Este livro não é o planejado pelo senador. Pertence-me
mais do que a ele. Diabo, a sombra desse homem maldito me persegue. É um
inferno.
Peço atenção para as notas a seguir:
(1) – Ele gostava de
palavras em desuso. Farricoco, aqui, significa “gatos pingados”. Ou seja, pouca
gente. Ao comício compareceram, no máximo, umas cento e setenta ou cento e
oitenta pessoas. (2) – Tinha e tenho corpo atlético e continuo a cuidar de
minha aparência. O senador por sua vez, não era destituído de atrativos, apesar
de magro. Sexualmente foi muito capaz. (3) – “Capitão que governava”, o hoje
Excelentíssimo Senador General Juracy Montenegro Magalhães. (4) – “Holandeses”,
era como os autonomistas designavam, pejorativamente, os partidários do General
Juracy Magalhães, pelo simples fato desse eminente brasileiro ter nascido no
Ceará e, como Interventor, assumido o governo baiano com a vitória da Revolução
de 1930. O senador nunca se empolgou por esse tipo de confronto político
considerando-o “uma burrice de ambos os lados”, acentuando: “E então vamos
cavar votos à direita, à esquerda, no centro, em cima, em baixo, entendeu? E
coco prá eles, ou não deu certo? E venha a nós os votos, os queridos votinhos”.
Em momentos assim, de euforia, falava de modo engraçado, inobstante carregasse
nos palavrões, jamais ditos em público. Nós os influenciamos, preservadas
intimidades que guardei de devassas, em consequência de aparentes
discordâncias. É disso que quero me libertar. Também disso. (5) – Nezinha. Este
o apelido da jovem enfermeira prática que contratei para assistir ao senador:
administração de medicamentos, dietas, conversações, leituras, etc. Afeiçoaram-se
e o relacionamento não era somente profissional, nem o de amantes, nem de “pai”
para filha. Segundo o dr. Nazareth, Augusto Nazareth (por sinal ele é o
inomeado “professor de francês” mencionado em um dos capítulos a seguir) havia
tudo isso “e mais o que não sabemos”. Ela o descobriu morto, nu, como que
sentado na escrivaninha, a cabeça sobre luxuoso exemplar da “Divina Comédia”,
texto em italiano. Não nos apelou. Sozinha, arrastou-o para a cama, lavando-o
com toalha felpuda, vestindo-o dos sapatos à gravata, as ossudas e longas mãos
cruzadas sobre o peito. Então desceu a escada de acesso ao primeiro andar:
– O senador está morto.
Agora eu vou para minha casa.
Certo, além do bom ordenado, Nezinha recebeu, presentes
dados à nossa vista, valiosas joias. Poderia não ter ido ao enterro, mas foi.
Quando partiu, dr. Nazareth me disse:
– Tomara eu esteja
errado, ela morrerá cedo. Ama muito e não ri e não chora. Você tem o endereço
dela?
O senador impressionava as mulheres com bastante
facilidade. Captava-lhes o afeto. Só fez, ao que eu saiba, um amigo, o dr.
Nazareth. E, talvez, o colega Arimar. Ele lutou por minha amizade. Neguei-a.
Impossível dominá-lo, eu me tornaria seu capacho. Tentei, uma vez, defini-lo e
Narda me interrompeu:
– Querido, você não é
capaz. Eu sou. Quanto a você, livre-se dele, o quanto antes. Desvencilhe-se que
ele é uma sombra pesada demais. (6) – Não sei quem é esse Cavalcante. Talvez um
personagem. Sobretudo no Rio, se tenso, nervoso, dirigia-se à sua ampla
biblioteca e dizia-me: “out, Abelardo,
out, quero ficar sozinho”. E, como
narra, conversava com personagens, autores. (7) – Autonomismo. Os autonomistas
eram também conhecidos como “mangabeiristas”, partidários de Otávio Mangabeira,
político baiano muito sagaz, educado e bondoso. Uma das poucas ordens do
senador Petrucci que desobedeci foi a de tentar escrever a biografia desse
notável baiano, portentoso como orador. “O Mangaba – disse-me o senador – é
gostoso como a fruta que lhe dá o nome. Capaz de falar horas sem dizer quase
nada, ele se compromete somente com algumas ideias cardeais – e fica a salvo de
interpretações malévolas. Eu o invejo com todas as minhas forças, mas é uma
inveja calma: nós nos tratamos muito bem, embora sinta que ele não me aprecia
muito”. A biografia teria como contraposto o seu não menos respeitável irmão:
para este, nada, e tudo de bom para Otávio... É que o dr. João Mangabeira, de
tendência rubras, “aprontou”, para usar moderna gíria, poucas e boas para o
senador. Não escrevi biografia nenhuma, embora tenha preparado uns
apontamentos, discutindo-os com o único patrão que tive em minha vida. E,
agora, meus talentos e meu tempo voltam-se para outras curiosidades. Em todo
caso, saibam os jovens leitores, mereçamos eu e o senador a honra de tê-los,
que Otávio Mangabeira foi o líder autonomista, nos anos trinta, adversário dos holandeses ou “invasores” da Bahia. O
antigetulismo os uniu e então, triunfando o bom senso, “invadidos” e
“invasores” deram-se as mãos e, certamente, hoje são felizes, Graças a Deus.
Agora, enfim, a palavra ao senador e aos que, eu entre
muitos, vivemos, a contragosto ou não, o seu tempo, o seu mundo. Mundo e tempo
que acredito contido em versos de um poeta (Antonio Machado?) que o senador
amava:
“E este hoje que olha o ontem; e este amanhã
que nascerá tão velho”.
Guanabara, 3 de janeiro de 1970
Abelardo D’Antunes
PRIMEIRA
PARTE
Admiror Nec
rerum solum sed verborum
elegantiam. Ou seja:
“Admiro-me não só
das coisas e sim também da elegância das
palavras”. É pertinente brocado latino.
1.
Morávamos na Pituba, o mar na porta,
uma casa de remediados, a única de telha-vã naquelas redondezas. As outras,
disseminadas ao longo da praia, cobertas com palhas de coqueiros, eram
habitadas por pescadores. Tio Leonardo, íntimo de Deus, dos peixes, dos homens,
quem sabe amigo até dos fantásticos cavalos-marinhos, de fervoroso amante das
inquietas estrelas, tio Leonardo morava conosco: iluminava o quartinho dos
fundos.
Meu pai bebia. Cantava e bebia, italiano,
filho da Calábria, exímio artesão do couro. Brasileira era minha mãe, fêmea bem
dotada de ancas e peitos, lábios carnudos, amorenada. Nunca a vi sorrindo
enquanto meu pai viveu. E de seus olhos, juro, nenhuma lágrima, o menor sinal
de pesar, quando tio Leonardo resolveu morrer. Eu me recordo, ela disse que era
idiotice aquilo que alguns pescadores estavam a fazer, arriscando-se na
escuridão para encontrar a jangada na qual tio Leonardo saíra em busca do
oceano Norte.
–
Morreu, morreu, acabou-se, pronto – ela disse, gestos de pessoa enfadada diante
de tanto rebuliço. E embora soubesse meu pai triste, caminhando na praia, não o
foi ver.
Mulher miserável. O suco dos tomates
e dos sangrentos nacos de carne, suas unhas afiadas, duras, neles penetrando,
esmagando-os, escorria entre os dedos crispados. E caía – aquele caldo
temperado com ódio – caía, aos filetes ou aos pingos, sobre o macarrão, de fios
grossos, serpenteando no grande tacho de cobre. O jantar. Semanas e semanas
após a morte de tio Leonardo, o mesmo macarrão, o mesmo molho. Uma noite,
exasperado, ele gritou:
–
Inhoque, burra, amanhã quero inhoque!
De novo papai cantava. O vinho era
denso, amargo, de barril, vinho cor de sangue pisado. Eu gostava de bebê-lo,
apenas um dedo, ou dois, na caneca de alumínio. A bebida amornava o metal frio.
Minha mãe meneava a cabeça, a dizer-me não, Tonho, não beba, e com os dedos da
mão direita, cuidando que meu pai não lhe visse o gesto, configurava ameaça de
beliscão. Eu bebia sem medo, papai gostando, a cara gorda, vermelha, dentes
grandes, as mãos cabeludas, de muitos calos, ásperas, mãos curtidas, marcas de
cicatrizes. Ele gostava de pô-las em meu rosto, comprimindo-me as faces,
esforço de afago, a murmurar frases que eu não entendia.
Localizava-se no Taboão, bem
distante da Pituba, a sua oficina. Acanhada, fria, escura, encravava-se em um
dos sobradões de três a quatro andares, quase à borda do despenhadeiro, lá em
baixo, perto, a rua do Papel. Dali, como que um privilegiado mirante, podíamos
ver a colina do Bonfim, no alto a Igreja solitária, e então ele fazia o sinal
da cruz, olhando-me como se eu devesse repetir aqueles movimentos. Obedecia,
imitava-o, mas preferia espiar à esquerda e reparar no porto improvisado, na
ilha de Itaparica, adivinhando as rochas da Barra, e, além, no mar que se
estendia, imenso, mar que tio Leonardo conhecera pedaço a pedaço, mar que para
mim era o grande ventre do mundo. Uma intuição que conhecimentos posteriores
mostraram ser verdadeira: a Bahia é uma cidade do mundo. Excluída a paisagem,
basicamente ela nos chegou de fora, coisas e gentes se amalgamando,
portugueses, negros da África, árabes, turcos. Papai tinha uma espécie de nojo
dos ingleses.
Todos os dias, cedinho, ao sair para
o trabalho, caminhava muitos quilômetros. Alcançando a encosta de Brotas,
galgava-a e punha-se a esperar o bonde, puxado a burros, que o deixaria na Baixa
dos Sapateiros, onde o Taboão começa. Nos feriados, de volta, ao meio-dia,
fazia a pé toda a jornada, bebendo tragos de cachaça em quantas bodegas fosse
encontrando. E cantava, sempre. Juntos fizemos, inúmeras vezes, aquele
percurso, para outros demasiadamente longo e cansativo, para nós, o rei e seu
filho, uma festa de inesquecíveis repetições. Cantava “Oh! Mari/ Oh! Mari” e
olhava-me e perguntava:
–
Bela você, no?
Eu sorria, batendo a cabeça, a
concordar, sim, pai, sim, bela voz, belíssima voz, e ele, bem mais feliz,
voltava a cantar, avançando pelos descampados. (Repare no retrato dele, Abelardo, repare: quase um gigante. Destrua
este retrato. Destrua-o e esta é uma ordem. O de tio Leonardo, há anos
queimei-o, lá em Brasília, não no apartamento e sim na chácara, numa das minhas
noites de insônia, dúvidas e devaneios) . Nos caminhos que fazíamos, não
poucos o saudavam e ele acenava para todos, a alguns dizendo coisas, em geral a
barba por fazer. Marchava rápido, intrépido, os borzeguins a rangir. Para
acompanhá-lo era necessário que, de quando em quando, eu corresse.
–
Aqui! Aqui! – gritava e eu, quase sem fôlego, a ele me reunia, tomando-lhe a
mão lixenta, manopla de herói. Ah! Figlio...
– e me carregava. Concedia tempo suficiente para que minha respiração voltasse
ao normal e prosseguíamos e sentíamos como nossos os prados e os
enladeiramentos que se sucediam, terras e areais da cidade que muito lentamente
se iam expandindo na direção da orla atlântica. Falava, sempre falava. Debicava
de mim, a dizer-me um molengas, historiando que eu sua terra calabresa, garoto
e adolescente, ele e tio Leonardo divertiam-se a vasculhar cavernas de
montanhas, mesmo as mais recônditas, assim estabelecendo intimidade com uma
natureza que eu imaginava árida e violenta. Era com relevo que lhe ouvia as
descrições, garantindo-me – ou melhor, jurando – que quando crescesse seria tão
forte quanto ele, livre, valoroso, alegre, em condições de repeti-lo em tudo.
Dizia-me, cada momento com maior obstinação, que só não o imitaria na escolha
da mulher, que a minha, ainda sem rosto, seria alta, branca, capaz de beber e
de cantar, de sorrir e correr pelas praias, e distante iríamos, muito,
muitíssimo distante, vencendo as ondas e os vagalhões. Iríamos até onde mar e
céu se encontram, precisamente no local que tio Leonardo chamava “o grande
útero oceânico, fonte do sol e de Deus, oficina para a invenção do arco-iris”.
Mulher diferente não me serviria.
Muito menos se minimamente parecida com minha mãe.
Na loja, a trabalhar, habituara-se a
murmurar frases ininteligíveis, acredito que ora imprecações, ora lamentos
energéticos, sobretudo nas semanas imediatamente seguintes ao desaparecimento
de tio Leonardo. Talvez ao irmão se referisse, talvez nele pensasse quando, a
mirar a Igreja do Senhor do Bonfim, se persignava. Intrigante é que, não raro,
ele sorria: não tinha medo. (Morrer,
Abelardo, morrer! É uma certeza terrível, esta, a de que estamos condenados a
morrer. Todos nós, sem exceção. Vou beber o conhaque húngaro que Ivo comprou.
Por que diabo você descobriu tão tarde um homem da compostura, da civilidade e
do bom gosto como esse Ivo? Ele também vai morrer. E você. Vou dormir que o sol
está chegando. Goste de mim, Abelardo, porra, deixe-se de cerimônia). (Sabe como eu gostaria de morrer? Assim, o
sol chegando, um arco-íris, me transportando, levemente, para o grande útero
oceânico\).
Era na loja, ao lado do nicho pobre
de imagens, que meu pai guardava o retrato de tio Leonardo, preservando-o com
férvido amor. A fotografia mostrava um rapaz de olhos claros, feições entre
severas e alegres, parecendo rir e, no riso, um quê de espanto e outro de
interrogação. Intrigante suas feições, Criança, despreocupavam-me enredo deste
jaez, mas um dia algo me fez perguntar porque tio Leonardo fora temerário a
ponto de arriscar-se sozinho, a desejar tão longa distância, na direção da
oficina dos arco-íris, papai não me deixou concluir a frase, -- merda, Tônio, merda! --, deixando de
lado a pelica em que trabalhava, saindo de banda. Um dos ajudantes, chamava-se
Lobo, impediu-me de segui-lo em direção ao despenhadeiro.
–
Ele vai rezar, é só isso.
Então contei que tio Leonardo pedira
emprestada a jangada velha do homem de dona Jerusa e, nela, sozinho, gritando ciao, Vincenzo, ciao, Tônio!, largara-se na direção do oceano Norte, e
levava um garrafão de vinho tinto, pedaços de salame, broas, por que, seu Lobo, por quê?
–
Só seu pai sabe, mas não pergunte. Nunca pergunte.
Em outra ocasião, meses e meses,
depois da missa de ano pelo morto, rezada na Igreja do Rio Vermelho, missa paga
pelos pescadores, era noitinha, ouvi da porta de casa, meu pai gritando com
mamãe, e espiei:
– Leonardo
foi parido, burra!
Ela se escondia, junto da janela que
dava para o quintal.
–
Foi parido com sangue, fezes, urina, foi parido com amor. Você, cretina, você
foi cagada. Você saiu pelo buraco de trás! Você foi expelida como um coco
qualquer.
E cuspiu-lhe na cara. Chorei e para
que ele não desconfiasse do medo que sua violência me causara, fui à praia e
molhei o rosto com água salgada e fria; se me perguntasse porque aquilo, um
procedimento inusitado, eu mentiria: um
afogamento no rosto, estava brincando de chicotinho-queimado. Nenhuma
atenção para minha presença, saiu de casa, andando à toa, de um lado para
outro. Dormiria em seguida, era sempre assim, no pequeno quarto que fora de tio
Leonardo. Ali ela não entrava. E, se o quisesse de volta, teria que caminhar
até o Taboão, humilhando-se. Ignoro como ele reagia. Mas sempre retornava.
Em certas tardes, quando lhe dava na
veneta, fechava a oficina mais cedo e, de cambulhada com mascates, meganhas,
gentes outras que eu não identificava, descíamos a ladeira íngreme, quase
sempre barrenta, que terminava em pequena praça, a poucos passos da rua
Guindaste dos Padres, e então andávamos em direção ao mar da baía de Todos os
Santos e perto do porto permanecíamos a olhar os navios estrangeiros que
chegavam para descarregar caixotes, além de volumes mais pesados, trilhos,
sempre muitos trilhos (ah!, Abelardo, os
brutos assassinaram nossas ferrovias – e eram tantas!), em troca recebendo
sacas e sacas de açúcar, fardos de fumo, toros e toros do precioso jacarandá
hoje tão vasqueiro em nossa terra. Cacau? Não se falava ainda, que eu me
lembre.
Se divisávamos algum navio de
bandeira italiana, meu pai se excitava. E, todo contentamento, apressava-se em
fretar uma catraia e partíamos para abordá-lo e ele gritava para os marinheiros
e em muitas oportunidades subíamos nos
conveses, cativando-os, e aos oficiais, com ofertas de quinquilharias compradas
a dez-réis às mulheres que, na Pituba e em Itapuã, trabalhavam no aproveitamento artesanal das cascas de
coco seco. Conversavam, o máximo possível, ele e os tripulantes, enquanto eu,
maravilhado, reparava nas armações de ferro, – para
mim construções de indispensável brutalidade –, nas
águas sujas de óleo e queimados pedaços de madeiras, nos cascos negros dos
grandes barcos. Principalmente, eu reparava aqueles homens, em geral fortes,
troncudos, que vinham de terras estranhas, heroicos amigos, generosos quando
nos ofereciam garrafas de vinho, pedaços de queijos, salames. De volta à
catraia – não havia ainda porto, os navios ficavam no largo –,
quase sempre meu pai se mostrava triste. Numa ocasião dessas, vi, chorou
mansamente e imaginei que um dos bravos marinheiros mencionara tio Leonardo.
Percebi-lhe as poucas lágrimas. Ele tentou disfarçar, escondê-las mas eu as vi,
não o temesse beijaria seus olhos úmidos, e o amei mais do que nunca. Era rei e
era homem, força e ternura combinadas.
Visitavam-no, quase todos os
domingos, seus ajudantes mais aptos aos serviços e à amizade. E alguns
patrícios italianos, igualmente artesãos do couro. Com exceção do sr. Giuseppe,
indivíduo caladão, os convivas eram comunicativos, algazarreiros. Os da terra
pitubana, inclusive dois ou três pescadores, reuniam-se na sala da frente:
bebiam cachaça e jogavam dama. Ou contavam histórias. Os italianos, meu pai os
agremiava no quintal, acomodando-os em tamboretes, área onde muitos coqueiros
propiciavam sombras. Bebiam vinho e cantavam, e como bebiam e como cantavam!
Na cozinha, debruçada sobre o fogão
à lenha, mamãe preparava a comida, panelaço de macarrão e frigideiras. Arisco
que era, a querer gozar de tudo, eu me dividia entre a sala e o quintal,
olhando minha mãe trabalhar, entendendo como parte das normas que regiam a
festa lhe escorrer lágrimas pela cara abaixo, simples consequência da fumaça a
ofender os olhos. Culpa dela, e só. Mulher incompetente não sabia escolher
entre a boa e a má lenha.
Alto e solitário, o sr. Giuseppe
abancava-se na frente da casa, sob o sol, protegido, no entanto, por chapelão
de palha enfeitada com fitinhas verdes. Cruzavas as pernas finas, distraía-se a
folhear revistas antigas, italianas e francesas, clichês em sépia, e quase
todas traziam fotografias da Exposição de 1889, em Paris, a Torre Eiffel como
atrativo principal. Por motivos que escapam, ainda hoje, à minha capacidade de
inteligir as coisas, os demais, até papai, lhe tinham respeito. E minha mãe
exagerava, em seguidas ofertas de água de coco. Era o primeiro a chegar, como
se precisasse de pouso, era o último a sair. Não me lembro de, na Pituba, dele
ter ouvido mais que o essencial. Em particular se as questões tratadas não se
referiam a negócios. Neste tópico, aconselhava se lhe pediam, e sumiticava
palavras, gestos. Um inglês. Depois, com jeito a significar aborrecido “se me
permite”, voltava à posição antiga, esfingélico. A mim, assevero, o
filho-da-puta nunca enganou.
Concedendo-lhe privilégio, minha mãe
levava-o à borda da praia, aos anúncios do cair da tarde, ausente todos os
demais convidados, enquanto meu pai, à sombra do nosso coqueiral privativo,
dormia e suava sobre a esteira sem forro. Uma vez na praia, caminhando, sempre
inteiriçado, careca à mostra, um tanto de longe dava de testa e acenava tímidos
adeuses. Ela respondia, desenvolta, satanicamente bela, e quedava-se a vê-lo
desaparecer entre as então alvas dunas. O sr. Giuseppe não gostava das trilhas
que conduziam a Brotas, possível medo diante do perigo das cobras escondidas
nos densos matagais. Em verdade, falava-se de jiboias que esmigalhavam os ossos
de bois e vacas, antes de devorá-los. Ele preferia o seguro: caminhar, mesmo
que muito caminhasse, até a povoação do Rio Vermelho, ali pegando o bonde até a
cidade.
Papai, quando despertava, por volta
das cinco da tarde, ou pouco mais adiante, ia à praia dos “onze coqueiros”,
árvores anãs que, em noites sem lua, pareciam eriçados espantalhos. Se me
atrevesse a acompanhá-lo, ordenava que o deixasse em paz, via, via via! Queria-se solitário para recordar tio Leonardo ou
quem sabe a imaginar-se de novo adolescente em sua terra calabresa. Ou a
planejar novos deveres profissionais. Era todo o seu mundo: a memória, a
oficina, a casa, os amigos, aqueles repetidos caminhos nunca tediosos, as
apetitosas lavadeiras de Itapuã, eventuais encontros com os marinheiros. Em
tarde domingueira, uns dois anos após a morte de tio Leonardo, porque não o vi
caminhar em direção à praia de usual refúgio para meditações, perguntei:
–
E papai, cadê ele?
–
Vá beber seu café, Tonho, senão esfria. Ele está com gostinho de chocolate...
– Cadê
ele?
– Foi
vomitar lá pelos matos. Foi vomitar a nojeira.
Mentia, maldosamente. Ele estaria
escondido em meio às dunas ou caminhando entre coqueirais, a pensar e rezar,
dela e de mim encobrindo sua tristeza. Contentamento no seu modo de dizer a
inverdade estúpida, o meu desejo foi o de chamá-la bruxa cagada, mentira porque um rei não vomita, e nada
disse, temeroso, e alegrei-me, uma vez mais ao ver suas unhas sujas de pó de
carvão, lágrimas secas no rosto. Meu pai não a tratava a pão-de-ló.
2
Um dia santificado, dia que odeio,
não por acaso faltei à solenidade de minha formatura como laureado bacharel em
Direito, no maldito dia, (8 de dezembro, consagrada à adoção de Nossa Senhora
da Conceição da Praia), ele morreu depois do almoço, unicamente minha mãe e a
vizinha Jurema a lhe assistirem a agonia. Eu estava longe, corria picula com
filhos de pescadores.
Urrou
como um porco. Como um porco a ser sangrado – minha mãe, fingindo-se de
luto, contou assim ao sr. Giuseppe, de noite, no velório. Puseram-no na sala,
caixão grosseiro, lenço encardido atado do queixo à cabeça, para que não
abrisse a boca, desse modo permanecesse escondida língua, enodoada de vinho.
Eram poucos os vizinhos presentes àquela cruel cerimônia, a mesa no centro da
sala, o caixão sobre a mesa, cadeiras e tamboretes dispostos em semicírculo,
todos os candeeiros de mechas acesas.
Até mais de onze horas, quiçá além
de meia-noite, permaneci na porta, sentado no “banco-de-três”, e então, sim, eu
pensava na morte como a pior das desgraças. Antes a danada não existia para
mim, porque no meu entendimento tio Leonardo encontrava-se apenas desaparecido,
algo inexplicável, além do que conseguia inferir ou intuir, muito menos
compreender. Ou uma incerteza. Meu pai, não. Meu pai estava morto. Vento
naquela noite, quase nenhum, tempo pesado e a maresia forte. Eu tentava
apreender o significado da informação transmitida por minha mãe ao sr.
Giuseppe. Desconhecia o verbo urrar e nada sabia sobre o morrer de um porco. E
esse não saber transformou o medo em pavor. Doidas fantasias defenderam-me de
maiores danos. (Anos depois, Abelardo,
não muitos anos, eu já rapazote, e fui ao matadouro do retiro e quis assistir
um porco a morrer, ouvi-lo guinchar, a urrar, e me disseram que só de raro em
raro sangravam-se porcos sob fiscalização municipal. Distinto funcionário
explicou que os criadores de porcos, de resto uns poucos, tinham seus próprios
matadouros, improvisados nos fundos de roças ou mesmo quintais. Sob a
influência do Zito, na primeira viagem à Europa nem pensei no tema. Mas em
Paris, 1945, lembre-se, a doce paz poucos meses antes alcançada, fui o único a
não ir ver Dunquerque. Preferi o matadouro parisiense e lá os que me atenderam
disseram-me que os porcos e demais bichos destinados aos repastos humanos
morriam de modo civilizado: eram anestesiados, ou algo assim, antes do golpe
fatal. Urros? Não, não, não. Nem gritos).
Na sala, a madrugada chegando,
restavam minha mãe e o sr. Giuseppe, de costas para o caixão. Ela mandou que eu
entrasse e maquinalmente obedeci, loca esperança envolvendo-me, e quando o sr.
Giuseppe pôs-se a fechar a porta, ouvi o não!
da mulher, rouca a voz, ele não aldravasse a porta, por favor, que em noites de
velório todas as portas e janelas deviam ser mantidas abertas e acesas todas as
luzes da sala do morto. O sr. Giuseppe concordou, no íntimo deve ter
considerado infantil a superstição, e desejei, em crise de desvario, que
chegasse logo a comissão de marinheiros italianos a exigir-lhe a entrega do
corpo do rei, não lhes pertencia e sim à Congregação dos Sábios Alegres e Bons,
presidida por tio Leonardo, majestade numa ilha sem nome, no Grande Oceano
Norte, um paraíso nós sabemos, sr. e sra.
Giuseppe, nós estivemos lá, temos ordem de levar conosco o obediente menino
Tônio, e ouvi – juro! – o chamado de tio Leonardo, viene, Tônho, viene com noi! e corri para praia e ela me perseguiu
e alcançou e empurrou-me em direção à casa. Entre
de uma vez! – gritou, chorosa, soluçante, e esperei dele uma bofetada e não
houve a bofetada. Eu o aturdira. Ela determinou caminhasse para o outro lado da
sala, o lado do quintal. Evitei olhar o caixão, uns segundos, e quando olhei já
não era o mesmo homem de horas atrás. Estava mais morto, o rubor da face
desaparecera, a pele amarelecendo, e quando, de inópino, ganhando coragem, lhe
quis abrir os olhos para ver se ao menos em um deles havia sinais de vida, o
sr. Giuseppe empurrou-me para o canto, quase um safanão, se acostume, Tonho, não irrite sua mãe! e eu fiquei naquele canto,
de pé, agora muito maior o medo, porque além da morte em meu pai, agora uma dor
que certezas encorpavam, também eles agiam brutalmente contra mim.
Eu crescera, até aquele 8.12.1911,
sem curiosidades e quanto me trouxesse tormentos, com eles não queria
compaginar minha e existência feliz.
E ali estava e em dia santificado e naquela sala, em tudo, mesmo no silêncio, a
presença do pior dos malefícios e a me impor, como real, concreto, o que para
mim sempre fora uma impossibilidade permanente: o rei estava morto, ventre
intumescido pelos gases do vinho fermentado e das carnes a se deteriorarem, os
grossos lábios artificialmente colados, pálpebras descidas, cadáver. Besteira
eu ter corrido para praia, desesperação haver imaginado os marinheiros
italianos, a voz de tio Leonardo, e sensatamente me disse: estes dois aqui, sim, estão vivos, Tônho, e podem matar outra vez,
e vi minha mãe apatetada e vi o sr. Giuseppe caminhar para o quarto e logo mais
ouvi ruídos, os do seu corpo a mover-se na cama de ferro: ele invadia o mais
íntimo dos domínios de papai.
E fui para o outro canto da sala,
aquele onde existia acesso ao quarto em que dormia. Dali, eu mirava e remirava
minha mãe a alternar três movimentos básicos: sentava-se num dos tamboretes,
olhos no chão, pensando; levantava-se, ia até a porta, respirando fundo; e
finalmente espiava o sr. Giuseppe, decerto admirando aquele homem grande e
magro, de queixada larga, muitos cabelos nos ouvidos e nas narinas, e, como
depois eu viria a conferir, de ressonar compassado. Enquanto, na sala, estive
desperto, nem uma vez ela olhou o corpo de meu pai. E porque comigo também não
se preocupava, em mim o medo enfraqueceu, e, momentaneamente supondo-me em
segurança, chorei sem soluço ou qualquer barulho. Eu chorava a maior de todas
as ausências e querendo minha, somente minha, aquela dor fui para o quarto.
Dormi sem me dar contas. De manhã,
quando acordei, minha mãe surgiu com determinação peremptória: eu devia escovar
os dentes – areá-los, como dizia --, beber o mingau de café e sair logo para a
praia, brincar, regressasse justo na hora do almoço, nem antes, nem depois, e se acostume com os desígnios de Deus,
Tonho, ou Ele castigará você; só Deus sabe o que nos convém, e reprimi as
perguntas que em mim cresciam – a você,
bruxa cagada, convém o sr. Giuseppe; e eu? O que me convém? – e para que
ela não descobrisse meu atordoamento, eis que doía engolir indagações
essenciais, marchei para o quintal. Na tina fiz as abluções e quando quis
retornar à sala, o sr. Giuseppe impediu-me e minha mãe, secundando-o, as mãos a
me comprimir as espáduas, apontou a praia. Vi, então, no varal, pendurada ao
sol exposta, a roupa preta que meu pai odiava. A única má herança trazida da
Calábria, jamais a usara, sequer na missa-de-ano de tio Leonardo. E iam, agora
que estava morto, indefeso, iam vesti-lo com os panos pretos, atassalhando-o,
perversa vingança.
Na praia, decidi caminhar e
caminhei, a imaginação robustecendo um medo sempre mais opressivo. Perto de
trecho já conhecido como “Chega Nêgo”, alguns meninos divertiam-se a chuçar um
xaréu que o mar ali depositara, peixe morto por doença, quiçá abatido pelas
“cabeçadas” dos golfinhos, e chamaram-me e continuei andando e vi homens em
jangadas, mulheres nos seus afazeres de terra, e chorei de novo, como o da
véspera um choro sem testemunhas. (Eu
nunca permiti, Abelardo, que alguém me visse em lágrimas, salvo em circunstância
muito especiais. Meu pai me ensinou, em dia de catraia, que um homem de verdade
deve trabalhar e cantar, domar as fêmeas, emprenhá-las, amar os filhos e
educá-los para que ganhem seu próprio pão, e dormir abraçando esperanças em
amanhãs mais alegres, temendo a Deus, Nosso Criador, assim um homem deve viver,
guardando as lágrimas para adoçar as emoções dos bons reencontros. Eu quis ser
assim, Abelardo, você sabe, mas não me deixaram. “E tudo – ele falou olhando
minha alma, nela imprimindo suas palavras – e tudo feito com muito amor: o
trabalho, o canto, o riso, o próprio amor. Nada se faça na fraqueza”)
De volta, notei, havia uma carroça
na porta: o enterro e era pouco mais de meio-dia. Pelas conversas depreendi que
antes do cemitério, Quinta do Lázaros, um médico deveria vistoriar o corpo,
capacitando-se para expedir o atestado de óbito, e o sr. Giuseppe informou que
isso já estava acertado com um doutor do Rio Vermelho, ele nada cobrara de seus
eleitores e não era careiro como os demais. Concordando, o carroceiro sugeriu
que era hora de partir, o sol estava endurecendo, um pescador disse “sol dos
diabos nas costas da gente, mas bom para os peixes”, o sr. Giuseppe anuiu, “é
isso mesmo”, e observou que como os bondes-bagageiros não aceitavam cadáveres,
coisa assim, tinham todos de ir andando até o cemitério, bem longe, e se você está pronta Sophia, eu vou pegar
meu chapéu.
– Estou.
Usava o seu único “vestido de sair”,
espécie de bata creme que ia do pescoço ao chão, toda abotoada, escondido os
braços roliços, bem torneados que papai, quando calmo, gostava de alisar. Ela
avisou que meu prato de macarrão fora posto na mesa, eu comesse, faça tudo direitinho, Tonho, que dona Jerusa
vai ficar cuidando de você. O carroceiro, um sujeito de maus-bofes, ora a
apalpar o chapéu de couro cru, ora pondo-o na cabeça, olhava sem emoção o
esquife de meu pai, atadas as cordas grossas, espinhentas, sujas de gorduras e
poeira: elas prendiam o caixão ao reboque. Dele tinham medo, mesmo morto. Ou
não exagerariam naquelas preocupações quanto a prendê-lo. O retorno do sr.
Giuseppe fez com que o carroceiro gritasse eia,
burro! e chicoteou o animal, a seguir puxado na direção da trilha do gado,
pouca gente no cortejo atrás da carroça. E se foram, que tinham pressa, e
andei, na mão esquerda o prato trazido por dona Jerusa, andei em direção
oposta, desinteressado por comida, e se sucederam as praias úmidas, o mar puro,
azul, alvas espumas nas suas bordas, mais de uma hora caminhei, tempo não me
faltava. Itapuã, então, o sol ainda a pino, era cedo para as lavadeiras dos
córregos nas imediações do Farol, certo viriam mais tarde, logo amainasse a
quentura, fossem mais propícias as sombras de coqueiros, de mangabeiras, de fruta-pão
e outras frondosas: eram muitas as amendoeiras com seus frutos. O prato de
comida deixado entre os coqueiros anãos e estéreis, a morder, para enganar a
fome, amêndoas que me arroxeavam língua, lábios, partes do queixo, atribuí-me a
obrigação de esperar as lavadeiras, nalgumas ele montara, e anunciar-lhes que o
rei travara sua última batalha, aquela que mínguem vence. Nunca mais, por isso,
beberiam do seu vinho, nunca mais o escutariam a cantar, nunca mais o teriam as
fogosas. E deitei na grama, o vento que vinha do mar a acariciar-me as pernas,
o peito, o rosto, e dormir. O sono adiava a definição do ódio.
Próxima a noite, regressei e eles
não me agrediram, apesar de dona Jerusa haver xeretado sobre a comida
abandonada, sobre a longa ausência. De
tanto não entender – ela completou – o
pobre amagriçou muito de ontem para hoje, dona Sophia, e mamãe disse coitadinho, os dois eram muito pegados, levando-me ao fundo do
quintal, onde, após banho de cuia, água morna, recebi o macacão limpo, passado
a ferro-de-engomar. Desempenhava para o principal espectador, sr. Giuseppe, o
papel de boa mãe, acariciante as mãos, os dedos agora livres do pó de carvão ou
fiapos de carne-de-boi, um xale novo, marrom escuro, decerto comprado pelo
intruso, caindo da cabeça até os ombros: juro que ela estava não direi feliz e
sim descontraída, nos olhos, no rosto, sumida a tensão habitual.
Mastiguei pedaços de inhame e fui
para fora, em busca do amado “banco-de-três”, ali onde, com frequência, papai e
tio Leonardo me esperavam, antes, para agrados e histórias. A noite, e uma
noite muito bonita, veio logo depois, de certo modo festiva. Em certa
oportunidade meu pai gritou ao ver estrela riscando o céu:
–
Veja, Tônio, ela está caindo!
Quando perguntei onde a estrela
havia caído, em que mar, respondeu que ninguém sabia. E olhou-me – fui, então,
mais do que seu filho—e disse que com certeza em um mar. Estrepolias do bom Deus – disse tio Leonardo, explicando que Deus é
alegre e tanto que joga petecas usando estrelas. Mas, advertiu, às vezes erra,
que o supremo de tudo e de todos também erra, e aí as estrelas Lhes escapolem e
caem. Elas se afogam, elas morrem? –
e os dois riram de minha indagação. Supondo-a desnecessária, não me deram resposta.
Eu de mim, construí uma certeza, efêmera, sei, mas de valor alegórico: as
estrelas, porque são brinquedos de Deus, não se quebram, não se afogam, sempre
permanecem. Mudam de lugar no céu, mas não morrem.
No dia do enterro, noite e o céu
pejado de flores recortadas em pedaços de luz, indicando o caminho principal,
ao surpreender mamãe e o sr. Giuseppe em confidência, defini o ódio como um
sentimento permanente, a serviço da purificadora vingança, e esforcei-me para
que de uma mentira se imbuíssem, a de que eu me encontrava desarmado de
intenções a eles prejudiciais, a de que seria obediente também a dona Jerusa, a
de que nunca mais iria ver as lavadeiras de Itapuã, a de que... a de que...
enorme peta com muitos braços. Olharam, porém, apenas de modo aprovativo, sem
qualquer entusiasmo, e minha mãe indicou-me a mesa, hora da janta. Falou para o
sr. Giuseppe:
–
Jerusa disse que estão contando que a jiboia matou um velho que dormia na rede,
em Itapuã.
–
Também soube.
– Eu tenho medo de ficar sozinha com Tonho.
–
Nem deve. Se sente, Tonho.
Onde, na véspera, fora colocado o
caixão, encontravam-se, devidamente arrumados, os canecos, a travessa com
bolachas-de-macaco, uma espécie de terrina as rodelas de inhame e de fruta-pão.
–
Você devia trazer a pistola que você tem. Por causa da jiboia.
–
Amanhã. E vou mandar afiar mais o meu facão.
–
É bom, Giuseppe, é bom. Jerusa disse que a jiboia matou o velho e depois comeu
o velho inteirinho.
–
Também soube que foi assim.
Bebi um caneco de mingau, mastiguei
umas quatro ou cinco bolachas, gostava, e ela perguntou só vai comer isso, menino? e repeti a dose. Esquecendo a jiboia com
ela não me impressionava, o sr. Giuseppe, adotando outra tática, considerou
natural a minha inapetência, atribuindo-a ao tão inesperadamente acontecido, e
comi mais bolacha, mais fruta-pão, e perguntei:
–
Posso levar mais bolacha prá comer lá fora, posso?
–
Pode, mas não demore.
Enterrei as bolachas na areia e,
estômago pesado debalde tentei provocar o vomito, apressado para que não me
vissem. Chamado, com insistência chamado, voltei à casa e o sr. Giuseppe,
explicando que ela ia dormir em meu quarto, sua
mãe não prega olhos desde a noite passada, guiou-me até o canto para o
qual, no velório, me empurrara. Ali fora armada minha cama provisória.
–
Deixe eu dormir no quarto que foi de tio Leonardo.
O sr. Giuseppe pareceu concordar,
mas minha mãe interveio:
– Não.
Lá, não. Por causa da jiboia.
Eu sabia ser mentirosa a presença da
grande cobra de Itapuã. Verdade fosse, dela as lavadeiras me teriam falado;
Emília, uma escurinha, a preferida de papai, haveria de me fazer mil
recomendações.
A cama limitava-se a um colchão de
palha sobre estrado obtido de caixões justapostos; um biombo de chita,
predominância verde, que ele trouxera na viagem de vinda da carroça,
garantia-me razoável privacidade. E, apressado, me encerrei no cárcere colorido
agudizando minha potência auditiva, ouvindo os murmúrios que vinham das
imediações da porta principal, mamãe e ele em rápidos cochilos e demorados
silêncios, agora esquecida a canalhice da jiboia, como se conchavassem os
pormenores da noitada. O vento amigo, incorruptível, penetrava pelas frestas do
telhado e das janelas, um zunido comum, do ontem e dos meus iniciais anos de
preparação, criou apaziguadora ambiência, induzindo-me ao sono. E dormi e
sonhei e sonhando ouvi a voz do rei, cheia, poderosa, alegre, na canção sobre
os marinheiros capazes de conhecer todas as cidades do mundo, sem desamor
àquelas de suas origens, sempre retornando. Se não me engano, “Ritornello”,
este o nome da canção, e minha mãe, no entanto, chamava-se Sophia, assim, com ph e ignorava que as estrelas são
brinquedos de Deus, petecas, com elas Deus se diverte e encanta o mundo, espalhando
beleza e alegria; e como as coisas de Deus não morrem, as estrelas fingem o
sumiço mas realmente não caem e sim mudam de lugar no céu.
INTERRUPÇÃO
– I
Dr. Abelardo, bom dia. Perdoando eu
interromper e educado como o senhor é sei que perdoará este bilhete,
interrompendo o trabalho, é aliás está um trabalho muito ruim, cheio de erros,
é a primeira vez que uso máquina elétrica. Interrompo para dizer que se
soubesse que se tratava de um trabalho tão triste, um troço que me põe na
fossa, eu digo francamente que não aceitava. Pobre criança! Tem muita mãe assim
mesmo, só pensando nela. Tem mãe pelaí que tranca os meninos no apartamento e
se manda para jogar biriba ou buraco com as amigas, quando é mesmo jogo assim,
inocente. Quando não é biriba, o senhor já viu, não é?
Garanto que amanhã mesmo trago uma
colega para me substituir e quando eu disser como se almoça aqui no duro que
ela vai aceitar. Respeitosamente, assino e dato esta.
Salvador, 2 de janeiro de 1969
P.S. – Tá na cara que só cobro
cinquenta por cento do trabalho feito. A mesma Marluce.
ESCLARECIMENTO
II
Minha cara srta. Marluce.
Antes de tudo, e em nome do meu
Mordomo, o sr. Ivo, agradeço o elogio quanto à qualidade do almoço que lhe foi
servido. Posso garantir: o sr. Ivo é capaz de dias bem mais brilhantes.
Embora não exista, entre nós, quanto
a trabalho, um contrato em bases comerciais, há, digamos assim, um compromisso
moral e estou esperançoso de que a senhorita não o descumprirá se a causa for a
alegada. Por obséquio, não seja apressada. Erros? A rigor não os encontrei. Ou
melhor, um: o nome do pai do senador é Vincenzo e não Vicenzo. Ademais, uns
senões. A senhorita é uma profissional muito competente e mais será na medida
em que se familiarize com esta máquina. E, de resto, teremos de datilografar
uma outra vez, por força de emendas que penso introduzir no texto. É por este
motivo que deste modo respondo.
Não me visse forçada a viajar, ainda
esta noite, para Brasília, questão urgente, e teria o prazer de prestar
esclarecimentos sobre o finado senador Petrucci. Logo regresse,
eu
o farei. Assim, senhorita Marluce, prossiga. Muito cordialmente,
Salvador, 2 de janeiro de 1969
Abelardo
D’Antunes.
3.
Adulrerium est
ad alterum thorum vel
utenum acessio.
Ou seja: “Adultério é
a acessão ao leito ou útero de outrem”.
Ainda outro pertinentíssimo brocado
Latino: Sine
dolo adulterium non
Committitur,
Ou seja: “Não se comete
Adultério sem dolo”.
O sr. Giusepp escanhoava-se com a navalha
de meu pai. Usava , igualmente, o pente de osso e, ainda, a escova para
cabelos. De meu pai, também, o par de chinelos, a calça de pijama, a toalha em
volta do pescoço. Uma inominável usurpação! Para mim tudo fora posto pelo
avesso. Não me surpreenderia se a mulher há vinte e quatro horas viúva,
perdendo de vez o siso e endoidecida pela repentina liberdade conquistada, se
pusesse a bailar e mesmo saracotear dentro de casa, quiçá até na praia,
esganiçando cantorias: ela não ficava fascinada quando tio Leonardo cantava e
dançava terantelas? Não era percebível, nela, a vontade de acompanhá-lo?
Não dançou, não cantou. Ou talvez o
tenha feito, de noite, a cuidar, os dois parceiros imundos, que não os visse em
esbórnias. Ela temia minha vigilância, a ponto de abandonar o hábito de beber
dois ou três dedos de cachaça antes do almoço. Continuava a cozinhar e a lavar,
a coser, arrumando e varrendo a casa persistindo na farsa sobre a jiboia. E
dormia, ou fingia tal, em meu quarto, o sr. Giuseppe ocupando o “do casal”, a pistola
no tamborete a servir como mesinha de cabeceira. (A famosíssima jiboia, Abelardo, satisfaço-lhe a curiosidade, acabou
sendo morta, bem lá longe, perto de Arembepe. Jamais esteve mas imediações da
Pituba, mas reconheço que o medo era generalizada.)
E reconheço, senhores, que mamãe
apenas deixava os afazeres domésticos para conversar com dona Jerusa (ensinava
tricô, aprendia a fazer colares de conchas) e quando acompanhava o sr. Giuseppe
à saída de casa, esperando que, de longe, na trilha de barro batido, ele
acenasse. Hábito antigo, a trilha era nova. Ao entardecer, parecia
pressenti-lo, esperando-o sem açodamentos, sentada no banco-de-três. Uma tarde,
porém, e se não estou em erro aconteceu numa quarta-feira – exatamente um mês
depois do espetacular enterro da serpente (1ª) – ,o sr. Giuseppe surpreendera
pelo inesperado de sua aparição: o sol ainda estava forte . Além do mais, viera
pelo caminho de Brotas, remunerando, generosamente, o cavalariano que, de sabre
desembainhado, o escoltara, dando-lhe proteção contra invisíveis perigos, aos
quais meu pai nunca se referira. O calhorda temia a própria sombra.
Despedido o cavalariano, sentaram-se
nas cadeiras da sala, cotovelos sobre a mesa, e ele mostrou papéis com muitos
selos e carimbos, nela numa alegria que percebi de modo fácil, uma alegria que,
meu pai vivo, eu julgava convizinha do impossível. Ao darem comigo a notá-lo,
tornaram-se sérios, frios, impenetráveis. Aquele alegrão, pelo visto era
indivisível por três e entendi recomendável sair, adentrar-me na praia, não
mais vê-los, sumir.
E havia na praia um grauçá e eu o
segui, silencioso como uma serpente. Sabia como agarrá-lo, arrancar-lhe as
patas, atirando-o, depois, ao mar, fosse para alimentar peixes, fosse para
apodrecer entre as algas: era uma das mais antigas diversões da meninada.
\consegui prendê-lo, puxei só uma das patas, lançando-o sobre a areia; que se
salvasse, não merecia meu ódio, ele e os demais que covardemente se escondiam.
Eu era mais forte, poderia dar-lhe combate, vencê-los, ainda que contra mim se
reunissem a milhares vindos de outras praias em hordas, traiçoeiros nos
ataques. Usaria fogo para dizimá-lo. Chefiaria os outros meninos e nós os
queimaríamos com fachos incandescidos, matando-os aos montes. Àquele grauçá,
uma vez dominada a animus necandi (2ª) que me intranquilizava, eu
disse brandamente:
– Esconda-se na areia, bichinho,
aproveite minha bondade.
E fui didático:
– Aprenda a fugir, a fingir que é
alga, a fingir que é rocha, a fingir que é parte da espuma, aprenda a nadar e
vá homiziar-se numa ilha desabitada que tenha frutos e cocos de boa água.
– Tonho, venha para casa menino!
(1ª) -- \Numa das notas adicionais conta o
finado a impressão causada ao menino Petrucci pelo fato de a jibóia ter sido
enterrada em meio a uma mistura de missa pagã e carnaval. Pode ser verdade.
Entre as bugigangas que deixou há uma pele de serpente, mais de três
metros de comprimento, uns doze
centímetros de diâmetro.
Era a voz dela, de pé, na soleira
acimentada, gestos imperativos, e atendi. Seguiu-se o habitual: banho-de-cuia,
macacão, chinelos, o jantar, e olhar as estrelas, agora despreocupado sobre a
importância daqueles papéis assinados, selados, carimbados que lhe motivara a
vespertina alegria. Era noite, outra vez. Ela falou;
– Agora que mataram a jiboia você
pode, se quiser, dormir no quarto que foi do seu tio. Você quer?
– Não, senhora.
– Então, durma no seu quarto que
dormirei lá.
– Sim, senhora.
– Amanhã vou fazer chocolate para você. Você
gosta?
– Muito.
– Chocolate engorda, Giuseppe trouxe
o pó e dois ovos.
– Eu gosto muito.
Na sala, desfeita a cela que me fora
armada, luzia o candeeiro maior. Mamãe o deixava aceso, até de manhã. Pelo menos
algo específico das supertições de meu pai e tio Leonardo havia sobrevivido: a
luz amarela do candeeiro maior. Para indicar a presença de terra e vida,
deveria existir, sempre, um foco luminoso, pequeno que fosse, de qualquer modo
luz em todas as vivendas e que tal luz pudesse ser distinguida à distância, Ela
avisou:
– Não é preciso acordar cedo por
causa do chocolate. Eu chamo você, na hora.
– Sim, senhora.
– Vá andar pela praia que você comeu
muito inhame.
Obedeci, evitando outro “sim
senhora”, e monologuei criancices, garantindo aos grauçás que lhes traria uma
colherzinha do chocolate, manjar exclusivo dos muitos ricos naqueles anos: o pó
era importado e só poucos se davam ao luxo de usar ovos na alimentação. Quando
podia, papai comprava para a dieta de tio Leonardo. Cabiam-se, as vezes, duas
ou três colheres, e gritava: “xô, comilão, xô”, ele sempre feliz, sempre
engraçado, eu sem poder rir porque não engolir de vez a deliciosa infusão. A
deglutição era feita gota a gota, ou quase isso. Depois, com a língua procurava
restos no saco gengival, nos interstícios dentários. De retorno, eles e aquele
papelório, não os interrompi e quando deitei, corpo e espírito pisados pelo
cansaço, a boa expectativa de desjejum milionário, dormi alegre, com tempo de
ver manchas de claridades nas faces das telhas enegrecidas: o meu quarto
somente a parede, que ia até o teto, o separava da cozinha.
Manhã ainda não era, à noite, porém,
a se acabar começos de iluminação de Deus, tímidos amarelos e vermelhos uniam-se
ao foco mais intenso produzido pelo candeeiro maior\; ruídos na cozinha
acordaram-se. Ruídos que não eram os dela, facilmente identificáveis.
Imaginando presença de nova jiboia (na verdade tratava-se de
(2ª) – Animus
necandi. Expressão latina a significar “intenção de dar morte a...”
Doravante, por decisão que tomo, os leitores ficarão livres da latinice do
senador, salvo quando citações latinas forem, a meu juízo, absolutamente
indispensáveis. Delas o finado abusava, a ponto de cochilos como considerar – veja-se
a epígrafe do primeiro capítulo – Admiror nec rerum solum sed verborum como
“pertinente brocado jurídico”.
um
gato faminto), saí do quarto à sala, querendo avisar o sr. Giuseppe do perigo –
e vi os dois na mesma cama, a “cama do casal” !, ela toda coberta, um lençol de
cores em conflito, retalhos cerzidos uns nos outros, compondo gigante
aberração. E vi o dorso seco do sr. Giuseppe e vi sua mão direita entre as
coxas de minha mãe, como a proteger-lhe o sexo; não bastasse o lençol, a mão
imunda sobre o grauçá negro. Eu o conhecia, sabia-o dissimulada sob os cabelos
amarronzados, já o vira aberto, escancarado, a vermelhidão do seu interior, ela
nua ao lado do meu pai também nu, aquela coisa que o fazia retornar sempre,
aquele poço, aquele túnel, aquele corredor entre pernas belíssimas, aquele
caminho, e agora era aquela mão pestilenta – insuficiente à colcha! – que o
defendia de meus olhos e dos clarões que, mais e mais testemunhadores,
penetravam nas gretas do telhado, da janela, da porta principal.
Aquela mão contaminada me esganaria
se eu acendesse um facho e tentasse queimar o grauçá negro; o fogo vingador e purificante,
ao crepitar, o despertaria e eu decidi que seria útil afastar-me
silenciosamente, mastigando a perfídia, a traição, proibindo-me rompantes, sem
provocar a ira da mão assassina. Assassina por cumplicidade. Porque – disso
estou convencido – meu pai foi assassinado!
De novo no quarto, gritei:
– A jiboia! Me acudam!
O sr. Giuseppe apareceu com a
pistola na mão, cobrindo-se com a escandalosa colcha de retalhos:
– Já mataram a jiboia, menino. Vá dormir.
– Então é um porco. Mate ele.
Ouvi perfeitamente, a chave na
fechadura da porta da frente, depreendi mamãe escapulindo, nua talvez, pelo
lado de fora, chegar até o quarto de tio Leonardo. Pedi ao sr. Giuseppe:
– Abra depressa a porta do quintal.
–
Espere. Eu vou me vestir. Não saia daí.
Minutos depois, mamãe ao seu lado
ele voltou, um gato seguro nas mãos. “Foi isto”, disse, soltando o gato.
Perguntei:
– A senhora pode preparar logo o chocolate?
– Não. Hoje, não. Outro dia.
O adiamento era decisão punitiva
pelo alvoroço causado e saí pela porta do quintal. Na praia, não desfeito o
rancor, em todo o caso disposto a aquietá-lo, rememorei que, antes da tragédia,
o rei vivo, dono da casa, dono de tudo, ali, na cama de ferro, algumas vezes eu
o vira deitado, poderoso, em começos de manhãs. Mas, somente em quatro ou cinco
oportunidades foi-me possível entrever-lhe todo o rosto. Papai dormia sobre o
lado esquerdo, a face voltada para a parede. (O sr. Giuseppe, Abelardo, ficava de barriga para cima, o pênis fino –
reconheço de bom tamanho – sobre o saco, como uma víbora traiçoeira, cobra
coral!, entre os ovos). Embora não abandonasse a posição preferida, meu pai
mexia-se sempre, ora os pés, as mãos principalmente. Em certos momentos, levava
a destra à cabeça, como se quisesse tapar o ouvido. (O pau de papai, Abelardo, era grande como o do sr. Giuseppe, e era
grosso, uma taca, modéstia à parte). A mãozorra sobre o ouvido. Dir-se-ia
que as ondas do mar, investindo contra as pedras, pareciam dispostas a
acordá-lo, pesarosas pela demora de serem atendidas, ele lutava para não
interromper o sono; daí porque a mão de gigante bondoso, colocando-a no ouvido
desprotegido. A repetição deste gesto – e eu fugia para o quintal mal ele o
esboçava – era o primeiro aviso do seu despertar. E, em seguida, de pé, ao me
ver no quintal ou no meu quarto, ordenava:
– Viene,
Tônio.
Chamava-me Tônio, jamais Tonho, como
minha mãe e outros cretinos, idiotas, estúpidos, imbecis!, nem Antônio, como o
sr. Giuseppe e outros ignorantes. Tônio, voz cheia, afirmativa, e determinada,
Tio Leonardo vivo, que fosse acordar o irmão, mesmo em sendo necessário
sacudi-lo se houvesse sol. E juntos, na praia, correndo como crianças
travessas, cantando quase sempre “Vicino ai maré / Amore, amoré”, como que
davam graças aos céus pela beleza do dia. Tio Leonardo, Loquaz, com frequência
repetia:
–
Deus está feliz nesta manhã.
Isto dito em italiano, e com a voz
límpida, tinha divino sabor. (Abelardo:
ele falava com uma segurança, uma certeza de intimidade e de respeito inservil,
que neste momento me sinto tentado a compará-lo, no amar a Deus e as coisas de
Deus, a São Francisco de Assis, o Irmão do Sol, de quem, agora, tenho
necessidade de transcrever uma das suas mais belas orações: “Rogo-te, Senhor,
que a força dulcíssima e ardente do teu amor se aposse de tal modo do meu
espírito que, distanciando-me de tudo quanto haja neste mundo, me torne
merecente de morrer de amor por Teu amor, uma vez que Tu, por amor do meu amor,
Te consentiste morrer”.
Note
que o emprego da segunda pessoa do singular certifica o que falei sobre
intimidade respeitosa. E mais, Abelardo: “Louvado sejas Tu por todas as
criaturas, especialmente o Irmão Sol, que faz o dia e nos dá luz”.
Extraordinário, magnífico! Gentes como São Francisco de Assis, papai a
admirá-los, gentes capazes de amor por um Deus assim, sem imposições, sem medo,
apropria vida como preço de tal amor, um amor que afaga a memória, clareia a
vista, fortalece os nervos, não onera o cérebro, ativa a inteligência, preserva
os segredos, et multa ali facit (3ª) – e eu, intimamente, me sinto proibido de
considerar como minha a mais ingênua das fervorosas crenças de tio Leonardo,
porque eu ofenderia a Deus se o fizesse e temo que Ele me despreze ainda mais,
como fez com o sr. Giuseppe, imponha aqueles sofrimentos todos, puta merda! E,
comigo, pior, Ele apagaria, uma a uma, todas as minhas memórias, obrigando-me a
não saber de nada. Com o materialismo dele, Max escreveu que a morte é “a
terrível vitória da espécie sobre determinado indivíduo”. No cu que é tão
simples, no cu! Sem memória, seja no céu, seja no inferno, seja no purgatório,
eu seria o vazio no vazio, você entende, Abelardo?)
Aqueles quartos de hora, na praia,
sob o irmão Sol, nunca apresentavam variações, excluídas as incidentais. O
comum era meu pai obrigar tio Leonardo a
andar de um coqueiral a outro, exigindo que respirasse fundo, enchesse os
pulmões com o ar salitroso, era bom, afirmava, muito bom. E selecionávamos
algas e, tio Leonardo deitado ao calor e à luz solares, meu pai lhe cobria o
tórax com maiores e as mais úmidas, de sorte que fossem secando. Bom, muito bom para os pulmões, Leonardo.
E de repente gritava o nome de minha mãe, al
lavoro, moglie, al lavoro; minutos, já na soleira da casa, uma pequena
varanda atijolada, batendo os pés para livrar-se os grãos de areia, nem se
preocupava em olhar para o quarto. Sabia que, na cozinha, obedecendo ordens
previamente estabelecidas, ela estava a nos preparar o mingau de milho, a esquentar
broas compradas de véspera, preparando, ainda, o mastruço pilado e misturado
com vinho quente que eu levaria para tio Leonardo beber na praia.
O sr. Giuseppe não gostava de broas.
Preferia fruta-pão, aipim, inhame.
(3ª)
– Et multa ali facit traduz-se como “E faz muitas outras coisas”. Reafirmo o
compromisso da nota anterior.
SEGUNDA PARTE
ESCLARECIMENTO
– III
Boa dia, senhorita Marluce:
Aceite, uma vez mais, os meus
agradecimentos pela decisão de trabalharmos juntos. Saiba, aliás, que a
senhorita tem uma bela voz. Por obséquio, inicie esta segunda parte
desconsiderando os capítulos um e dois. Eles estão aborrecidos, redundantes, um
amontoado de literatices. Bem pesado, nada acrescentam, prejudicando os reais
objetivos do senador, meus também.
Renovo aplausos pela sua competência
profissional e solicito que faça – escrevendo-as aqui mesmo – outras
observações críticas que lhes ocorram.
Disse-me o Ivo que a senhorita é
muito bonita. Estou ansioso para conhecê-la.
Salvador, 8 de janeiro de 1969
Abelardo D’Antunes
.............................................................................................................................................
3.
Uma ou duas semanas depois do
Carnaval (naquela época chamavam-se, tais festejos, de entrudo), o sr.
Giuseppe, mamãe e eu fomos residir em Santo Antonio Além-do-Carmo. Um sobrado
de socavão, térreo e dois andares, alugado a um árabe. Ali fora organizada a
nova oficina, aproveitadas algumas das máquinas manuais de papai. Habitávamos o
primeiro andar. No segundo havia estoques de couros, peles, etc., e o sr.
Giuseppe diligenciava boa ventilação, mantendo abertas as janelas durante os
dias de sol. No térreo e no socavão, as luzes sempre acesas – candeeiros de
grossas mechas --, funcionava as oficinas.
O sr. Giuseppe decidira-se pela
produção em quantidades sempre crescentes de calçados populares, inclusive tamancos,
chinelos e alpargatas grosseiras. O artesão, munido de ambições novas,
convertia-se num arremedo de empresário industrial, participando de todas as
etapas do processo produtivo. Lembro-me que o fornecedor de couros e peles
disse à minha mãe, após uma xícara de chá:
-- O sr. Giuseppe trabalha por três:
vai ficar rico.
Sem se dar a esquivanças,
capatazeava os operários. Ele os tinha por vadios, praguentos, perturbadores, má gente, Sophia, gente sem ambição.
Investia, em especial, contra um certo Artemísio, considerando-o sujeito
intrigante, desses que respiram arrogância, mas, reconhecia, de muita
habilidade no cortar o couro, um homem de
calos, Sophia, elogio raro.
De noite, as trancas passadas,
ferrolho conferidos, bebia a sopa de verduras, depois café com leite e pão
francês, fechando-se no gabinete. Ali ele se entregava a anotar o acontecimento
em cada dia, utilizando-se, para isso, de um livro de páginas pautadas. Era um
livro grosso, a capa preta, encerada. Nas folhas, numeradas, ele descrevia,
minuciosamente, os gastos com matérias-primas, custos da mão de obra, etc., a
produção obtida, as vendas realizadas, o que iria receber, o que iria pagar, e
o mais. Somava, dividia, multiplicava, diminuía. Bifronte o seu Deus: Dever e
Haver. Entrementes, sala de jantar (a de visita era, realmente, para visitantes
muito raros), minha mãe forçava-me a segurar os rolos de lã com que,
manipulando agulhas, tricotava sapatinhos de várias cores para recém-nascidos.
Ela vendia a dona Cici, uma mulatona gorda, de intrigantes olhos esverdeados,
que gostava de pegar nas minhas bimbinhas. Mulher descarada, mas eu gostava da
ousadia daquela burra. Dona de armarinho no início da ladeira do Alvo, suponho
que era amante do árabe, sr. Harmel ou Carmel, dono da casa, aquele
sobrado-prisão que eu não consegui esquecer.
Tanto quanto a mim, o térreo e o
socavão eram proibidos à mamãe. Ela aceitava sem queixas, eu me roia de
curiosidade para ver ali se passava. Especialmente, queria conhecer o sr.
Artemísio. Imaginava-o alto e forte como meu pai, alegre, heroico trabalhador
que enfrentava o sr. Giuseppe: era uma esperança em formação. Só para vê-lo,
atrevi-me, um dia, a descer as escadas. E já nos últimos degraus a descente,
fui surpreendido pelo principal dos paus mandados de meu pai, o sr. Ambrósio:
– Por favor, menino Antônio, volte. Aqui é
proibido.
E eu voltei e não vi o sr.
Artemísio.
(Outro
interregno para que você melhor entenda o que estou tentando dizer:
honestamente, eu me sentia naquela casa como o mais abandonado dos órfãos. Uma
orfandade que escolhi porque ela me alimentava o ódio. Escolhi, sim, escolhi.
Nos primeiros meses do acasalamento, ainda na Pituba, e acho que já escrevi
sobre isto, o sr. Giuseppe nem sempre regressava para jantar e dormir: estava
organizando a fábrica do sobrado. Noite feita, não identificava a luz do
lampião que de ordinário ele usava para alumiar o caminho de volta, com
insistência indagava se o crápula iria à casa, se não iria. Far-lhe-ia bem se
eu palpitasse um talvez ou um vamos
esperar, mas, de propósito, a saborear
sua angústia, me esquivava de falar. Convencida que seria tolice continuar
aguardando, dizia-se querendo justifica-lo: “Coitado do Giuseppe, trabalha
muito. Trabalha para juntar dinheiro, ampliar os negócios, e é graças a ele,
Tonho, que um dia você irá para a escola, será doutor. Ele é bom, Tonho, e
gosta de você, felizmente”. Uma noite, porque o sr. \Giuseppe faltasse e
atemorizada não me lembro mais por quais motivos, ela me levou para a cama de
ferro, beijou meu rosto e pediu que a beijasse e friamente beijei-a, na testa,
e senti seu corpo aviltado e milímetro a milímetro fui-me afastando. O fedor do
grauçá negro, apodrecido, enauseava-me. E tanto o fedor impregnou-se em mim que
hoje, mais de sessenta anos depois, persiste e ainda me causa asco).
Referi-me, acima, ao sr. Ambrósio.
Ele era o principal dos “oficiais”
mais experimentados da oficina, o mais fiel aos interesses do sr. Giuseppe, e
detinha autorização para subir ao primeiro andar. De segunda a sábado, por
volta de meio-dia, sentava-se em banquinho que fora posto no corredor, só para
ele. Se, às onze da manhã, mamãe não apanhasse o banquinho na cozinha para
colocá-lo ali, no corredor, as hipóteses eram as seguintes: hoje é feriado
nacional ou hoje o sr. Ambrósio está doente.
No banquinho, esperava que
almoçássemos. Em seguida à sobremesa, o sr. Giuseppe aparecia-lhe e na simples
presença havia autorização para que fosse à cozinha. Recebia o prato preparado
e sentava-se na copa, mastigando quase às pressas, evitando trocar palavras com
Anália e Rosenda, duas domésticas, recentemente admitidas. Se provocado (nessa
época, Rosenda era dada a flertes), respondia com monossílabos. Ele sabia da
lei, não escrita, de acordo com a qual, empregada doméstica do patrão, se ao
patrão ou a quem ele quisesse, não pertencesse também para usos de cama, para
outro empregado era coisa do muito distante. Temerário, assim, enfiar a mão na
cumbuca e da tentação o sr. Ambrósio se guardava, não obstante, fosse Rosenda
fêmea desde as pontas dos pés, uma negra muito apetitosa e ciente desse favor.
(Rosenda, para você fazer uma ideia,
Abelardo, casou-se com o sr. Lauzimier, engenheiro, um francês notável.)
Os créditos do sr. Ambrósio
aumentaram consideravelmente no dia em que surpreendeu um operário na prática
de furto: o desgraçado enlaçara barriga e peito com fio de barbante encerado, querendo
surrupiar rolo e meio, tudo escondendo sob a camisa. Um fredegundes
incompetentes. Por acaso, ao término da jornada, o sr. Ambrósio dera-lhe um
tapinha nas costas, a mostrar-se capaz de amizade, e assim... Subiu e comunicou
o fato ao sr. Giuseppe, sem referencia a nomes, assegurando que prendera o
meliante no socavão. A imprudência me arrebatando ao regaço de cautela,
perguntei:
– Il
signore Artemísio, egli? (O senhor Artemísio, ele?) – fiz a pergunta em
italiano, que já aprendia.)
O sr. Ambrósio ficou sem saber o que
responder e o sr. Giuseppe olhou-me com espanto, contendo-se, todavia, para não
emitir a indagação desenhada em sua fisionomia: por que aquela minha
preocupação com o sr. Artemísio? E gesticulou, quase imperceptivelmente, para
minha mãe e ela devolveu-lhe a interrogação. Compreendi que se haviam posto de
acordo. Ou seja, eu andava, naquela casa com mil antenas ligadas, um perigo
para eles e sem entender o que entre nós se passava – de resto, surpreendera-se
com meu italiano... – o sr. Ambrósio detalhou a informação que já dera,
concluindo-a com dois destaques de tipo urgência-urgentíssima: o ladrão fora
ajoujado a uma das pilastras do socavão e a Polícia, chamada, deveria estar a
caminho.
– Acho que fiz o certo, senhor.
– Fez.
Quando os meganhas chegaram o sr.
Giuseppe deu-lhe algumas moedas e ordenou que o culpado começasse a ser
exemplado lá embaixo mesmo, à vista de todos, e entregou palmatória e cinto
grosso a um dos meganhas e esse meganha, sem pressa, desapertou o dolman
amarelo e era um sujeito que sabia cumprir ordens, sem a alegria do sádico e
sem a tristeza do generoso. Minha mãe, imaginando o que iria acontecer,
levou-me rua afora, afirmando que coisas feias deviam ser escondidas de
senhoras e crianças, e deixamos o sobrado das torturas e atingimos o agradável
Largo de Santo Antônio e de repente ela disse:
– Ali, olhe bem aquela casa, a pintada de verde
claro.
Olhei, com interesse, e era escola
onde eu iria estudar logo se iniciasse o período letivo, faltavam poucas
semanas. Aliás, em casa, já se encontravam prontos dois uniformes, estilo
marinheiro, um branco, outro azul-marinho. Ela explicou que as duas irmãs
professores eram muito respeitadas e viviam sob a proteção espiritual do Padre
Mata (aliás, Matta, um indivíduo cujo rosto parecia talhado em pedra-sabão),
festejado orador sacro e, sabidamente, um dos preferidos do Arcebispo.
-- Tem famílias da rua Chile, Tonho,
que mandam seus filhos estudar nesta escola – ela disse, passando a mão na
parede da casa esverdeada, e fiz cara de “é mesmo?” e como o assunto não me
interessasse e como, igualmente, pouco naquela altura me preocupava com o que
estivesse sucedendo ao operário ladrão – afinal, convenci-me de que não se
tratava do sr. Artemísio --, olhei o mar da baia, ao longe o belo fim de um pôr
de sol, as águas escurecendo, poucos os navios e numerosos os barcos a vela,
saveiro e não jangadas, e entendi esquisito o comportamento de certas pessoas
especiais. O do sr. Artemísio, em particular. Por que um grande homem como ele,
ao invés de enfurnar-se no socovão escuro, hesitava em comprar, custasse quanto
custasse, um saveiro? E comprando-o, por que não se largar mar a dentro, oceano
em diante, buscando uma vida livre e alegre, por que não?
E por inexplicável associação de
ideias, perguntei a mamãe pelo “seu” Lobo e reagiu como se tivesse recebido
estocada e ordenou a volta. Quase quinze ou vinte minutos depois, chegamos ao
sobrado, socavão e térreo aferrolhados, aberta a porta que dava à escada para o
primeiro andar. Notei vermelhos, acredito até que inchados, os olhos de
Rosenda, a copeira, e Anália, na cozinha, não cantava baixinho suas modinhas
sertanejas. Ao sr. Giuseppe, de cólera abrandada, minha mãe informou que do
almoço sobrara bastante do escaldado de bacalhau e eu quis. A certa altura,
pedi:
--
Io voglio più pane. (Eu quero mais pão.)
Não fale italiano que eu não
entendo. Proíbo que você fale.
O sr. Giuseppe riu, benevolente, e
comentou que me ia notando menos magro, e usou palavras e entonações
simpáticas. Mamãe se mostrou satisfeita. Eu estava feliz: imitara, quase com
perfeição o modo de falar de meu pai. (Aquele
antigo ajudante de papai, o saudoso “seu” Lobo, morreu na Penitenciária, a
antiga, na Calçada, e não sei como nem porque. Mamãe não deixou que eu ouvisse
a história que dona Jerusa lhe fora contar. Pensei em apurar tudo quando
crescesse, mas, crescido, esqueci -- e isto agora me entristece um pouco.
Gostava dele.)
4.
Na escola da professora Ercília eu
podia me considerar como um dos meninos que usavam melhores roupas, sapato
sempre limpos, livros e caderno bem cuidados: mamãe sabia que essas coisas lhe
rendiam juros. E também fui um dos melhores alunos, o que devo, também, a tio
Leonardo. Interessado em ler romances portugueses e brasileiros, ele estudava
nosso idioma com afinco e me ensinou muito mais que o bê-a-ba e a caligrafia.
Foram mais de dois anos de uma aplicação quase diária, o aprendizado do
italiano igualmente a ocupar o nosso tempo. É um erro, penso, ensinar-se a uma
criança dois idiomas ao mesmo tempo, tanto mais se de raízes diferentes. Certo
é permanecer em um, o outro em seguida. Porque
aquele “um” abre caminho. Foi o que aconteceu comigo: o italiano me
abriu mundo que alcançaram também a Germânia e, com mais facilidade, a Grande
Roma e seu notável Latim.
Perdoem a digressão. (1)
Quando tio Leonardo partiu para o
oceano, deixei de lado meus cadernos de português, esquecendo, ainda, dois ou
três livros e um deles era “Os Escravos”, de Castro Alves. Dediquei-me, por
inteiro, e isso era uma forma de amor, ao estudo do italiano, cascando
principalmente nos verbos. E enriquecia o vocabulário. Um dos meus tesouros é o
velho dicionário de Fatacci, belamente ilustrado.
As aulas da professora Ercília, e
ela tinha um talento didático notável, despertaram, aos poucos, o aprendido em
relação ao nosso idioma. Conquistei novas fronteiras aprendendo História do
Mundo (como ela dizia), História do Brasil, Geografia e Matemática. Nas
peculiaridades de minhas circunstâncias – o menino com o seu amor, esse menino
com seu ódio – eu progredia quase tanto quando o sr. Giuseppe e mamãe
prosperavam: iam enriquecendo com rapidez e segurança. Lembro-me que um
vereador foi visitá-lo. Na ceia de sábado quase sempre o Padre Matta era presença
para o chá e de biscoitos franceses, estrangeiros os charutos que o sr.
Giuseppe ofertava a um
(1) “Perdoem
a digressão”. Usando esse recurso, inábil para uma autobiografia romanceada, o
senador Antônio Petrucci escreveu à mão e à máquina centenas de páginas
dispensáveis. Cortei-as.
dos
religiosos mais descarados que já conheci. No segundo e no quarto domingo de
cada mês, após a missa das onze, na igreja da Piedade, almoçávamos numa pensão
de italianos, rua de baixo (hoje a Carlos Gomes), perto do Cassino Bahiano. Os
jantares realizavam-se no Hotel Sul-Americano, e em mesa de varanda, o que era
luxo adicional. O sr. Giuseppe bebia refresco de frutas e minha mãe adorava
sorvetes coloridos, vendidos com o nome de “gelados”, para ela uma novidade.
Preferência?
Pitanga, “gelado de pitanga.
-- Também quero.
-- Não. “Gelado” não é bom para
garganta de menino.
Entre os almoços e jantares,
percorríamos diferentes pontos da cidade, de acordo com as sugestões de minha
mãe. Sabendo que iria agradá-lo, preferia o Campo Grande – e para lá íamos
andando, fazendo a digestão. No jardim havia bancos de ferro, recostos
abaulados, bonitos, sem dúvida, mas incômodos, e era preciso chegar cedo para
encontrar um lugar vazio. E nos sentávamos e eu reparava, guloso de alegria
próxima, alcançável, nos meninos que se divertiam nas gangorras e
escorregadeiras e ela me impedia e assim para que eu não me sujasse, aquilo de
gangorras ou escorregadeiras era passatempo de idiotas. Um domingo o sr.
Giuseppe concordou também com palavras, asseverando que passatempo útil,
instrutivo, era presenciar os outros entregues a passatempos idiotas, devemos olhar isto aqui como tem gente que
vê as idiotices dos artistas de circo; a diferença é que no circo se paga
entrada! – e riu. Pouquinho de nada, mas riu. Ademais – minha mãe disse – são
todos uns moleques. E uma Mulher-Toda-de-Preto, saída não sei de que
escarradeira do inferno de fezes de que fala o Grande Dante, de pé a ouvi-los,
dispensou-se de pedir licença para o aparte:
-- Sim, molecotes, basta você olhar,
menino. Mesmo os que são filhos desses que ficam ricos de uma hora para outra
são molecotes de alma. Porque criados em maus berços são mais do que molecotes.
São aprendizes de capadócios, futuros ladrões. Boa tarde senhora e senhor.
E andou, emperiquitada, colocando-se
atrás de outro banco, e em movimento, aturdido com aquela aparição, e mamãe me
interpretou mal:
-- Não, Tonho, você não vai se meter
no meio deles e não chore, pestinha. Se você não mudar esta cara de choro lhe
dou um beliscão e hoje você ficará com fome no jantar, entendeu? Com fome!
(Necessito
de repetir, Abelardo, compreenda: “monstros da natureza, repositórios de
mentiras, armários de embustes, inventores de maldades...” E não me creia
desatinado esta noite. Se insisto nas objurgatórias faço-o porque, criança
ainda, na memória o amor de meu pai, a ternura e o sabor de tio Leonardo, eu me
considerava uma pessoa dotada de privilégios especiais. O ser criança, e
criança de medos espancados, ao menos queria o privilégio de ser reconhecido
assim, e me negavam tão pouco e negavam com brutalidade.)
INTERRUPÇÃO -- II
Sr. Abelardo, francamente, não dá
para entender porque eu devo escrever estes bilhetinhos metendo os cujos, assim
como este, dentro dessas coisas do senador. Não dá pé. Enfim... Como mamãe diz,
“quem paga é servido”. Outra coisa que quero chamar a atenção do senhor é que o
senhor cortou a epígrafe deste capítulo e ele repete aí em cima (“monstros da
natureza”...), Tô sendo clara? Ora, assim, sem a epígrafe, fica parecendo que
isso de “monstros da natureza, armários de embustes”, etc., é coisa dele e não
é, o senhor sabe, está na epígrafe que é de Cervantes, aliás ei vi no filme
russo a história de D. Quixote e Sancho Pança e achei um barato. Tá um enguiço
e pergunto: deixo ou tiro?
E outra coisa: sabe que o senhor é
um coroa muito legal?
Levo fé. Respeitosamente,
continuando meu trabalho,
Salvador, 11 de janeiro de 1969.
Marluce
Santiago.
Eram rígidos os horários nos
domingos destinados aos passeios: missa às onze, almoço ao meio-dia e meia,
jantar às dezoito horas. No Campo Grande, às cinco da tarde, encoletado e
suando, o sr. Giuseppe mandava que abandonássemos o banco de ferro e empreendíamos,
a pé, o caminho até o Hotel Sul-Americano, esquina da Ladeira de São Bento com
a atual avenida Carlos Gomes. Assim, pois, atravessávamos trechos como os do
Palácio da Aclamação, Mercês, Largo da Piedade e, antes da ladeira de São
Bento, o meu querido São Pedro: ali, em uma portinha, havia um velho que vendia
por patacas o delicioso algodão de açúcar.
No percurso, eu entre os dois, minha
mãe prendia atenção nas casas e nas gentes, sentindo-se percebida por algumas
senhoras debruçadas nas janelas, cotovelos sobre almofadas de veludo de
diversificadas cores e matizes. Orgulhava-se de seus vestidos novos e o sr.
Giuseppe, posto que nisso não folgasse muito, fazia-lhes os sapatos de salto
alto, sóbrios também nas formas e, segundo ela, macios, bem ajustados. Não
fosse assim, fossem desses calçados que impõem calos e torturam artelhos, ela
não reclamaria: aceitava tudo, em troca de abrigo, da cama e da mesa, mulher
sem personalidade.
Perto de um sobrado de três andares,
vizinhança do Colégio das Mercês, o sr. Giuseppe erguia os olhos para verificar
se ali, apreciando o footing, e tal
como de hábito, achava-se acomodado à janela um casal que lhe merecia especial
consideração. Se o deparava, descobria a cabeça, saudava:
-- Buona será, Comedadore. Buona será, Signora.
O Comendador respondia “boa tarde”
e a senhora limitava-se a sorrir, complacentemente. Certa vez o ilustre
perguntou:
-- Dove andate voi altri com tanta premura?
Ao invés de responder que andávamos
com aquela pressa para não perdermos o horário da janta (meu pai perguntaria em
troca: o que é que o senhor tem com isso?), o sr. Giuseppe mentiu:
-- Siamo abituati a
camminare in fretta.
(Estamos
acostumados a caminhar depressa.)
Na tarde em que minha mãe ousou
indagação sobre o casal, o sr. Giuseppe foi loquaz. Explicou que aquele
personagem, de imponente suíças, era importantíssimo na cidade, médico
conceituadíssimo, professor da famosíssima Faculdade de Medicina, mais e mais
respeitadíssimo após ter travado uma polêmica sabe com quem? (Não, com quem, Giuseppe?) Com o professor Ernesto Carneiro Ribeiro! E recebeu o apoio sabe de
quem? (Não, de quem, Giuseppe). Do
dr. Ruy Barbosa, e mamãe exclamou o seu contumaz e cretiníssimo “Madre
Santa” – na Pituba a burra dizia Santa Mãe de Deus... – o sr. Giuseppe disse
que ao Comendador nada recusaria de vez que, não fora estimadíssimo amigo e
cliente, sobre ele se confidenciava que poderia tornar-se Intendente de uma
hora para outra, desde que professava a política do dr. J.J. Seabra e o dr.
J.J. Seabra, além de popularíssimo em todo o Estado da Bahia era
prestigiadíssimo nos altos círculos federais. Agrilhoados tantos e outros
“íssimos”, mamãe e eu não demos um pio. (No
particular, Abelardo, eu e mamãe, se colocarmos em circunstâncias semelhantes,
nos entendíamos muito bem, a poupar o sr. Giuseppe de esclarecimentos
minudentes, em especial aqueles que pudessem colocá-lo em situações
embaraçosas. Ela não queria arranhar o ritmo, que lhe era apetecível, daquela
vida, e eu, de mim, o que desejava era crescer e apressar-lhes a morte o mais
rapidamente. E, com efeito, fique sabendo, foi o que fiz, e agi como adiante
você verá e espero que você enriqueça e potencialize o meu rol de razões. Esta
é uma ordem, Abelardo)
Antes de eleger os pratos, no Hotel
Sul-Americano, com pavonices de recente grão-senhor, ele ordenava um cálice de
vinho-do-porto. Bebia gota a gota, até a metade, guardado o resto para depois
da sobremesa, ao café. Na tarde em que a Senhora-Toda-de-Preto me instalara
pavor, provocando aquele movimento incontrolável, eles proibiram meu refresco
de pistache, alegando que havia comido muito algodão-doce. Mais fizeram: ao
invés do tradicional prato de canja de galinha, nela o pescocinho do animal,
deram-me, ali, na varanda do hotel, um ovo cozido sobre vagens e compreendi que
jantar assim era a primeira das punições. Contra-atacando, eu simulei, ao
comer, que aquilo me sabia um manjar e mamãe irritou-se, quase desprezando o
resto do “gelado”, e o sr. Giuseppe bebeu a sobra do vinho-do-Porto antes de
chegar o café, e mal paga a conta determinou vamos embora, Sophia e, impulsivo, eu disse andiamo, ele falou pegue na
mão dele, Sophia; a quem este menino saiu?
-- É um capeta, mas é em menino que
se torce o pepino.
E em casa retiraram a lamparina do
meu quarto, trancando-o após meu ingresso, e então vi-me no escuro, um escuro
especial, do seu interior podendo emergir a Senhora-Toda-de-Preto. Mentalmente
flagelei-me para não chorar e os afiados chicotes que me feriam as farpas das
minhas memórias de dor. Todo o tempo daquela noite foi tempo de tortura, mas as
claridades divinas da manhã, envolvendo a criança insone e espancada,
mostraram-se tão belas e tão mágicos os unguentos por elas trazidos que as
feridas cicatrizaram-se. As marcas probantes do que conto?
Tenho-as eu e desde logo pressuponho
que já não são somente minhas. Senhores leitores do Brasil e do mundo: estas
marcas vos pertencem também! A olho vulgar invisíveis, elas me fazem lembrar o
que em “Fausto” o Grande Goethe escreveu: “Apenas merece liberdade / Tanto
quanto a vida / Quem as ganha todos os dias”. Aí está: meu primeiro dia de luta subterrânea
contra os dois tiranos iniciou-se com o hino cantado pelas claridades. As
daquela gloriosa manhã. (Abelardo: dê um
enchimento a este trecho. Cave umas coisas no Dicionário de Citações, mas nada
de Ruy e do Castro Alves.)
ESCLARECIMENTO
– IV
Tem você toda a razão, srta.
Marluce, quando à epígrafe que cortei, mas deixe tudo como está. Na segunda
datilografia veremos como isto vai ficar. E razão a senhorita tem, de igual
modo, quando me considera um coroa legal.
Sobre os bilhetes: penso em utilizá-los, se me convierem, pedindo, antes, sua
aquiescência. Aliás, Srta. Marluce, peço que não fale a ninguém sobre este nosso
trabalho e ponha-se à vontade nesta minha residência. Esta casa rejuvenesceu a
partir do dia em que a senhorita passou a frequentá-la. Sua alegria e sua
simpatia, não bastasse sua seriedade profissional, daqui expulsaram o que havia
de resíduos do luto. Aceitaria jantar aqui, amanhã, às 21 horas?
Ivo iria buscá-la em seu
apartamento, levando-a de volta. Para mim seria uma honra. Por favor,
telefone-me. Com renovada admiração,
Salvador, noite de 11 de janeiro de
1969
Abelardo.
INTERRUPÇÃO
– III
Sr. Abelardo, bom dia. Está na cara
que não vou dar dicas a ninguém sobre este trabalho. Me aborrece o senhor
imaginar que eu dessas que são de blá-blá-blá em assuntos profissionais. Bom,
mas deixa prá lá que o senhor não me conhece bem e assim sabe pouco de minha
cuca e também sem falsas modéstias garanto que ela é uma cuca legal. Não dá pé
jantar hoje porque eu já tinha arrumado uma chopada no “Birita Bar”. Se eu
fosse de falsidades, convidaria o senhor, mas aquilo não é lugar para coroas
mesmo em sendo o senhor um coroa legal. Como diz minha mãe, a mais adorável
pessoa do mundo, “mais depressa se pega um coxo do que um mentiroso” e aliás eu
escrevi errado, é o contrário. Mais depressa se pega um mentiroso. Acho que me
enganei no “ditado” porque estou folheando as outras partes querendo saber como
é que o diabo do menino matou a mãe e o padastro, cujos foram perversos, até
aqui, mas nunca é o caso de alguém matar. Bom, deixa prá lá. Que é que há mais?
Ah, batuquei no “macaco” prá falar com o senhor e foi taca. É fogo a gente
querer falar para linha dois e aí nos casos de telefonemas, legal o senhor
ligar prá cá. Sim, estou a fim de jantar quando o senhor quiser, menos hoje (já
expliquei), e posso jurar que eu também admiro muito o senhor e como o senhor
assinou Abelardo eu assino
Marluce.
N.B.
– Hoje, logo cheguei, o sr. Ivo me levou para ver toda esta mansão do senhor,
estas mangueira todas, as acácias dando flor, os flaboiãs também, aquelas
roseiras, a grama verdinha, a piscina, ih! Eu tive vontade de ficar nuinha e me
jogar na água azulzinha, seria bacana!
Posso pedir que o sr. Ivo me dê
uísque ao contrário de vinho do Porto? E chá de cidreira ao contrário de café.
Aproveito para datar, que me esqueci
de fazer acima, Salvador, 12 de janeiro
de 1969. A mesma e agradecida Marluce.
Nos dias comuns, sem zangas, depois
do jantar, mamãe me entregava lamparina. Concluídos, na sala, meu deveres
escolares, já no meu quarto eu acendia o pavio com fósforo de cera. Divertia-me
a soprar a cortiça, nela o pavio com fósforo de cera. Divertia-me a soprar a
cortiça, nela o pavio, que boiava na superfície de óleo espesso; no copo, o
óleo mantinha-se acima do nível da água. A luz amarelecida mal alcançava um
terço do meu aposento espaçoso. As janelas laterais davam para um sobrado
contíguo, em cujos telhados havia sempre muitos morcegos. As duas janelas do
fundo me permitiam ver o quintal, nele os quartos de Rosenda e Anália. No meu,
perto da cama, mamãe colocara a mala bojuda, amarronzada, que chamava de baú,
enquanto o sr. Giuseppe preferia nomeá-la arca, “minha arca”, pesada de objetos
bolorentos, ferramentas em desuso, fazendas que apodreciam, livros (poucos) e
revistas velhas, tudo em italiano. Em seus raros momentos de loquacidade, o sr.
Giuseppe repetia que a arca continha quase tudo quanto trouxera de Milão. Não
dizia Itália, dizia Milão, e Milão isto, e Milão aquilo, as coisas que havia em
Milão, indústrias sobretudo, muitas e muitas. Mamãe, cínica mulher, elaborava
frases aprovativas e fazia indagações que compunham uma só e provocativa
pergunta: decerto todas as cidades da Calábria, reunidas, não chegavam à mínima
unha de Milão, não era verdade?
Ele não entendia o apelo.
Importantíssima era a arca; indispensável ao seu orgulho o reiterar,
monotonamente, que além do preservado na arca, trouxera férrea vontade de
triunfar no País estranho – e estava triunfando e não era um daqueles
“ricos-de-uma-hora-para-outra” aos quais se referira, desdenhando-os, a
Senhora-toda-de-Preto. De tal convencido, sorria, contente de si mesmo, e
naqueles raros e rápidos entrementes era possível – faço justiça, não sou
fanático – nele distinguir um tanto de humanidade. Mas, tenho em certeza tal
juízo, não era somente isso que interessava à mamãe. Ela o espicaçava para que falasse contra a Calábria. Assim,
especialmente aos domingos, insistia nas perguntas ardilosas e não me lembro de
haver conseguido o pretendido: um certo pudor nacional italiano, mínimo embora,
impedia o sr. Giuseppe de estabelecer estúpidas comparações entre Milão e a
Calábria.
Ela o acicatava mais no lombo da
vaidade e, preso nas teias da lisonja, sr. Giuseppe narrava seus primeiros dias
no Brasil, os anos vividos em São Paulo, a viagem para Bahia, sempre a
trabalhar e a economizar, uma ambição de riqueza a lhe ferver nas entranhas. À
medida em que se proclamava um homem de valor, a temeridade jamais figurando
entre os componentes de seus cálculos e decisões, mamãe me olhava e reolhava, a
dizer que ele, sim, o sr. Giuseppe, eu devia alçá-lo à condição de exemplo e
modelo, esquecesse para sempre tio Leonardo, fraco para o trabalho, de hábitos
amalucados (“cadê tio Leonardo, mãe?, e ela respondia, na Pituba: “tá lá, no
quarto dele, com a maluquice dos livros e das cantigas”), um reincidente em
blasfêmias, a considerar Deus nosso Senhor um comparsa para jogos alegres e não
um promontório invisível, a inspirar temor, devoção, cega obediência.
Principalmente, esquecesse meu pai para sempre, pródigo irresponsável,
mulherengo até com negra! (Hoje a
aleivosia não pega tanto, mas, naquele tempo...) E numa noite de sábado,
presente o Padre Matta, melhor treinado na arte da dissimulação, usando a
linguagem dos olhos disse-lhe que ela não perderia por esperar, confiasse em
mim, eu seguiria, sem alterar um til, os caminhos do êxito que o sr. Giuseppe,
magnanimamente, me indicava. Julgando que deles me aproximava, ela disse:
-- Bem faz quem bem ouve e aprende,
Tonho. Agora, tome a bênção e vá dormir.
Concedeu-se uma pausa e vibrei de
alegria quando ela acrescentou se quiser
leve para o seu quarto a lamparina da cozinha. Aceita a oferta, em meu
quarto, luz maior o daquele pavio aceso, sabendo-me livre algumas horas, abri a
arca com extremo cuidado, temendo que as dobradiças oxidadas me denunciassem
com seus rangidos e cuspi sobre todas aquelas porcarias milanesas, ruídos dos
morcegos a significar aplausos, uma maluquice minha, mas pensei assim e com tal
convicção que fiz dos morcegos misteriosos expectadores da minha ousadia. E
cansado de cuspir, a boca seca, amarga, lábios e língua pesando, desejei mijar
abundantemente sobre o passado deles e não fui além da intenção. O fedor da
urina, com o passar do tempo, seria uma prova inapelável e me puniriam e o
fariam com requinte de perversidade: o ladrão não apanhara até na cara,
conforme a narrativa de Rosenda à empregada do vizinho? O meganha!, eles o
chamariam para que me espancasse. Pior ainda: na sala reunidos, rindo e festejando,
sob a batuta da Senhora-Toda-de-Preto, picando-os com agulhas e alfinetes
assassinariam o ovalado retrato de meu pai e também o do tio Leonardo; e não
mijei, apesar dos estímulos de morcegos mais ousados, bichos que nunca me
fizeram mal: até que Anália e Rosenda me escutassem, muitas vezes com eles
conversei, monologando.
Vencida a tentação do mijo e já
deitado decidi jogar baratas no interior da arca e na manhã seguinte, antes de
ir para a escola empreguei boa parte do tempo a caçá-las com ajuda das
claridades e fui feliz em quatro ou cinco tentativas. Joguei-as dentro da arca:
uma vingança frustrada e isto porque, ao fim de alguns dias, talvez devido aos
miasmas na arca armazenados, as baratas morreram.
NOTA
ADICIONAL N.1
A uma jovem formulada, é de
Clemenceau a seguinte proposta: “Eu a ajudarei a viver e você me ajudará a
morrer”. A jovem aceitou e, sei, foram felizes. Não se afaste tanto de mim,
Abelardo. Lembre-se, ainda não assinei o testamento. Não exijo que você opine sobre
estas minhas memórias, mas exijo que você deixe Nezinha em paz. Dou à boa
menina as joias que eu quiser dar, você não tem nada com isso, seu puto! Sem
filhos, sem parentes, sem ninguém, se eu morrer ab intestato(2) isto não fará
bem à sua saúde. Você me roubará abjetos valiosos – e só. Não terá as
propriedades, meus dinheiros, minhas ações. Tudo irá para o Estado ou para
Lourdes. Assim, deixe a Nezinha em paz! Tônio
Petrucci.
ESCLARECIMENTO
– V
Marluce: óbvio que o “Birita Bar”,
bastante falado e, às vezes, mal falado, não é um lugar que eu deva frequentar,
nem por curiosidade. No entanto gostaria de conhecer os jovens que são do seu
círculo de relações. Admiro muito os moços que têm sede de viver intensamente e
aproveitam todas as oportunidades, sem os preconceitos urdidos em escusos
pretéritos. Assim, Marluce, organize uma noitada trazendo três ou cinco de suas
amigas e amigos, aqui em casa. Quanto aos detalhes
sobre o menu, as bebidas, a decoração,
entenda-se com Ivo.
Cortei os capítulos cinco e seis e
quando a este, o sete, que datilografo à sua espera, você notará que anulo todo
o introito sobre o jardim de Santo Antônio, hoje uma praça desenxabida, apesar
de ser, espacialmente, a mais bela de Salvador. Deixo, também, a agressiva nota adicional que numero, número 1.
Deixo-a para punir-me publicamente por ter sido injusto com Nezinha, a jovem
enfermeira que atendia o senador e que, usando a linguagem de vocês, jovens,
dava umas “esquentadas” no finado, uma pessoa que, antecipo, morreu sem amigos,
salvo o dr. Augusto Nazareth e, suponho, a sra Lourdes, senhora estranhíssima
que foi amante dele no Rio. Peço que você não se envolva emocionalmente com
esta narrativa. Por que, hoje, você demora? É uma pena que não possa esperá-la
mais que uns minutos: gostaria de entregar-lhe pessoalmente a pequena
lembrança, você não chegando a tempo, da qual Ivo será fiel portador.
Interprete este meu gesto como aplauso à sua adorável franqueza. Até que o
carro de amigos chegue, continuando a esperá-la, copiarei o senador:
7.
(...)
Foi, portanto, pelas mãos da professora Ercília – alta, magricela, sarará, voz
estrídula – que ingressei num mundo habitado por heróis, onde o Bem, sempre
despendendo esforço físico, sempre vencia o mal. Em casa, provisoriamente
desarticulados meus fortins e minhas seteiras
de ódio, repetia para minha mãe e o sr.
(2)
Ad
Intestato traduz-se como “sem testamento”.
Giuseppe
as histórias ouvidas e memorizadas. No episódio de Caramuru e seus grandes
feitos, acrescentei um rabinho fantástico: o bravo Filho do Fogo e Sobrinho do
Trovão levara sua esposa, a índia Catarina, para a Europa e em Lisboa, depois
de animado “Bumba-Meu-Boi”, dançaram gracioso minueto diante do Rei e da
Rainha. O sr. Giuseppe que, ouvindo-me sem interrupção, fizera surpreendente
mercê, disse va bene, Tonho, va bene, sem entusiasmo, e foi
encontrar-se com seu amado livro preto e mamãe disse antes de dormir vou deixar você me contar outra história, mas, agora,
não; agora vou preparar um cachimbo para Giuseppe: ele tem planos maravilhosos
para nós. Contei uma outra história qualquer e ao dormir tive um sonho
magnífico: meu pai, tio Leonardo, Caramuru, “seu” Lobo e o sr. Artemísio (corpo
de meu pai, a cara era de um pescador meu amigo) desbaratando as hordas
inimigas, índios e pretos malvados, e
havia um branco, era judeu, a comandar aqueles hunos, a senhora conhece o sr.
Artemísio?
-- Não, sr. Antônio – a professora
respondeu e havia remelas nos olhos de dona Ercília e continuei contando o
sonho e disse que o sr. Artemísio era mesmo um grande homem e que ele, meu pai
e tio Leonardo, antecipando-se ao próprio Filho do Fogo e Sobrinho do Trovão,
haviam dominado o judeu descomunal, atirando-o despenhadeiro abaixo, e Caramuru
ergueu o braço de meu pai e gritou poderosissimamente: Campeão dos campeões!
-- Bonito sonho – ela comentou,
ainda intrigada eis que eu tirara da cama, num açodamento danado. O sr. Giuseppe
é mesmo um grande homem.
-- Estou falando de meu pai, não do
sr. Giuseppe.
-- Como, sr. Antônio?
-- O sr. Giuseppe nunca foi meu pai,
professora. Meu pai se chamava Vincenzo. Vincenzo Petrucci, calabrês de
Messina, Itália. O sr. Giuseppe se juntou com minha mãe.
-- Que é isto de “se juntou”? – e
disse que eu devia falar mais, uma
professora tem obrigação de saber tudo sobre os seus alunos e suas famílias e
eu contei o antes já descrito, os misteriosos gritos de um homem-rei a morrer,
e que o sr. Giuseppe fora apenas camarada de papai, e que logo nos mudáramos da
Pituba para o sobradão ali perto; exatamente no Dia dos Mortos, quando pedi a
mamãe para levar flores e colocá-los sobre o túmulo de papai ela respondeu que
não, falou bastante zangada, tolice,
maluquice, idiotice, Tonho!, ele estava morto, e morto/acabou-se/ pronto, não me aborreça com bobagens! e
arrebatou de minhas mãos as margaridas amarelas que eu havia apanhado no
quintal.
EU
VOS FALO DOS MORTOS QUE MORRERAM SEM PRIMAVERA
e tomou as
angélicas que, atendendo a pedido, o Padre Matta lhe havia oferecido, sem
perguntar prá quê,
MARLUCE EU SÓ TENHO VINTE MINUTOS
angélicas de morto já na Igreja de
memória celebrada, pelo menos assim eu pensava, todas as flores ela me roubou e
usou-as nas jarras lá de casa, suprema afronta. D. Ercília me interrompeu:
-- Seu verdadeiro pai morreu de que,
sr. Antônio?
-- Uma dor.
-- Onde?
-- Da boca do estômago para cima.
-- Antes ele vomitou?
Expliquei que estava na praia, mas
escutara conversas posteriores, principalmente ouvira minha mãe dizer ao sr.
Giuseppe, de noite, no velório, que papai guinchara como um porco a ser
sangrado.
-- E seu tio Leonardo... Também ele
sentiu dores ao morrer? – agora dona Ercília estava acompanhada pela irmã, dona
Ernestina, esta, coitada, além de sarará um pouco zarolha. E contei sobre tio
Leonardo.
ANCHE GIULIO SOFRE DI MALINCOLIA
TAMBÉM JÚLIO SOFRE DE MELANCOLIA
POVERO GIULIO. LA SUA FACCIA MI FÀ
PENA
em italiano “sigaro” é charuto.
“Sigaretta” é cigarro.
TU SEMPRE HAI SIGARE E DEI BUONI.
VOCÊ FUMA MUITO, MARLUCE IVO ME
DISSE.
eu não consigo aprender italiano. má
vontade.
(Um
fato, Abelardo, agora a me exigir reflexão é que a atitude de tio Leonardo,
suicidando-se no Oceano, não suscitou qualquer reação contrária de meu pai, ele
geralmente era rebelde, inconformado, apto à luta até o fim, Suicídio, sem
dúvida, mas por que? Deve-se considerar que se meu pai a estranhos não
demonstrava suas profundas convicções de católico, apostólico, romano, tinha-as
com seriedade e, por consequência, recusaria anuência. Grave a doença de tio
Leonardo – por interferência pode-se pensar em tuberculose – ele apenas o
isolaria sob cuidados médicos. Não, não foi só a doença: houve algo mais grave.
Ou o suicida não teria obtido consentimento. Sei que nesta altura de minha vida
é inconsequente nutrir tantas dúvidas. Ao expressá-las, aqui as consignando,
pretendo prestar mais um sérico: quem sabe alguém não se interessará pelo
mistério, decidindo-se a investigá-lo?)
INTERRUPÇÃO
– IV
Sr. Abelardo: mal o senhor saiu, eu
cheguei. Me atrasei no supermercado. Esta é para dizer que o senhor me parece
que anda meio biruta. Primeiro
escreveu essas coisas aí em cima, me gozando porque me interesso pelo italiano:
saiba que este livrinho que o senhor andou mexendo é muito bonzinho. Segundo, o senhor mal me conhece e já me
oferece anel de brilhantes verdadeiros. Corta esta, doutor! As flores eu levo,
que minha velha adora flores, é mesmo vidrada, ainda mais que rosas. Sobre o jantar eu já falei com o sr. Ivo
e só vou trazer um amigo, Cristovão, Cris de apelido. Ele é muito bom de papo,
de voz e de violão. Sobre o trabalho:
carece de o senhor recomendar que eu não me preocupe com a autobiografia do
senador. Sou muito emotiva, sr. Abelardo. Quero acabar com isto mas eu não
consigo. Quando quero ser gelo aí é que viro fogueira. Como o senhor me deu
liberdade aqui pedi ao sr. Ivo para almoçar mais cedo que quero chegar em casa
antes das cinco horas. É negócio de uma doutora, dra. Narda, o nome é a eterna
noiva do mágico Mandrake. Ela quer me contratar para um trabalho em três
línguas e paga em dólares. Me disse mamãe que ela é uma pessoa assim, em
dólares. Não-sei-o-que, em dólares. Bom, modéstia à parte, se na Bahia existem
cinco grandes datilógrafas eu não sou a primeira, a primeira é Judite Brito e
disparada na frente de todo mundo, mas também não sou a última. Sou limpa no serviço
e como Cris afirma eu tenho senso estético. Assim, a doutora “em dólares” indo
me procurar eu quero estar lá para dizer na cara dela (mamãe diz que ela é
lindíssima) que só recebo em cruzeiros, que de noite só trabalho um máximo de
quatro laudas e o mais: ela que vá catar em Nova Iorque que isto aqui é Brasil.
Tenho horror a cartações, horror!
Não se zangue com a coisa do anel, é
que acho que ainda não mereço. Quando achar eu mesma digo, não se preocupe. Não
se aborreça, eu sou assim mesmo e as pessoas
que gostam de mim nunca que vão ser enganadas por mim. Dr. Azevedo é o
meu analista e ele tem razão, ou seja, eu abro meu jogo, quero viver às claras,
mas os outros não abrem o jogo deles e isso acontece até com meu amigo Cris, um
cara que eu adoro, ou seja, ninguém é perfeito. Às vezes Cris “apronta” cada
uma!, mas no fundo ele é bom, o senhor vai ver. Perdão estar tomando tanto seu
precioso tempo, é que no fundo a ideia do anel, mas só a ideia me botou
vaidosa. Vai daí, o senhor não se zangue, me entenda. Salvador, 15 de janeiro
de 1969, Marcule. NB – a ideia de eu
aprender italiano é de Cris, bárbaro em matéria de línguas.
A
mesma.
Três ou quatro semanas depois de
minha conversa com as professoras Ercília e Ernestina, o Padre Matta esteve em
casa, dizendo-se “de passagem, é só uma visitinha”. Durante mais de uma hora
conferenciou com mamãe e o sr. Giuseppe, os três trancados na sala de visitas,
eu no corredor querendo ouvir algo e tudo o que pude escutar foram soluços de
mulher. Em dada altura o sr. Giuseppe, apressado, saiu da sala. Surpreendeu-me
no corredor, e havia ódio nos seus olhos. Indo ao gabinete, de lá voltou com
alguns papéis. Reencontrou-me, nele vi o mesmo ódio, frio, determinado, perverso,
e decidi, um ânimo interior estremecendo-me, que reagiria se ele tentasse me
bater ou somente cascudar, e fui para o meu quarto, e na arca peguei o martelo
milanês, dou com o martelo na cara dele,
que morra!, e ouvi passos nas imediações do corredor e debaixo do
travesseiro escondo o martelo, sentindo-lhe a ferrugem, ótimo aquilo da
ferrugem porque se meu golpe não fosse suficiente forte o pó agiria como
veneno, mas os passos eram de Anália e a obedeci, deixando que entrasse, e ela
disse que mamãe estava chamando e fui.
-- Sente-se, menino Antônio.
Ordem do Padre também obedeci. Ele
seria mesmo, como me dissera Anália, capaz de ler na alma da gente?
O sr. Giuseppe já não se encontrava
na sala, possivelmente estaria em meu quarto, sorrateiro, me aguardando para a
surra e pedi a Deus, fervorosamente, que ele não encontrasse o martelo
escondido, e também pedi a Deus que o sr. Artemísio não saísse do socavão, ele
me socorreria, e para limpar a alma imaginei uma revoada de anjos dourados no
céu azul, anjos gordinhos, sorridentes, felicíssimos, bailando nas alturas,
sobre brancos roseirais, e, acima, miríades de estrelas piculando e cantando,
tudo e todos muito meus amigos de bondade, paz, concórdia, obediência, especiali derogant generalia, eu
especial devoto da Virgem Mãe de Deus, pois, pois, eu especial sofredor, Tônio
um bom menino, pois não, eticétera, e o Padre Matta disse que eu estava indo
muito bem na escola e respondi Graças ao
Todo Poderoso, a professora Ercília é uma santa, dona Ernestina também, todos
os desta casa, Reverendíssimo Padre.
Percebendo peçonha nos elogios –
diabos!, eu nunca fui de acertar nas três benditas gotas, sempre coloco duas ou
quatro, é um inferno --, minha mãe ordenou que saísse da sala e de novo
pensando nos anjinhos gordinhos e bonitinhos beijei a mão do Padre (o veadão
dissera finas minhas feições, sedosos meus cabelos), e beijei a testa da
bruaca, a desejá-la como aliada, neutra pelo menos, no combate que iria travar
com o sr. Giuseppe. Saí e perto do meu quarto esperei segundos, na expectativa
de ruídos, aguardando o inimigo mortal a se mover. E nada, aquele silêncio, e
ainda nada, e pela primeira vez experimentei o singularíssimo sentimento
nascido do conúbio da audácia e do medo, produzindo um estado de espírito cujos
múltiplos componentes, num fuzuê danado, põem endoidecidos os pratos da
balança. Um sentimento que me tem acompanhado toda vida, ora a coragem como
vexilário, ora a prudência comandando as ações. Não o tivesse e certamente
morreriam comigo as confissões, estas, e as outras que, Deus há de permitir,
mais adiante farei, didaticamente evitando julgar-me para não influir no vosso
julgamento soberano, amado leitores. Tais confissões – e a premissa é a de que
se fossem muitos os heróis seriam caros e chatos – eu as teria lavrado bastante
antes de agora se os bons acasos da vida fizessem com que mais cedo eu
reencontrasse o meu caríssimo Augusto Nazareth, amigo, médico, argonauta manso
apesar de jornais ou em dedicatórias de livros. Em meio a tantos chinfrins, eis
uma personalidade impressionante:
-- Eu matei o assassino, Augusto.
Tal como acabo de dizer.
-- Não force as coisas, Antônio –
ele disse. Você apenas apressou um desenlace natural.
Já beirando os oitentas anos, hígido
ainda se encontra e há de me sobreviver aquele que conheci, e logo aprendi a
respeitar, me ensinando francês. Mas, perdoando a digressão, não antecipemos
sucessos que ocorreram posteriormente. Há vez e há hora para tudo, de acordo
com que os fatos determinam.
Voltemos, pois, ao sobrado da
tortura.
Naquele entardecer, ora a audácia a
preponderar, ora o medo, a cautela atuando como agente do bom senso, entrei no
quarto como que escarreirado e aos poucos acalmaram-se as batidas do meu
coração: o assassino não estava de tocaia. Minha arma, o martelo, ferrugem
esfarinhada, retirei-a se sob o travesseiro. O pó impregnara-se em diferentes
partes no branco da fronha de linho e vi, impressas, inusitadas figuras a
lembrar carapaças de besouros, retorcidas patas de grauçás, morcegos em
disponibilidades. Suor e ferrugem combinaram-se e ganharam a consistência de
algo quase pastoso, o inimigo sem aparecer. Eu disse, então, a uma barata:
Ele não vem. Ele está com medo.
Anália perguntou:
-- Está falando sozinho?
-- Eu estava brincando com o
martelo. Anália, o pó sujou a fronha. Lave a fronha, Anália e não diga nada a
eles sobre o martelo, por favor.
Olhou-me como se fora uma mãe
pezarosa que assistia, impotente para interferir, o sofrimento do seu filho
mais querido. Mostrando os morcegos, que temia, fechou a janela. Minutos depois
a fronha manchada já substituída, o martelo robusto na arca – mamãe invadiu o
quarto, violência também indagação: Que
fuxicos você fez com a vaca da Ercília?
-- Ela mentiu, juro!
-- Como é que podia adivinhar? Ela
chegou até a falar em envenenamento e o Padre Matta, este
Maria-vai-com-as-outras...
-- Que coisa é envenenamento,
mãezinha?
-- Cínico, nesta idade e já cínico,
descarado, pestezinha do inferno! – gritou. E castigou-me: Hoje você não janta,
hoje você ficará trancado, sozinho, sem lamparina, no escuro, e agradeça ao
Giuseppe eu não lhe dar uma dúzia de bolos, não meter um ovo fervendo em sua
boca suja.
Alvoroçados mês e meio se passaram
lá em casa e, afinal, espetáculo de dia e ano esquecidos, em fim de madrugada
mamãe apareceu na sala de jantar vestida de noiva. Bela mulher, não há dúvida,
mas ridícula ao querer-se virginal ao lado do sr.Giuseppe todo enfatiotado. Um
terço do sol no horizonte, saíram à rua, em busca da Igreja do Passo, o sr.
Ambrósio e suas quatro filhas imediatamente atrás, na frente de todos um beato
fantasiado de padre-auxiliar movendo um inebriante incensador: era agradável a
defumação. Fechando o cortejo, eu, dona Jerusa (Esta mulher, Abelardo, sabia de algo importante relacionado com a morte
de tio Leonardo), e, extraoficialmente, a negra Rosenda em acesso de
abelhudice.
O sr. Giuseppe numa roupa de azul
empretecido, eu cria como um despropósito afrontoso à miséria dos outros o que,
presumo, no entendimento limitado de dois verdureiros e de um masseiro
passantes, habituados a testemunhar fins-de-festas dos ricos, seria somente um
desperdício.
Na igreja, além das beatas,
identifiquei com maior atenção as filhas do sr. Ambrósio e cuidei de olhar as
professoras Ercília e Ernestina, empoadas com exagero, e alguns operários da
oficina esquálidos, frágeis, serviçais, nenhum deles seria o sr. Artemísio,
herói ausente, no entanto uma ausência cheia de calor. Quem mais? Quatro ou
cinco italianos, suas mulheres gordas, mormaçadas. Por que perder tempo a notar
gentes de miolo mole?
Belos, sim, a ocupar minha atenção,
eram os efeitos da luz do sol atravessando os vitrais, coloridas pontes
luminosas que, em lentos movimentos ascendentes no espaço úmido, me convidavam
à fantasias servidas por imaginação desgarrada: foi uma espécie de fuga, óbvia
atividade dos mecanismos de defesa da higidez psíquica. Algumas das pontes
interrompiam-se em mamãe, como se ela as atraísse e então os laços de
interesses maiores me reconduziram ao interior do tempo conspurcado – sob esse
aspecto as igrejas eram, sem dúvida, espécie de meretrício – e testemunhei
imbecil recordação do Padre Matta: (...) e
tenham muitos filhos, para a glória maior do Senhor! Era como se pedisse
cabelos a nascer em bola de bilhar e naquele instante força incontida
repetiu-me frase que ouvi de meu pai para “seu” Lobo, na missa de ano à memória
de tio Leonardo. Após as encomendas, em fim de sermão, o padreco dissera que,
não obstante suicida e, assim, pecador, Deus haveria de ser condescendente na
punição “de que tanto errou”. A frase? Foi mais ou menos esta: Deus não precisa de cretino do tipo deste
cagone para falar por Ele entre os
homens.
Houve, depois da cerimônia na
igreja, uns rapapés no sobrado (“o pecado foi expulso deste lar”, garantiu o
padre Matta) e em pouco tudo voltou ao ramerrão habitual, até que mamãe me
chamou ao quarto do casal. Ainda aquele vestido de noiva ela disse que, feita
as contas, a intrujice de dona Ercília tinha produzido um resultado muito
favorável. Eu não entendi e ela explicou: Agora,
mesmo que Deus me chame primeiro, você herdará tudo! (E misteriosamente) Eu não terei filhos de Giuseppe. (E mais
misteriosamente) Me beije, Tonho, por
favor. Segundo Anália eu devia agradecer aos céus o que acontecera e
deveria, assim, chamar de “pai”, “papai”, o padrasto agora oficial, uma
sugestão que não aceitei: o sr. Giuseppe continuou o sr. Giuseppe.
8.
Num sábado a professora Ercília foi
procurá-los, dizendo-lhes que eu já tinha condições de ingressar no curso
ginasial, devendo submeter-me ao que se chamava “exame de admissão”. Ela
aconselhou a contratação de professor habilitado em português, em matemática e
em francês, idioma em que eram editados os livros essenciais para estudos
superiores. Conselho aceito, isto coincidiu com a mudança de residência, uma
vez que, promovido do capital necessário, o sr. Giuseppe havia decidido ampliar
as oficinas e para isso o primeiro andar deveria também ser ocupado: nele
seriam instaladas máquinas compradas em São Paulo, de fornecedores ingleses e
italianos. Com efeito, algumas semanas decorridas e o sr. Giuseppe alugou
imóvel de dois nadares, na avenida Sete de Setembro, trecho Mercês.
-- Mercês? Que maravilha, Giuseppe!
Ele deu ênfase à boa qualidade da
vizinhança, à esquerda um alto funcionário da Alfândega, à direita, e apesar de
francês, um homem educado, o engenheiro Émile Lauzimier Deschamps, técnico da Chémins de Fer, solteirão mas incapaz de
incomodar vivalma. Ademais, a casa situava-se a menos de cem metros do palacete
do Comendadore. Minha mãe, os olhos
brilhando, pediu a Deus bênçãos encachoeiradas para o marido e, cuidando do
seu, providenciou cortinas, sanefas, móveis, tapetes, o habitual para
residências, tudo de acordo com as vigentes leis do gosto médio, alguns pontos
baixos. Com algumas semanas de nova morad, sr. Giuseppe observou que na sala de
visitas faltava um piano, ao contrário do acontecido na casa do Comendadore, do dr. Venâncio, do desembargador Eutrópio,
presidente do Clube de Gamão, e de fulanos e sicranos. E surgiu o nosso piano,
preto como o livro de anotações, preto como a vestimenta daquela Senhora
repentinamente aparecida no Campo Grande, mais preto do que os morcegos de
Santo Antônio Além do Carmo. Reagi com um não não tenho jeito, quando o sr. Giuseppe insinuou que eu deveria
aprender as técnicas de uso daquele instrumento, mas não se amuou na negativa.
De qualquer modo, o piano era o piano. Valia-se.
A antiga oficina ganhou novo nome,
fábrica; o sr. Ambrósio, nova designação, gerente, e assim por diante, o sr.
Giuseppe dono de tudo. Minha mãe, de sua parte, espartilhava-se todas as
manhãs, ginasticando para matar um começo de corcova, sempre a me pedir que
contasse histórias: era assim, a par de algumas leituras, que ia enriquecendo
seu vocabulário. Maior era, porém, a preocupação com físico: mesmo em casa
usava diferentes tipos de pó e batons e reconheço que sabia se fazer atraente.
Ao sair quando saía, enfeitava-se ademais com uma sombrinha de fabricação
francesa, presenteada pelo sr. Lauzimier. Este vizinho, cujo filho recebeu-me
recentemente em Paris com provas de grande amizade, ao nos fazer a tradicional
visita de cortesia surpreendeu a todos ao recorrer ao italiano nortista em
certos momentos da conversão, sempre que a tanto provocado pelo sr. Giuseppe:
ele também fumava cachimbo e os tinha em grande quantidade. Ainda forçasse o
menos possível, terminou sendo o principal astro da tertúlia e, a certa altura,
mamãe me olhou de sorte a ordenar que de modo algum indagasse do sr. Giuseppe
se sabia francês, matando tentativa que fiz nessa direção. A noitada, para mim
agradável (o sr. Lauzimier era uma conquista para meu pequeno mundo), terminou
com muito chá, bolinhos de arroz, umas partidas de gamão nas quais o sr.
Giuseppe se impôs. Na saída, ele me deu um tapa de luva: falou em francês,
oferecendo ao engenheiro a casa e os préstimos. Recebeu agradecimentos em
italiano, eu a pescar algo, mamãe sem entender absolutamente nada. Estava,
porém felicíssima – e uma pulga começou a crescer atrás de minha orelha...
VOCÊ É LINDA, MARLUCE!
E O SENHOR É MESMO MALUCO! MAMÃE
ADOROU AS ORQUÍDEAS.
Encarregados, a bons soldos, de me
preparar para o ingresso no Ginásio, os professores de português, de francês e
de matemática vinha-me à casa, todos os dias. Produzindo comentários
louvaminheiros (neles se dizia que eu era tratado à vela de libra), era de bom
tom o dispendioso investimento e poupava-me as canseiras de procurar cada um
deles em suas casas, como em geral sucedia. Acontece que, na época, eu era
especial: mamãe e o sr. Giuseppe viam-me como espécie de apólice a ser
diuturnamente preenchida.
Dos professores o sr. Giuseppe
exigiu o máximo e falou-lhes sem reticências: imediatamente após o Ginásio eu
iria estudar superiores na Suíça, seria médico e desses (raros na época)
altamente especializados. À mamãe, de queixo caído ante a novidade, ele
explicou, durante noturno “conselho de família”, que os estudos na Suíça não
seriam um luxo e sim judiciosa aplicação de capital. Segundo lhe ensinara o
desembargador Eutrópio, em termos de restituição pecuniária um bom título
estrangeiro valia a ciência de cem livros. Exemplificou:
-- O dr. Venâncio é competente,
Sophia, mas a competência dele ficaria no fundo da arca se não tivesse sido
médico operador em Bueno Aires. Se, também, o Comendadore não fosse padrinho dele.
-- A fama vem dele ser professor da
Faculdade de Medicina.
-- Não. Ele é professor por causa da
fama.
O “prêmio” a mim destinado, porém,
condicionava-se a certas encomendas do Governo baiano, no âmbito de uma
campanha contra a verminose, iniciava dita humanitária planejada em São Paulo
por um contra-parente, o sr. Tomazzo, proprietário de próspero laboratório
farmacêutico. O bom negócio consistia em que, simultaneamente, o verminótico
beberia o xarope do sr. Tomazzo e usaria sapatos ou simples alpercatas do sr.
Giuseppe; os calçados impediram que os descendentes dos bichinhos mortos pelo
santo remédio retornassem ao organismo através dos pés desprotegidos, um negócio maravilhoso, Sophia, eu vi em São
Paulo; e Tomazzo virá para iniciar o negócio e Tonho irá para Suiça.
Percebi que a decisão do sr.
Giuseppe, proferida em termos irrecorríveis, não a alegrou, embora ela fingisse
o inverso. De alguma maneira gostava de me ver, ter-me perto, ao alcance.
Afeiçoei-me ao professor de francês,
o hoje meu extraordinário amigo dr. Augusto Nazareth. Indicado pelo sr. Lauzimier,
era um jovem de vinte a vinte e um anos, senão menos, dezenove ou dezoito,
terceiranista de medicina, de estranho comportamento. Nutria-se de grandes
silêncios, neles haurindo seiva para exaltadas indagações de sentido
político-filosófico:
-- De que herói brasileiro, sr.
Antônio, Corneille poderia dizer, como disse referindo-se ao Cid, o que lhe
digo agora: “... Et ton ilustre audace /
Fait bien revivre en toi les héros de marace: / C’est deux que tu descends...”
hein, sr. Antônio diga-me lá, quem?
-- Não sei.
-- De Tiradentes, heroico, admito,
mártir mais exatamente, e no entanto ingênuo como conspirador revolucionário?
Do ridículo Corneteiro Lopes, herói apenas porque se indisciplinou ou se
equivocou ao soprar sua trombeta?
Acalmando-se (eu não estava à altura
para a polêmica desejada), insistia para que eu lesse histórias das grandes
batalhas travadas na França, biografias de Carlos Magno, de Napoleão, os
romances de Zola, a vida de Pasteur, toda literatura sobre Joana D’Arc, a
fidelidade de Blanqui aos seus ideais, o heroísmo dos comunardos, ah! e Valmy,
ler tudo sobre Valmy. Certa vez, todavia muito rapidamente, referiu-se ao
Marquês de Sade:
-- Que temos, então, sr. Antônio?
Sempre imensas virtudes, de um lado, sempre grandes criminosos, do outro lado.
Na História da França tudo se situa nas faixas das diferentes grandezas: Sade e
Joana D’Arc, por exemplo. Bem, bem, voltemos à nossa obrigação específica. Você
é muito promissor. Traduza-me o que vou dizer e o faça sem medo de errar: “L’honneur est un devoir. Ou melhor,
traduza o verso completo: l’amour n’est
qu’un plaisir, l’honneur est devoir.
Traduzi (“o amor é apenas um prazer,
a honra é um dever”) e constatei, orgulhoso, que minha mãe quase chorou de
alegria e não sei porque a lembrei confidenciando-me que eu seria o único
herdeiro, ela não teria filhos do sr. Giuseppe.
-- Não, sr. Antônio, não é desse
modo que ensina o Mestre. Era sempre com frase que o professor de português me
definia em erro. O Mestre!, assim cognominava o eminente gramático Ernesto
Carneiro Ribeiro. Uma das minhas tarefas diárias era a de ler longos trechos
dos incontáveis capítulos de “Serões Grammaticaes”, por vezes comparando-os com
os quase novecentos da “Tréplica”, e textos de Castilho, Herculano, Garret,
Camões, Lucas de Santa Catharina, ufa! Frei Luiz de Souza, e Adiante, sr. Antônio, adiante – forçava
o velhote, Prof. Hilário Farias de Baltazar Corrêa, ranzinza como quê, doutor
em Direito. Repita Vieira, tal como ontem
fizemos. Mas, sr. Antônio, repita-o com voz altaneira, que tanto assim merece e
exige o texto. Vá, repita e de pé. Ponha-o de pé!
-- “Arde o ódio, morde-se a inveja,
escuma a ira, raiva a desesperação, grita furiosa a dor e desafoga-se sem nunca
desafogar-se a vingança em injúrias, em opróbrios...”
-- Basta, sr. Antônio. Falta-lhe
calor. Basta, então. Que é que temos?
-- Figuras pelas quais determinadas
palavras assumem sentido que antes não tinham. Foi o que ontem o senhor disse.
Eu estudei...
-- Não basta estudar. É preciso
amar. Exatamente. Amar. Amar apaixonadamente. Arde o ódio... morde-se a
inveja... Uma pessoa vulgar nunca imaginaria o ódio a arder, a dor a
gritar.
Pelo entusiasmo dominado, vez houve
que levou hora e tanto a explicar, com abundância de exemplos, porque os
particípios passados, embora essencialmente passivos, podiam, em formas
variáveis, apresentar sentido ativo. Rara a aula em que não se sapecava
estrofes de Castilho, seu amado Castilho: “Apenas do universo alguns nomes de
amor / Ouvires ressoar nas preces, que ao Senhor / Em desmaiando a tarde, o coro entretecia”. Não eram apenas
versos, ele dizia, são joias do melhor
louvor, sr. Antônio, joias que os vulgares como seu professor de matemática não
descobrem; que outros, descobrindo-as, querem tê-las engasgadas e frias,
aprisionando-as, e não conseguem, jamais conseguirão tal heresia.
E de repente parou, em busca de
palavras, e mandou que eu refletisse sobre o que iria dizer. Disse:
-- São imagens belíssimas, ternas e
ao mesmo tempo afirmativas. A figuração poética da tarde a desmaiar sugere-me
uma manifestação de pudor e ao mesmo tempo de uma audaciosa ansiedade, juntos,
sem dúvida, esses sentimentos ou na busca de uma união calma, paulatina, porque
em seguida à tarde, é a noite que vem, femininos ambos os tempos. Que beleza! A
tarde... A noite... A magnífica Safo não sugeriria com tanta delicadeza, se fosse o caso, mas sei
divago, pois que o sr. Antônio não está na idade de almoçar esse tema, tão
difícil na literatura. Os que em geral o abordam são grosseiros, de chã
materialismo, de sensualidade rastaquera. Está me entendendo?
-- Isto não, professor.
-- É natural. A sua idade...
Esqueça.
(Graças
ao meu amigo Arimar, não muitos anos depois eu compreenderia a insinuação de
sentido lésbico. A tarde desmaiando face à aproximação da noite... Uma
insinuação do professor, eis que inexiste em Castilho tal intenção. Aliás, a
primeira tradução de capítulos do “Kama Sutra” que li, com base numa edição
inglesa do século passado era atribuída ao Prof. Hilário, no entanto um chefe
de família – onze filhos!—exemplar)
Esqueça, sr. Antônio. Dê tempo ao
tempo. Ouça Garret: “E debulhada em prantos assim parece / Alvo lírio de prado,
em cujo cálix / Chorou a aurora ao despontar do dia” e não apreenda apenas a
imagem, sr. Antônio, mas faço-o com emoção. Eu me arrepio, veja, eu me arrepio!
(Abelardo: intercale também a
informação, onde você achar adequado, que de Safo traduzi – eu era, então,
deputado estadual – vários textos e, entre eles, a mais perfeita de suas
criações poéticas, “Ode a Afrodite”, cuja parte final reproduzo para seu
conhecimento: “Quem te faz sofrer, Safo? Tranquiliza-te. Se ela foge de ti, não
tarda a perseguir-te; se recusa seus dons, logo deporá outros a teus pés. E se
não te ama, mesmo a contragosto acabará te adorando. Vem, vem agora, liberta
meu coração triste, satisfaz minha paixão, ajuda-me tu mesma!” Talvez seja o caso de você reunir toda a
minha produção como tradutor e oferecer a algum editor inteligente. Deixo isto
aos seus cuidados e espero que você não faça idiotices).
INTERRUPÇÃO
– V
Sr. Abelardo, perdoando esta outra
interrupção, um pedido: o senhor poderia procurar entre os papéis do senhor
todos os poemas de Safo? Já conhecia ela
de nome, mas não sabia que era tão boa assim e eu sou muito chegada a poesia.
Ao contrário da insinuação do senhor, não vou pegar o trabalho da doutora Narda
por ser fominha. Não sou fominha. Ela paga bem, não há dúvida que paga, mas
principalmente é o assunto, conforme eu costumo fazer, coisa que eu não posso
explicar pelo telefone.
Não termino hoje esta parte porque
Cris também telefonou pedindo pra que eu dê um “Alô” num amigo nosso que está
numa pior. Tenho mais a dizer que já marquei sábado como dia do jantar, tá bem?
Repito: não sou fominha por
dinheiro. Sou fominha por amor, camaradagem, alegria, essas coisas.
Tchau!
Salvador, 15 de janeiro de 1969.
Marluce.
O professor de matemática, sr.
Rafael, eu iria reencontrá-lo, seguidamente, nos anos após àquele em que me
apareceu na casa das Mercês, com recomendação das professoras Ercília e
Ernestina. Um tipo enxerido, calculista, hábil no ensinar a disciplina em que
se especializara, e um glutão sem modos: ao comer, babava-se com facilidade, a
cara gorda beiços de mulato. Ao descobrir que, todas as manhãs, eu merendava às
dez horas, antecipou o horário das aulas, de sorte a também beber os mingaus
(de carimã, tapioca, de milho, nunca mais bebi mingau de café com farinha) e os
deliciosos bolinhos de arroz preparado por Anália eram mastigados com
voracidade. Nos dias de mungunzá, exagerava ainda mais: dois copos, às vezes
três. Sem forçar o riso de porco satisfeito, alegria pantagruélica, falava
exclamativamente “um manjar, minha tia, um manjar!”, e Anália gostava dos
elogios, dava-lhes asas, e eu sério, avesso às intimidades que ele perseguia.
Posso dizer que o professor Rafael
era somente tolerado. À minha mãe perguntou se gostava de jogar víspora e ela
respondeu que não, de modo nenhum, Giuseppe,
meu marido, é contra jogos, a não ser gamão, uma que outra vez, e gamão por
causa do desembargador Eutrópio; nem bilhar ele joga, embora saiba as regras;
e acrescentou que jogo era pura perda de tempo e o sr. Rafael fez um discurso
sobre o muito falado saber jurídico do desembargador Eutrópio, esperando, um
dia, conhecê-lo pessoalmente, quem sabe até ele concordaria em ser seu padrinho
de crisma, que uma pessoa jovem, querendo triunfar no magistério, precisa de
apoios, a senhora não pensa assim?
-- Não digo que não pense...
E deixei os dois néscios naquela
justa de mediocridade: eu tinha de bem traduzir o “Porte, porte plus haut le
fruit de ta victoire”, de Corneille, e versos seguintes. É ridículo, eu sei,
hoje eu sei, mas naquela época, encasulado nas Mercês em todo o caso com voo
possível à Suíça, eu me sentia justiceiro, um Cid juvenil, ocupando-me de
preparar a ocasião mais propícia para a vingança. Uma vingança que alcancei. E,
se Deus, tendo-a presenciado, é Onisciente, comigo não será, no fatal ajuste de
contas, um Javert (3) implacável. Onipotente, Ele faz as leis superiores às
nossas e as regulamenta e as interpreta, Supremo legislador, Supremo juiz,
sabendo que somos joguetes das inesperadas circunstâncias. Não perdoei o sr.
Giuseppe porque não me cabia perdoar.
ESCLARECIMENTO
– VI
Como você está vendo, Marluce, eu
mesmo datilografei o fim deste capítulo. Tentei dormir, debalde tentei. É bom
que eu trabalhe nesta máquina. Quero apaziguar meu espírito. Quero que os olhos
ardam. Você me entendeu mal: quando perguntei pelos dólares da Doutora Nárdia
ou Narda longe de mim esteve qualquer insinuação malévola. Foi simples
curiosidade e mantenho minha oferta sincera, sem segundas intenções: você
querendo eu também pago em dólares.
Compreendo, mas não justifico e
muito menos perdoo a recusa do pequeno anel, afirmando que merecedora você é.
Certo, jantar no sábado e você faz bem deixando tudo a cargo de Ivo. Curioso,
estou perturbado. Esta será, para mim, uma noite triste.
Abelardo
10.
Quase um ano mais tarde, aprovado
com média excelente, senti-me quase em estado de pecado: aceitaria jantar
festivo em minha homenagem, sonhara-me na Suíça, esquiando para alcançar Paris,
havendo esquecido Messina e, com ela, toda Calábria. A sede de aprender muito
tornava-se obsessiva e aumentava à medida em que melhor ia conhecendo o sr.
Giuseppe, não fora convidado para o jantar. Seria um acontecimento de gala, com
flores e roupas escuras, algo que merecesse ser presidido pelo desembargador Eutrópio e isto porque, Sofia, ele já aprovou a campanha contra a verminose e vai falar com
o governador; serão lucros de milhares de contos, Sophia, não sei quantos
milhares de contos
-- Não convidar o francês é a sua
-- É. O desembargador desconfia de
algumas ideias dele. Mande cozinhar galinha.
E antes de partir para o gabinete
disse que o sr. Tomazzo ia aparecer lá em casa e quando chegasse mamãe o
atendesse pessoalmente, nada de alimentar diálogos, um homem de grandes ideias
o sr. Tomazzo mas gostava de perder tempo em conversas de passarinhos. Não vi o
italiano apaulistado chegar, subira antes para o meu quarto, no segundo andar.
Ouvi, porém, alguns ruídos e sons de pessoas apressadas: a campainha, minha mãe
abrindo e fechando a porta da rua, o sr. Giuseppe abrindo e fechando a porta do
gabinete, mamãe subindo a escada. Debruçado na janela que dava para rua,
esperei algum tempo, mas inutilmente, a saída do sócio do sr. Giuseppe na
empreitada antivermes: pelo menos para saber se conferia seu real tipo físico
com o por mim imaginado. Já bastante sonolento, ia fechar a janela, recolher-me
ao leito, quando vi Rosenda sair, pelo jardim, e ir encontrar com a velha
América, empregada (única) do sr. Lauzimier.
E amigos leitores, afinal, sábado.
Um sábado decisivo na minha vida.
O desembargador Eutrópio e os demais
candidatos chegaram à inglesa, 18:30, 18:40. Aperitivos na sala de visitas, gim
com pedras de gelo e água gasosa. Logo após se sentarem à mesa e, antes mesmo da
sopa de verduras, debulharam-se em elogios para cevar de presunção o jovenzinho
que, em exames duros, realizados no mais rigoroso dos ginásios, quase alcançara
média cem, em francês um ponto a menos porque grafara abattue com um t só, erro de somenos, disse o desembargador; exagerada pureza ortográfica!, exclamou
o sr. Rafael, dois exemplos da irritante enxurrada de elogios, e desejei gritar-lhe
que apenas pensassem os encômios, não os expressassem cara a cara, havia perigo
de eu ceder à vaidade, ao orgulho, fazendo-me ainda mais alegre, e minha
alegria não devia ser compartilhada com eles, e dominei a vontade de
levantar-se, sair dali. Dominei-a porque não queria conflitar com o sr.
Giuseppe, interessavam-se os resultados da campanha contra a verminose, eu na
Suíça, livre de minha mãe, livre de toda aquela gente, aprendendo inglês,
alemão, italiano, francês, latim, sobretudo italiano, extensas e duradouras
viagens pelas cidades e vilarejos da Calábria. Milão? Nunca! Milão?, admiti,
mas só se fosse para mijar, o máximo possível, nas suas avenidas e ruas, nas
praças e nos jardins, só se fosse para defecar nas estátuas de seus heróis,
amolecadamente cavalgando-as e, querendo invioladas minhas ânsias e minhas
aspirações, escolhendo palavras eu disse ao desembargador:
-- Não sei se mereço tantos gabos
vindos de um homem como o senhor, de notório saber jurídico e de ilibada
reputação, como ouvi certa feita o professor Rafael dizer à minha mãe.
-- Merece, menino Antônio, merece –
disse e estava felicíssimo; o sr. Rafael, porque fora explicitamente citado, de
igual modo comportou-se, e o sr. Giuseppe e o professor Hilário, um
contentamento agressivo; os olhos do professor Augusto, todavia, nos quais
busquei paternal reprimenda, apenas me concederam, no momento, um riso
malicioso, mas logo foram conselheirais, você
tem suas manhas, Antônio, mas não as torne seu Norte, sua luz, não se esvazie
nelas;mantenha-se íntegro, Antônio, e voltaram-se, aqueles olhos, para o
sr. Giuseppe, em busca de uma explicação qualquer, algo que o ajudasse a
entender minha atitude estranhável (a verdade é que sempre busquei elogios...) e
era imprescutável a fisionomia do sr. Giuseppe, nela ninguém descobriria nada,
e desejei que ele, o professor de francês, a mim se dirigindo mas referindo-se
ao sr. Giuseppe, recordasse os versos de Corneille, um dos seus autores
preferidos, que meses e meses juntos estudáramos, versos inesquecíveis, belos
apropriados aos seus desígnios: (...) Ton
ennemi! (Teu inimigo!) l’objet de ta
colere (o alvo da tua cólera) / l’auteur
de tes malheurs (o autor de tuas desgraças), l’assasin de ton père! (o assassino do teu pai!).
-- e me exprobei por pretender tanto
do professor Augusto Nazareth e, transtornado, eu disse: Perdão, mestre.
-- Perdão, Antônio, por que? Ainda
por causa do abattue com um t só?
Não se exija demais, até porque a ortografia francesa, como a nossa, é
complicadíssima. Há mesmo quem considere incongruência que se grafe chariot com apenas um r e se determinem dois para charrete, charrue, etc.
O professor de português disse
inexistir incongruência. Havia, sim, respeito à raízes que deveriam permanecer
intocadas. Enveredaram, então no cipoal de discussão aborrecidíssima e o sr.
Giuseppe me perguntou sobre o que falavam e respondi gramática histórica, senhor e ele não entendeu picas, permanecendo
no capim ralo. Assim, considerei que vinha a calhar a iniciativa de minha mãe,
ordenando a Rosenda que servisse outro prato de sopa a quem desejasse, e o sr.
Rafael disse ah! ótimo, por sobre a
ciência um poder superior mais alto se alevanta..., e todos riram, menos eu
e Rosenda, ela estava triste e sua tristeza fez-me repará-la melhor, uma negra
sem os chamados “traços brancos”, negra bela porque negra, robusta mas
extremamente feminina.
Depois de repetir a sopa, dir-se-ia
que sem forças para arrotar e sob intensa necessidade de fazê-lo, o
desembargador pediu licença para levantar-se, de repente as faces
avermelharam-se-lhes, tremores, respiração ofegante, dor na caixa do peito, um incômodo – disse – há de ser coisa do estômago, gostaria de
descansar na sala, e o levaram e reabriram as janelas, e o professor de
francês ordenou que livrassem o desembargador do paletó, do colete, da camisa,
desapertassem-no. Passou, em seguida, a auscultar-lhe o coração, demoradamente,
mas ambas partes da caixa torácica, ora usando um ouvido, ora outro. Isto é grave? Não é bom chamar o dr.
Venâncio?\o sr. Giuseppe perguntou, muito nervoso.
-- Sim, é grave. Penso, porém, que o
pior está passando, mas sou apenar estudante. É, no mínimo, uma síncope
cardíaca e o dr. Venâncio deve vir com urgência, apesar do desembargador agora
ter passado a pior fase.
Querendo voltar à mesa, às comidas e
aos vinhos portugueses anunciados, o sr. Rafael sugeriu: Acho que devemos deixar o desembargador descansar em silêncio, uma vez
que ele respira melhor. De fato, estendido no sofá, o idoso homem, embora
babasse, parecia cochilar, um tanto ofegante. Tendo despachado Rosenda para
chamar o dr. Venâncio, o sr. Giuseppe indagou ao professor Augusto se ele
garantia a recuperação do desembargador, recebendo uma resposta dura:
-- Não, sr. Giuseppe, eu não garanto
nada. Já disse que sou apenas um estudante.
Silenciosamente contra minha
possível viagem à Suíça, mamãe disse: Acho
que ele respira cada vez mais aliviado, está cochilando e o sono é o melhor dos
remédios, melhor do que as gotas de valeriana. Podemos ir ao jantar. E de
retorno à mesa, quando o sr. Rafael perguntou pelo sr. Giuseppe, assaltou-me
vontade de informar (Está à espera do dr.
Venâncio – mamãe disse) que ele se quedara na sala de visitas onde, usando
um dos leques de minha mãe, abanava prometida ponte conducente ao maior negócio
de sua vida; não disse, foi bom que eu não dissesse, afinal a Suíça seria um
refúgio, um autoexílio disputado, e o sr. Rafael, fatalista, cuidava de outro
tema, pois é, mal se vive, mal se morre,
o importante é aproveitar enquanto Deus permite, que a morte é sempre um
mandado de Deus; interesseira, mamãe disse é sempre assim, o professor Hilário disse não há como fugir deste fato; e aí, arriscando-me e utilizando
formulações intuitivas que me surpreenderam, afinal eu tinha pouco mais de
treze anos, disse olhando o professor de matemática:
-- Deus não decreta a morte de
ninguém por “um me dá aquela palha”. Então é preciso lutar contra ela, que a
morte é uma doença, lutar mesmo gritando desesperadamente, mesmo que o grito
pareça o urro de um porco a ser sangrado.
Mamãe quase gritou: Você não entende dessas coisas!
-- O que você pretende seria um
excesso, sr. Antônio, um imperdoável excesso – disse o professor Hilário, e o
sr. Rafael, quase segredando à minha mãe, acentuou que, por temperamento,
repelia os excessos, só os admitindo ali onde as paixões afetivas prevalecessem
nas lutas contra as rebeldias dos instintos; sim, é certo – voltou à carga o professor de português --, pois que Deus suporta o mal, concede-lhe
tempo, mas não para sempre, ou jovem professor Augusto discorda?
-- Não se trata de concordar ou
discordar, mestre. O que me impressiona é a facilidade com que os senhores
atribuem a Deus isso e aquilo. Eu evito fazê-lo e evito por confessada
covardia. Aprecio muito a coragem dos senhores, se é que é coragem.
Tenho a impressão, hoje, que o
professor Hilário ripostaria de modo grosseiro, não fora o aparecimento do sr.
Giuseppe, a reassumir seu lugar na mesa, tranquilo, assegurando que o
desembargador dormira; quer dizer que
está salvo, felizmente, opinou o sr. Rafael, mamãe nada disse, olhando a
porta da cozinha, e ouvi o professor Hilário citar o gramático Augé, pedindo ao
Augusto que bem estudasse como, provavelmente, estudava o Tratado de Anatomia
de Testut, e o sr. Rafael, entusiasmado ao ver que Anália trazia fumegante a
terrina maior, interrompeu o douto debate:
-- Senhores, Augé e Testu morreram
ou morrerão, não sei onde se encontram; o que de sério sei é que há, ante
nossos olhos, estas maravilhosas galinhas ao molho pardo. Com o perdão da
ciência do rationalisme com um nê só
ou rationnel com dois nês, digo eu
que Augé e Testut se babariam de inveja se nos vissem como estamos: diante da
alegria dos dedicados pais do nosso Antônio, deste arroz solto, destas
galinhas; ah! Deus é bom. Sim, eles nos invejariam. Posso servir-me, senhora
dona Sophia? – e desengonçado, passou da pergunta à ação. Molho marrom espesso,
molho a base de sangue de galinha, o sr. Rafael exagerou nas colheradas.
Querendo empapar o arroz, repetiu-as com pressa. Em consequência, duas ou três
gotas do refogado mancharam o colete branco do professor Hilário, nem pediu
desculpas. E um imbecil desses não morre!
Por que não se explode em carnes, vísceras, tutanos, ossos? – há de ter
pensado o vetusto mestre e desviei a atenção de todos perguntando à minha mãe
se não seria aconselhável apagar a luz do corredor para que o desembargador
Eutrópio dormisse mais à vontade e ela disse que sim e levantou-se e saí-lhe
empós.
-- Toda caluda é pouca – disse o sr.
Giuseppe, recomendando-me silêncio.
No corredor, quando lhe falei sobre
a razão real de minha atitude, o sr.
Rafael me causa asco, mãe, ela não deu importância ao que se passava na
sala e comentou que se o desembargador morresse, e temia que assim tudo
acabasse, alto seria o prejuízo do sr. Giuseppe, mas não se importaria muito
porque chorava ao me imaginar na Suíça, sofreria intensamente com a longa
separação, muito me amava, etc., coaxava quem se queria melodiosa, e deixei-a
sozinha e voltei à sala. Na boca um ressaibo de porra, mãe, não finja, porra!, pensado e não dito, o sr. Giuseppe
me perguntou como ia o desembargador, eu respondi coisa como “tudo bem” e
estendeu-me taça com dois dedinhos de vinho, e senti náuseas: aquilo da
campanha antiverminótica me dava engulhos; como seriam corpo e cara do sr.
Tomazzo? Como a do sr. Giuseppe o rosto dele desenhava falta de escrúpulo,
avidez argentária? (4) e o sr. Giuseppe, agora enérgico, de novo indagou:
-- Você quer ou não quer o vinho,
menino?
-- Queira, Tonho, um pouquinho só –
mamãe pediu, súplice, e me encarou de tal maneira que lhe compreendi o apelo:
era a primeira vez que o sr. Giuseppe me oferecia vinho; algo muito importante
na tradição italiana, a oferta constituía-se num tácito reconhecimento de que
eu me fazia maior, aceitasse, pelo amor de Deus!
--
Sim, quero, mas encha a taça – e ele, cioso de sua autoridade, manteve a
garrafa suspensa e aquilo significava
que eu lhe devia um “senhor” ou/e um “por favor”
(4)“O rosto dele desenhava falta de
escrúpulos, avidez argentária.” Imitando Balzac, o senador, para ser original,
fingia dar crédito ao que foi “ciência” no século passado e hoje é chamado de
“arte”. “Arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços fisionômicos”. A
propósito: usasse bigodes e o senador seria quase um sósia do ator David Niven.
e
paguei o preço, queria o vinho, e ele encheu a taça com visível prazer,
mastigando um pedaço de pão: impusera-se, sob testemunhas, àquele que fazia
praça do silêncio, das esquivanças, da falta de afeição, e bebi com gosto, como
fazia na Pituba.
Compreendi, também, que,
correlatamente à demonstração de autoridade, ele queria lembrar que estávamos a
pique de nos associarmos em um empreendimento rendosíssimo. Mais galinha, Tonho? mamãe perguntou e
eu disse não, não quero e me repeti não à galinha, não à Suíça, não a campanha
antiverminótica, e assim porque o sabor e o odor do vinho haviam-me reatado ao
passado, aos meus sagrados propósitos de vingança, e desse modo para mim, de
novo, o sr. Giuseppe era o principal objeto de minha cólera, o assassino do meu
pai, o causador de minhas desgraças, cabendo-me matá-lo. O rosto duro, lutando
para que nele a emoção devida à lealdade reconquistada nada imprimisse, bebi gole
a gole toda a taça, homenageando a memória de meu pai, rei e herói, o macho das
lavadeiras de Itapuã, e sozinho caminhei lonjuras de mato e areias, Brotas, as
trilhas de um ontem, horas antes quase esmaecido e reencontrei mar e jangadas e
dentro da noite, inclusive no seu fundo, eu vi fachos acesos, e ouvi canções
familiares, e uma imensa pedra, batida e rebatida pelas ondas, pedra com olhos
feitos de limo e espuma, de irrepetíveis rostos, era a itaigara, e ela chorou
lágrimas de encorajamento,
-- isto, Tônio, assim, combata,
reaja! – e eram as vozes de papai e tio Leonardo --, mande todos
pras-putas-que-os-pariu!
-- Ele não! – exclamei, possuído
pelo delírio da imaginação inflamada, e referia-me ao professor de francês, meu
querido Augusto. Ele é um homem bom. Ele tem coragem.
-- Ele quem? – perguntou o sr.
Rafael.
-- O desembargador Eutrópio – disse
o sr. Giuseppe.
Enquanto minha mãe explicava ao
professor de português que eu era assim mesmo, de repente soltava frases
anteriormente apenas pensada (Às vezes
meu sobrinho faz a mesma coisa, senhora Sophia, é da idade), Rosenda
comunicava ao sr. Giuseppe que o dr. Venâncio não havia chegado em casa,
deixara recado. O sr. Giuseppe disse não
faz mal, o desembargador está melhor traga o lombo e abra outra garrafa de
vinho, e o sr. Rafael não bateu palmas diante da resolução tão alvissareira
porque não a ouvira: entretinha, com o professor Hilário, um início de
discussão sobre episódio recente, a anistia concedida aos marujos que, sob o
comando de João Cândido, se rebelaram contra o Governo. Ouvi dr. Augusto dizer
ao professor Hilário:
-- Isto de João Cândido ser preto ou
não ser preto é questão de somenos. Do senhor mesmo, professor, ouvi louvores à
poesia do sr. Cruz e Souza, que é preto. Creio que é justo o argumento do
professor Rafael: sem a anistia, felizmente decretada, o ódio persistiria.
Atarantado, olhando-me, o sr.
Giuseppe perguntou: que ódio?
-- O justo ódio dos marinheiros contra
os castigos corporais – esclareceu o sr. Rafael, indagando em seguida: existem tais castigos na Itália, a iluminada
pátria do Renascimento?
Que elogiassem ou não a Itália, os
italianos que se fodessem, o sr. Giuseppe proferiu aquele que, talvez, terá
sido o primeiro e último discurso de sua vida, uma vida que encurtei e encurtei
metodicamente. Não, assunto de tal jaez não lhe dizia respeito. E se si tratasse d’um altro tema, va bene.
Mas, Política? E continuo intercalando expressões italianas. Existem castigos
corporais na China, na França, na Inglaterra, no Brasil e mesmo na Itália, nada
tinha a ver com isso. Eu, Giuseppe
Camposanto, filho do falecido Américo, não tenho complicações na história. E em
complicações não me meto. Contudo, não o julgasse despreocupado com a
infelicidade dos outros, não, não, não! assolutamente
non, e sim ao contrário, e tanto lhe aprazia a felicidade dos outros que
poderia ter ficado em Milão, lá trabalhando, a ganhar bastante para seus
alfinetes e o mais, no entanto preferiria o Brasil, um País pobre, e no Brasil
onde armara sua tenda de trabalho? Não em São Paulo, terra em que já existiam
indústrias, mas aqui, na Bahia paupérrima; e que fazia? Por acaso julgavam que
era homem de comprar hoje uma bugiganga por dez mil rés para amanhã vendê-la
por trinta, e vendê-la ali adiante como fazem os árabes e os judeus? Eu, não, eu, Giuseppe Camposanto fu de Américo, nunca fiz isto. Uma indústria,
eis o que construí com o suor do meu rosto, com os calos de minha mão, uma
indústria! E queriam outra prova de sua dedicação à Bahia, à sua gente?
Bem, ouvissem-no direito, todos: decidira me mandar à Suíça e trar-me-ia de
volta, grande médico, para tratar de doentes onde? na riquíssima Argentina, no
riquíssimo Uruguai, na próspera cidade de São Paulo? não, não, não! aqui, eu
trabalharia aqui, nesta paupérrima Bahia, tutta
la giornata, anche la domenica (todos os dias e também aos domingos). Estes
os seus intentos, não isto de saber sobre revoltas, castigos, políticas, demais
o que era milanês, italiano, estrangeiro, e desde assim a troco de que era
milanês, italiano, estrangeiro, e desde assim a troco de que iria imiscuir-se
em brigas brasileiras? E se era industrial por que se envolveria em coisa de
marinheiros?
-- Meu pai dizia: o bom industrial
no seu escritório, o tecelão no seu tear e pensam todos que meu pai foi o quê?
O industrial? Não, nasceu e morreu tecelão, com muita honra, (surpreendente e curioso, Abelardo: o canalha
sabia escolher as palavras, era convincente aos outros), e tudo o que dele
herdei foi o amor pelo trabalho e uma antiga arca, uma arca quase vazia de
instrumentos, mas eu poderia ter ficado lá, em Milão, trabalhando com meu
irmão, vendeiro que enriqueceu, mas a ninguém quis dever favores.
E afirmou que aprendera seu ofício
duramente, de dia o tear, de noite sangrava os dedos trabalhando o couro. O
couro! o couro! Os outros nos bailes, nos namoros, nas bebedeiras, e ele na
salinha escura, noite e madrugada a dentro, e couro, mais couro, sempre couro.
Os olhos doíam? Couro e couro.
-- E estão lá, na arca, os restos
dos meus instrumentos de trabalho. Os primeiros; minto Sophia? Responda, minto?
-- Não, Giuseppe, você nunca mentiu.
E agora se acalme.
O vinho bebido, a doença do
desembargador, a presença do sr. Tomazzo na cidade, tudo a excitá-lo, não
entendeu o apelo:
-- Muito falaram, Sophia, todos
falaram, muito ouvi, e falaram de coisas daquilo que eu nada entendo:
políticas, gramáticas, marinheiros... Que diabo tenho eu a ver com marinheiros
rebeldes? E isto em minha casa, por quê? Por que ninguém me perguntou nada
sobre os aquilos que eu sei, por quê? As novas máquinas inglesas que eu
importei, tão modernas como as que vi em São Paulo, por que ninguém perguntou
quanto eu paguei por elas?
E olhou para nós e levantou-se e
disse: vou ver o desembargador. Ninguém
foi gentil com ele, para aconselhar-lhe “vá” ou “não, fique conosco”, era um sozinho
que deixava a sala, e minha mãe, notando que eu suava muito, aconselhou que
usasse o lenço e não bebesse mais, e desatendi e enchi de novo minha taça e fui
sardônico ao propor brinde à minha mãe, a quem eu tudo devia – disse, mentindo
--, devia tudo, absolutamente tudo, e quando com a dela eu ia tilintar a minha
taça, o sr. Giuseppe, muito nervoso, reapareceu, pálido, pedindo a Augusto que
o seguisse, presto, dottore, prestíssimo!
O desembargador Eutrópio, mola
principal da negociata verminótica, estava morto. Uma morte que me aliviou.
Dr. Venâncio referiu-se a uma
“parada cardíaca” e mandou buscar papel adequado para o atestado de óbito. Tudo
muito prático e conveniente, até mesmo o choro, sem salamaleques, de minha mãe.
Ela sugeriu que a filha única do desembargador e o marido, chamados pelo sr.
Rafael, levassem o corpo à Igreja das Mercês para velório solene: o morto
continuava no sofá. De todas as peças do mobiliário da casa era a melhor
trabalhada, jacarandá e palhinha. As duas na sala, mamãe disse à Rosenda: fique lá, vigiando. Aí, quando colocarem o
corpo no caixão chame Anália e vocês duas tragam meu sofá. Não quero gente
estranha sentado nele. Em velórios aparecem muitos perversos e um deles pode
furar a palhinha. O sr. Rafael ofereceu-se, também, para avisar o
Governador, o Presidente do Tribunal de Justiça, o Intendente, os jornais,
eficientíssima colaboração e oportunidade para aparecer: o descarado gostava de
ser visto. Debruçado na janela mais larga, a do centro, o sr. Giuseppe murmurava
não-sei-o-quê e, de inópino, disse para mamãe: Vou ver o Tomazzo no Hotel, não demoro.
-- Aproveite e avise ao sr.
Lauzimier. E que o velório será na Igreja.
-- Mande alguém avisar. Estou com
pressa.
NOTA
ADICIONAL N 2
Sobre o que aconteceu no jantar
quero reconhecer um fato e prestar um depoimento. Aprendi naquela noite,
ouvindo o discurso irritado do sr. Giuseppe, que um político deve saber
sintonizar com a mediocridade. Ou seja, falar os temas e a linguagem dos
medíocres, que fazem as maiorias eleitorais e outras. Homem culto como sempre
fui, isso não me foi nada fácil, desde que eu tinha de descer até os
rastaqueras, entendê-los e fazer-me entendido. Em boa parte consegui. Os
insucessos das esquerdas no Brasil têm nisso uma das suas causas: elas não
sabem “traduzir” os problemas que dominam. O que não deixa de ser
tranquilizador. Já os populistas, que são a versão brasileira dos
sociais-democratas europeus, sabem fazê-lo. Não menos o sabem desvairados como
o intragável sr. Jânio Quadros, nojento além de paulista.
Tenho dito a Abelardo que me exijo,
em estas memórias, como Tibério, citado por Suetônio, se desejou: que me odeiem
contanto que me avaliem. O depoimento é o seguinte: eu era deputado estadual,
antes de 1930 chegado ao Governo, e o professor (...) mostrou-se uma lista de
todos os médicos funcionários do Estado, com a recomendação de escrever a
alguns propondo vantagens em troca de trabalho eleitoral. O nome de Augusto,
que servia em juazeiro, hoje uma cidade bonitinha, naquela época um inferno de
calor e poeira, cresceu ante meus olhos. Escrevi-lhe de sorte a trazê-lo para
Salvador, quem sabe para cargo de chefia, e ele nem me respondeu. Quis
prostituí-lo e não aceitou. Minha carta ficou sem resposta. Há dois anos, havia
sofrido um enfarte, Augusto surgiu-me no quarto do hospital, colaborando na
minha recuperação. Repito: ele me aconselhou a contar tudo, absolutamente tudo,
em meu benefício – escrevendo eu redescobri grande interesse pela vida – e,
quiçá, daqueles leitores que define como “anônimos decisivos”:
-- Escreva – ele disse ao ler alguns
dos meus apontamentos – e o faça como se vomitasse, sonhasse, cagasse,
renascesse.
Este homem extraordinário, que,
agora, luta desesperadamente para salvar um jovem escritor canceroso, morre um
pouco com cada morte que não consegue impedir. E, como a Fênix lendário, revive
para um apostolado: ele nos ama. É por causa dele que o operário Artemísio está
neste livro.
--
Attendre, attendre encore / Sans plus savoir ce qu’on attend (“Espera,
espera ainda / Sem saber o que esperas”), foram versos que me disse quando, na
noite do jantar, se despediu de mim, afastando-se do meu convívio, que materialmente
poderia ser-lhe útil, durante décadas. E fez bem: porque eu me putifiquei.
TERCEIRA PARTE
ESCLARECIMENTO
– VII
Marluce, minha querida e jovem
amiga:
durante o jantar senti a existência
de um delicioso “estou ausente” em cada um dos seus silêncios enquanto
Cristovão falava. Diga se estou em erro, mas acredito que você, em cada um
daqueles silêncios, estava simultaneamente aqui em casa, para mim, e lá longe.
Para quem e onde, querida, onde? Entre ninfas? Entre musas? Naquele mar bravio
que deseja só para você?
Adorei tudo quanto aconteceu no
jantar. Cris é, de fato, um rapaz viril, de boas maneiras, sensível e parece
dedicar-lhe amizade afetuosa, algumas vezes um tanto ardente, o que é natural:
você é, realmente, muito bonita, sem nada de comum com os padrões que cinemas,
televisões, revistas, tentam impor ao nosso gosto.
Espero-os de novo, quinta-feira. Ou
antes, se vocês quiserem. O anel, insisto, ficará exatamente onde o deixei e
você escolherá o momento em que deverá usá-lo.
Nesta parte do nosso trabalho,
inicie tudo a partir do capítulo sete ou, se você concordar, em face do que
conversamos, desde a última lauda do seis. No momento preciso direi aos
leitores porque procedo assim. Você mesma, querida amiga, poderá verificar as
referências desairosas feitas a pessoas altamente respeitáveis. Mortas algumas,
seus numerosos filhos e filhas, além de parentes, estão vivos, são atuantes e
não poucos detêm posições poderosas. Se, para atingirmos os nossos objetivos, o
senador e agora eu, isso fosse necessário, então muito bem. Não é. Então,
melhor esquecê-lo.
Querida, você não acha o Cris,
digamos assim, um tanto exaltado?
Abelardo.
INTRODUÇÃO
– VI
Já que é para escrever o que eu
penso, vou dizendo logo que você não está datando os seus bilhetes, ao
contrário do que você mesmo combinou. Meus silêncios, você lembrou... É, meus
silêncios. Sobre isto a gente conversa, mas que Cris não saiba, principalmente
a coisa de que eu estava longe daqui enquanto ela falava contra eu ter pegado o
trabalho da doutora Narda. Outro babado em relação a Cris é o seguinte: o
negócio da biografia de Safo que você me prometeu é coisa que fica entre nós e
não me peça explicações. Que mais? Certo o jantar na quinta-feira, uma vez que
a doutora Narda não tem muita pressa. Sobre o anel: está bem, deixe onde está.
Ah!, sim a doutora Narda fala italiano que é uma beleza e mamãe fica como uma
boba, apreciando ela e Cris. Mamãe é joia, um dia você vai ver. Abelado, acho
babaquice copiar a última lauda do capítulo seis e vou direta no sete, a menos
que você decida o contrário. Salvador, 23 de janeiro de 1969. Marluce. NB: repita na quinta-feira a
sopa de espinafre. M
7.
Em dia de primeira semana do período
de férias escolares, ao lado de minha mãe, percorrendo as oficinas sem o perigo
da vigilância do sr. Giuseppe (ele fora a São Paulo), tentei identificar, entre
os trabalhadores, o sr. Artemísio. Não o conseguindo, solicitei do sr. Ambrósio
a presença desejada. “Um pedido impossível”, ele disse, eis que o sr. Artemísio
havia sido despedido. Destratara o sr. Giuseppe.
-- Xingou ele?
Minha mãe, chegando-se, indagou: O que é que ele quer, Tonho? Menti e
disse que havia pedido ao sr. Ambrósio uns pedaços de couro para entalhá-los,
um passatempo; replicou que devia esquecer couros, peles, para mim importantes
eram os livros, o próprio sr. Lauzimier espantara-se com meus progressos no
ginásio. Quando o sr. Ambrósio repetiu, duas ou três vezes, o seu habitual perfeitamente, senhora dona Sophia? Saí
de banda e reparei que sua escrivaninha era bem menor que a do sr. Giuseppe e
vi o livro preto, tradicional, metido entre outros de diferentes cores e
complicados títulos. Abrindo o preto, presumivelmente seguindo à risca as
instruções do sr. Giuseppe, mamãe endereçou ao gerente perguntas que cria
altamente embaraçosas. Como o sr. Ambrósio a tudo respondesse com segurança,
ela passou a dimensionar outro tipo de suspeita, manifestando-as mediante
observações que desejou acidamente sagazes: colarinho novo, igualmente novos os
punhos da camisa, ótimo tecido aquele, de primeira qualidade, o senhor até parece que vai a uma festa, sr.
Ambrósio...
-- Festa, senhora dona Sophia,
festa?
-- Me parece. O colarinho novo,
punhos novos, tudo tão chic... – e
dando à voz agressiva inflexão pediu o livro preto, queria levá-lo. No final da
visita de inspeção o sr. Ambrósio cuidou de explicar-se sobre punhos e
colarinhos. Prelibando, sem jactâncias, as doçuras de um triunfo fácil, disse
os ter graças a uma de suas filhas, Mariana, talvez dela mamãe se recordasse,
estivera presente ao casamento, crescera com boa saúde, recato exemplar e
muitas prendas, particularmente costura e cozinha. Aliás, senhora dona Sophia, quanto a cozinha é de fazer parelha com
dona Anália. Não bastassem tais méritos, o sr. Ambrósio agregou que Mariana
era dada a leituras apropriadas, livros escolhidos pelo Padre Matta, mamãe
teria prazer em conhecê-la? Acho que sim
– respondeu. Oferecimento tão inesperado quão desconcertante, mamãe
confundiu-se um pouco, mas se refez, arteira como uma raposa, e retomou o tema
que lhe anunciava a desconfiança, traduzida por um perguntar nada elegante:
-- E quando a punhos? E quanto a
colarinhos, sr. Ambrósio?
-- Mariana coserá quantos a senhora
queira.
-- E quanto aos panos?
-- Os meus foram sobras de camisas
que Mariana costurou. Encomendadas por clientes ricos. O sr. Giuseppe sabe quem
são.
-- Vamos, Tonho – ela determinou e
quando começamos a andar, já na rua, o sr. Ambrósio pediu que enviasse o livro
preto de volta antes das quatro horas da tarde e assim porque nele terei de
fazer os assentamentos da jornada e ela considerou uma ousadia aquilo de alguém
subordinado lhe marcar tempo e reagiu: você
manda buscar às cinco horas, nem um minuto menos.
Fraco
para manter-se digno, concordou com o asserto dela.
Manhã de dia da semana seguinte, a
moça Mariana apareceu lá em casa, olhos amendoados, seios fartos, nádegas
condizentes com o perfil. Como se verá, poderia ter sido, se quisesse, minha
mulher, mas nunca seria minha amante. E não quero, com isso, desdoirá-la, muito
menos tisná-la.
Instruída pelo pai, levou pedaços da
fazenda com que lhe fizera os punhos e o colarinho, retalhos, senhora dona Sophia, sobraram
de seis camisas que costurei para o sr. Fuad, freguês rico; quem sabe a senhora
não conhece o sr. Fuad? É muito amigo do sr, Giuseppe e é o dono do bazar
“Cedros do Líbano”, no pelourinho, início da Ladeira, direita de quem sobe, e
mamãe evitou responder e fingiu surpresa e à guisa de que – perguntou – dera
tal informação se nada sugerira ao sr. Fuad ou outra pessoa assim?
Bobagem, queria era que Mariana
preparasse uns punhos e uns colarinhos de pano tão bonito quanto aquele para
dá-los ao sr. Giuseppe, logo que retornasse de São Paulo, já estava demorando
quase dois meses. E de supetão, perguntou: Onde
você comprou o pano para o sr. Fuad?
-- Ele é que levou o pano. Deve ter
comprado em “A Tzarina”, que vende fazendas caras assim.
-- Vá ver que foi – mamãe, afinal,
admitiu – Eu vou lá um dia desse. E quanto a você, Mariana, bons serviços, bons
vinténs.
Pouco e pouco desenovelando-se dos
temores que trouxera, Mariana aceitou almoçar na copa, com Rosenda e Anália. De
tarde ela nos acompanhou às oficinas. Reuniram-se, as duas, com o sr. Ambrósio
e aproveitei a ensancha para andar de um lado para o outro, fazendo indagações
aos operários que se atreviam a encarar-me (sobretudo a uma mulata, da secção
de empacotamento) e, afinal, juntando fios, descobri porque o sr. Artemísio
fora sumariamente demitido: o corajoso homem escrevera um petitório solicitando
que aos sábados, no turno da tarde, a jornada se reduzisse de uma hora, de
sorte que os trabalhadores tivessem mais tempo para compras nas feiras. Conquanto
considerasse a reivindicação como uma rebeldia, o sr. Giuseppe, ponderando
sobre a competência do sr. Artemísio e considerando que fora ele o primeiro
signatário do documento, instou-o a retratar-se, desse o dito por não dito.
Proposta recusa, demissão e ameaça de polícia para prendê-lo.
-- E ele foi espancado?
-- Não se espanca um homem como ele,
mas ninguém sabe o que aconteceu.
-- Pode ter morrido?
-- E se ele morresse?
-- Eu ia ficar danado!
-- Me deixe, menino, me deixe! – e a
mulata, nervosa, trancou-se em copas, vindicando silêncio protetor. Imaginei o
sr. Artemísio a enfrentar aqueles meganhas espancadores, vencê-los, fugindo em
seguida, qual um novo Zumbi dos Palmares. E ali, nas oficinas, olhando caras e
caras, depreendi que não havia outro capaz de substituí-lo. No socavão, no
térreo, no primeiro e no segundo andares, os homens e os adolescentes a
trabalhar mostravam-se golpeados pelo desânimo, compondo, todos, o que Ruy
chamou, depreciativamente, de “enguia humana”, “de compleição resvaladiça e
fugidia”. Ou, para usar gíria hodierna, eles não eram de nada, uns frouxos,
fadados à eterna obediência, o que é bom quando há bons líderes – e este não
era o caso do sr. Giuseppe. Gentes de olhos mormaçados, indivíduos
verminóticos, com certeza, amolengados, apequenados. Exceção? Apenas a mulata
de olhos verdes e vivos, mas era mulher. O sr. Ambrósio, a quem olhei com
raiva, descobriu-me no primeiro andar e disse que eu me devia dar toda pressa,
mamãe já estava de saída. Ela tinha uma novidade: Mariana ia passar uns dias
conosco, até o regresso do sr. Giuseppe. Ótimo! Seria aprazível, alguém de
ouvido fino com quem conversar, tê-la bem próxima, pressenti-la perturbada com
meus olhares.
8.
O primeiro telegrama que vi em minha
vida foi o do sr. Tomazzo a comunicar o repentino internamento do sr. Giuseppe
num hospital de São de Paulo. Doença então de nome estranho, “insulto cérebro
vascular”, e ela me mandou, toda urgência, buscar o dr. Venâncio e fui e voltei
andando bem mais depressa que o idoso clínico e senti, logo aberto o portão,
cheiro de incenso queimado, e vi as duas mulheres diante do nicho, elas
rezavam. Mais atrás de Mariana e mamãe, Anália também rezava. Desinteressada,
Rosenda, usando óleo de linhaça e pano felpudo, lustrava a escrivaninha do
hospitalizado e entrei no antes indevassável gabinete do sr. Giuseppe e gozei
ao notar quase vazias as estantes e alisei cada uma daquelas prateleiras. Maior
ainda meu contentamento quando ouvi o dr. Venâncio dizer: se acertado o diagnóstico, é muito grave o estado dele, dona Sophia. É
gravíssimo. A senhora viajará?
-- Não. Sozinha, em São Paulo, eu
não saberia dar um passo. E ele tem parentes lá.
“Quando ele morrer – eu me disse –
vou encher estas estantes com meus livros”. Já tinha, em quarto, uns trinta
volumes, alguns oferecidos pelo sr. Lauzimier. Dois ou três, não mais,
comprados pelo próprio sr. Giuseppe.
Naturalmente por ter ciência que o
sr. Giuseppe ainda se encontrava em São Paulo, hospitalizado, o sr. Rafael, uma
noite de junho, esgotava-se o período de férias de meio de ano, foi visitar
minha mãe, oferecer seus préstimos, como alegou. Ouvi-os ao retornar do Largo
da Piedade, onde estivera a passear com Mariana, andando sem pressa, a ver os
foguetes e os balões das festas que chegaram ao fim, restos de fogueiras
juninas pelos chãos. O sr. Rafael contava episódios de sua existência pobre,
esforçando-se por causar boa impressão à muito possível futura viúva, supondo
que os quase mortos instintos maternais de minha mãe, mulher de um filho só e
filho que a evitava, poderiam ser despertados a seu favor. O idiota ensinava
Padre-Nosso a vigário e assim porque minha mãe poderia, se lhe desse na telha,
matraquear horas seguidas sobre o amargo da solidão, quão ferventes são as
lágrimas das crianças que dormem sob o acicate do cansaço físico e não
embaladas pelas canções de ninar, e etc., e etc.
-- Também eu não nasci em berço de
ouro, sr. Rafael.
E nada falou sobre o tema do seu
agrado. Cerimoniosamente, entretinha o sr. Rafael, seu hipócrita pundonor
realçado pelo uniforme de viúva em véspera da condição. Com efeito, desde o dia
em que fora informada sobre a gravidade da moléstia, dera-se a trajar preto,
dos pés à cabeça. Com exceção da pele não morena e também não cabo-verde,
indefinível matiz, e excetuando, ainda, o medalhão de ouro, tudo nela era
preto, negro, azeviche, melhor dizendo piche. O sr. Rafael, apostemado Tartufo
tupiniquim, mostrava-se de modo ridículo: o costume amarfanhado conflitava com
a flor de formas perfeitas, um cravo vermelho-sangue, que trazia na lapela
esquerda. A gravata grená, via-se bem, estava descuidadamente furada pelo
alfinete azinhavrado, no cimo qual inexistia pérola ou diamante. Havia, sim, a
fosca e arranhada e comum uma pedra que, antes, simulara a beleza da ametista.
Mariana quis avançar, sala a dentro,
perfilar-se ante minha mãe, exibir-se àquele estranho, mas impedi que o
fizesse, levando-a, pelo jardim lateral, até a porta trazeira, sempre a pedir-lhe
total silêncio. Da cozinha alcançamos a copa, a sala de jantar e, depois, o
gabinete do sr Giuseppe, contíguo à sala de visitas. Então, afinal, foi-nos
possível continuar ouvindo a conversa. O sopeiro reoferecia-se para ir a São Paulo,
“ver como as coisas estão”, Mamãe disse:
-- Pelas cartas do sr. Tomazzo isso
não é preciso. Ele vai embarcar Giuseppe de volta. Conhece um comandante de
navio. É só o navio chegar, o que não vai demorar muito, apesar da Guerra.
-- Estou sempre às ordens. A senhora
lê sobre a Guerra? (1)
Encostei-me em Mariana e senti-lhe o
calor, por trás. Ela não me repeliu. Eu tinha uns dezesseis anos, ela dezessete
ou dezoito, e éramos quase da mesma altura e sedosos seus cabelos de fêmea
nova, limpa, embriagador o cheiro dos seu cangote. Enlacei-a com o braço
esquerdo e usando a mão direita, delicadamente, tapei-lhe a boca, sentindo seus
lábios umedecidos e pedi que não se movesse, mantivéssemo-nos ali, calados, e
em pouco eu já não escutava o que se diziam minha mãe e o sr. Rafael. Mariana
era tudo, suas nádegas, seus seios, o morno respirar, não se movesse e não
falasse e continuasse a permitir aquele maravilhoso aconchego, e mais me colei
nela, esfregando-me, e minha língua salivando seu ouvido, ela tensa, deixando,
e o gozo, a ejaculação incontrolável, e as vozes na sala, de novo pude
ouvi-las, minha mãe a dizer que tinha fé na recuperação do sr. Gouseppe, na Bahia há calor, Deus é Grande, sr.
Rafael, Deus é grande.
-- Será que calor faz eleito em
paralisia total?
-- O dr. Venâncio acha possível e
Deus sabe o que faz.
Acredito
que Mariana se cansou da pressão que sobre ela eu ainda fazia e, com brusco
movimento, apartou-se mas não seguiu para a sala: pôs-se ao meu lado. Dei-me
tento das novas investidas do sr. Rafael e que minha mãe as aparava com o
emprego de frases curtas, a elas acrescentando “senhor professor”, expressão
fria, cortante. Pensei: ela recusa o sr. Rafael por causa do sr. Lauzimier;
quem sabe se, de madrugada, todos a dormir, ela não lhe abra a porta? Que o
faça, continue fazendo, o sr. Lauzimier gosta mesmo de mim, enquanto que este
sopeiro... – e não concluí o pensamento eis que Mariana, agora por detrás, me
puxava o paletó, quase fechando os olhos na súplica, pelo amor de Deus, Tonho, saia daí e concordei e ela, ao ver-me, a
calça molhada de esperma,visguenta, exclamou oh! Pai do céu! e eu disse amo
você, Mariana, amo muito, e ela
suava (medo) e consegui beijá-la na boca. O gesto ousado a surpreendeu e sem
retribuir a carícia, implorou: suba e
mude esta calça, Tonho, mude e desça logo, por favor.
--
Tônio, diga Tônio – exigi. Você jurou que somente na vista dela e dos outros me
chamaria de Tonho. Tônio, Tônio, ela
repetiu, reinterando que eu devia mudar de calça e descer, se demorássemos
muito minha mamãe suspeitaria, e os degraus da escada, pulando-os de dois em
dois, e corredor, meu quarto. Troquei a calça sem saber a cor daquela que
estivera usando e nem a da nova, tamanha minha confusão, a suja jogada debaixo
da cama, e desci e Mariana me esperava pedindo fizéssemos de contas que
havíamos chegado naquele instante e eu disse sim, mas não tenha medo: o
sr. Giuseppe está morrendo, vou ser o homem desta casa e amo você.
--
Tônio, por favor, fale baixo... e juntos, retomando o jardim, pela entrada da
frente penetramos na sala de visitas. Levantando-se ao nos ver, o sr. Rafael
disse ah, até que enfim aparece o nosso tonho, eu disse esta é Mariana, os dois se disseram muito prazer e minha mãe observou, com algum azedume, que tínhamos
demorado além da conta, coisa incomum, e Mariana hesitou e eu menti com
eficácia: Fomos até o Campo Grande; na
Piedade havia foguetes perigosos, espadas, mãe. Mariana confirmou, ótimo!
Ela assumia a condição de aliada, algo a mais nos unia, e o sr. Rafael passou a
olhá-la com alegria e surpresa. Mamãe apresentou-a como “moça de companhia” e,
talvez arrependida pela simpatia demonstrada, abruptamente ordenou a Mariana
que nos preparasse um chá, e não demorasse, Lipton,
Mariana, você sabe o que é chá Lipton? e
traga bolinhos de arroz, e inqueri-me: por ela não pede a Mariana que
transmita a ordem à Anália ou à Rosenda? Não é assim que ela faz quando o sr.
Lauzimier vem aqui? por que, agora, rebaixa Mariana à condição de doméstica? E
irritei-me e disse: é tarde para mim,
mãe, a bênção e boa noite, sr. Rafael, e ela insistiu para o chá e menti
com descaro tal que consegui convencê-la:
--
Não posso ficar, mãe. Para que o calor da Bahia bote o sr. Giuseppe bom eu
prometi rezar um terço ao Senhor do Bonfim e eu não gosto que ninguém me veja
rezando, já expliquei isso ao Padre Matta.
(1) A
guerra. Trata-se da I Guerra Mundial, travada na Europa, de 1914 a 1918
E saí da sala e ao
invés de dirigir-me ao meu quarto, apijamar-me, aquietar as emoções novas, sentei-me nos degraus da
escada e lá em baixo, na sala, aquelas vozes, o sr. Rafael todo se melando em
falsidades: Há muitos anos, senhora, não
me agasalho em família tão educada, tão fina, tão cristã. O que o nosso Tonho
está fazendo agora comove-me muito. Nesta casa são incontáveis os quilates em
termos de bondade e pureza, e imaginei Mariana a despir-se, a saia
primeiro, a anágua em seguida, o sutiã, a calçola, nua ali estava Mariana nua,
estátua, negros como os de minha mãe, os pelos que lhe cobriam o sexo,
igualmente carnudos os seios, como os de minha mãe, vermelhos os bicos, um
vermelho puxando para rosa, como os de minha mãe, e me acariciei e porque
gostei da carícia nela prossegui e de repente temi que minha mãe, saturada com
as momices do sr. Rafael, lhe desse um basta e subisse silenciosamente,
surpreendendo-me. Importante, para mim, era nova descoberta: amava Mariana,
suas carnes, e esse amor tornava-me partícipe de um mundo maior. Uma pena que
seus olhos não fossem verdes como os da mulata da oficina, que seus lábios não
fossem mais sensuais, como os de melhor esconder a calça do gozo com Mariana.
Reencontrei-a calma, de
manhã, na copa, servindo café com leite e roliços de tapioca. Estávamos
sozinhos e alisei-lhe a mão quando recebi o paliteiro e não reclamou.
Levantando-me, sem nenhum receio de que Anália e Rosenda pudesse ouvir, disse: Eu lhe amo, Mariana.
-- Cale esta boca,
Tônio – e sorriu e com um movimento de rosto indicou o relógio antigo, na
parede, aquele pêndulo grande, pesado, a mover-se, ele é que eu via, não via os
ponteiros, via aquele pêndulo, e esfreguei a mão em meu pau, enrijecendo-o
ainda mais, e ela viu e ruborizou-se e disse: Tônio, são quase oito horas, seu horário. Eu me atribuira horários
rígidos para estudar e os cumpria, agora já utilizava o gabinete, uma conquista
contra a qual mamãe não disse palavra. Fui aos poucos transferindo meus livros,
meus cadernos, com desculpa na ponta da língua se ela reclamasse, mas parecia
de acordo.
-- Vá estudar – Mariana
pediu, prometendo que, logo mamãe saísse (iria, como foi, aconselhar-se com o
dr. Venâncio), falaria comigo, a sós, coisa
muito importante, Tônio. Por volta das nove horas, minha mãe desceu para o
café. Antes de sentar-se na copa foi ao gabinete com uma exigência: de outra
vez não procedesse como na noite anterior, eis que a largada sozinha com o sr.
Rafael, um presepeiro, não havia dúvidas, mas útil, dispondo-se a ajudá-la nas
providências em favor do sr. Giuseppe, quando ele chegasse. Chamando-se de
prestativo, disse também que o sr. Rafael desaconselhara meu ingresso na
Faculdade de Direito. Se eu tinha uma inclinação para a matemática, por que não
seria Engenharia? Considerei idiota o conselho, como idiota havia sido a ideia
do sr. Giuseppe, uns três anos atrás, para que seguisse Medicina. Sei o que quero – eu disse. Se não quiser ser coisa alguma eu serei
exatamente coisa alguma: a vida é minha. E ela saiu, amuada.
Eu traduzia o brocado
latino “Eum enim qui armis venit, possumus armis repelere” – Podemos repelir com as armas, aquele que vem
com armas – quando Mariana apareceu, sisuda, e pediu que eu não falasse,
ouvisse, e tudo bem escutado então seria dela a vez de ponderar o que me
ocorresse dizer. Tentou ser didática:
-- Eu gosto de você.
Não amo, mas gosto. Às vezes você é uma criança, às vezes você age como um
homem feito. Eu gostei de ontem à noite. Mas, se você implorasse à dona Sophia
para casar comigo, ou mesmo só namorar, dona Sophia diria que não, o sr.
Giuseppe também...
-- Ele não vale nada.
Ele é um molambo.
-- Meu pai também,
todos, porque seria um casamento contra a ordem natural das coisas. É como o
Padre Matta diz: um cavalo é um cavalo, um gato é um gato, não se misturam
nunca.
-- Mariana, começa que
o Padre Matta é um veado e fique sabendo que mamãe pegou ele querendo me beijar
e botou o descarado pra fora de casa (2). É um chuparino!
-- Me respeite, Tonho.
-- Uma ova! Eu amo
você, você me disse que gosta de mim, nós somos gente e você me vem com os
bichos do veado desse Padre!
-- Fale baixo.
-- Já cansei de falar
baixo nesta casa, que é também minha. O sr. Giuseppe está doente, vai morrer,
isto eu garanto, e quem vai mandar aqui sou eu. Eu sou o herdeiro! Um tempo
mais, Mariana, e eu boto no dedo o anel de doutor e isso de casamento é pra
depois, não muito, mas depois, eu, dr. Antônio Petrucci e você...
-- Nada vai mudar! –
disse e estava exasperada e definiu-me como um jovem senhor, o patrão do seu
pai, o patrão dela mesma, errando espalmadamente que nunca fui patrão de
ninguém. Disse mais que eu era um touro e ela um animalzinho, nossas vidas
estavam marcadas para diferentes direções , eu não seria louco de abandonar
tudo e segui-la e sofrê-la; ainda que pudéssemos durante algum tempo viver
juntos, um dia, tão longe, tudo se desfaria, nunca iguais acordaríamos, como
nunca se encontram, iguais, o touro e a rã.
-- Touros, gatos,
cavalos, o veado do Padre Matta e você... rã. Ora, tudo é uma bicharia de
cretinos. Por que você se mete nisto?
-- É a ordem natural
das coisas.
-- Ordem natural é você
ficar nua para mim. E que os outros se fodam!
Impetuosa, ela me considerou um bruto,
chorando, dizendo bobagens grupadas, apinhoadas, e me aporrinhei comigo mesmo,
a ponto de não querer abrir um telegrama que Rosenda me mostrava, ao tempo que
pedia calma. Não mais que uma hora depois, mamãe, atarantada, informando que o
navio a trazer o sr. Giuseppe, chegaria dentro de uns dez dias, preocupou-se
com pedido que fiz: queria almoçar no gabinete, exigindo que ninguém me
interrompesse.
-- Nunca ninguém fez
isso, Tonho. Gabinete não é refeitório.
-- Eu quero e eu faço.
(2)A
cena em que o finado tentou e conseguiu manifestações homossexuais do Padre
Matta encontra-se em um dos capítulos, o numerado cinco, que resolvi cortar. No
meu entendimento o senador deu uma jogada muito suja, pata ver-se livre do
religioso, de sorte a introduzir em sua casa o Padre Hermógenes. Esta
explicação é suficiente.
À espera do dr. Venâncio, de noite, o
sr. Lauzimier e o sr. Rafael na sala de visitas, Mariana colocou-se atrás da
cadeira de minha mãe, fazendo-se animalzinho de estimação. Emurcheceu-se ainda
mais quando o pai, sr. Ambrósio, surgiu: ele fora chamado. O sr. Lauzimier,
notando minha inquietação, eu tinha sede de Mariana, um desejo desmesurado,
sugeriu que fôssemos ao gabinete. Inteligentíssimo e afiado em análises de
almas humanas, ele conseguiu distrair-me e tanto que esqueci as baboseiras do
sr. Venâncio: acreditava, o bobão, que o clima de Salvador poderia devolver
alguns movimentos ao sr. Giuseppe. De onde tirou essa teoria maluca eu não sei. Mamãe disse, a
certa altura:
-- A fé remove montanhas.
Não removeu picas nenhumas!
9.
Os marinheiros agiram com perícia
quando descarregavam o corpo do sr. Giuseppe para o cais, ele duro, enrolado em
lençol de hospital, na maca, como que enrolado, um bagulho, todo um mapa de
anatomia patológica (ah, Abelardo, quero
morrer de enfarte, ainda que a dor seja terrível), e se não foi imaginação
minha, vi a Senhora-Toda-de-Preto esgueirando-se e sumindo entre os doqueiros
aparvalhados. Talvez por economia (custara bastante a hospitalização em São
Paulo), mamãe havia alugado uma carroça que o sr. Rafael afanosa e toscamente
alcochoara. Um préstito bizarro e em todo o percurso, das docas às Mercês, não
foram poucas as pessoas que, cada qual a seu modo, se divertiram com o
inusitado espetáculo. Gozariam mais se tivessem, como eu tive, o privilégio de
ver e ouvi mamãe “comentando” os comentários das gentes, multiplicando
assacadilhas e imprecações, ela mesma sabendo que naquilo tudo havia muito dela
própria: esquecera, a burra, que comparara meu pai a um porco. Mais gozariam,
como eu, se a vissem a repetir mimos e palavras de esperança para o trapo de
pessoa que era o sr. Giuseppe. Já em casa, no quarto “do casal”, o sr.
Giuseppe, olhos abertos, pesados de espanto e tatuados pela angústia, não
conseguiu mover um músculo da cara quando o dr. Venâncio lhe furou o braço
magérrimo com seringa de grossa agulha. Mamãe disse:
-- Coitadinho.
Fosse qual fosse, a droga agiu com
evidente rapidez. Em verdade, aos poucos os olhos embaçaram-se e quando, por
ordem do médico, todos descemos para a sala de visitas já as pálpebras estavam
descidas.
Entardecia quando o dr. Venâncio
saiu do gabinete, nas mãos a carta que lhe enviara um dos médicos que, em São
Paulo, acompanharam o caso do sr. Giuseppe. Ele disse que, desgraçadamente, os
danos haviam sido muito extensos e, em consequência, impossível deixar de
concordar com as previsões contidas na missiva: era de se rezar por um milagre
(e já esquecido o clima da Bahia) pois só ele salvaria o nosso desditoso amigo, esposo exemplar e pai extremado. Se um
milagre a Deus não aprouvesse, agravar-se-ia o processo de abandono de si
mesmo. Nada mais acrescentou e fez-se um silêncio de quase um minuto e mamãe
não disse o seu Deus é grande e sim
conseguiu lágrimas. Imputando-me a condição de analista, mais abri olhos e
ouvidos: aquilo me deliciava. E não queria, capitulando ao gozo, toldada e
ensombrecida minha capacidade de julgar; o bom espectador é que ri e sabe
porque o faz, evitando contágios, ou será, apenas, um algarismo a mais na
aritmética das emoções das paixões. Importante
agora é rezar – disse o sr. Rafael e saiu de banda, Mariana atrás,
informando que iriam às preces na Igreja das Mercês, e apercebi-me que os dois
haviam celebrado uma aliança para fruição do que haja de gozos no cardápio
sexual dos medíocres. Assim julguei o julgo porque o safardanas não sairia para
rezar uma hora daquelas, o jantar próximo, cada vez mais convidativo o odor do
caruru que Anália preparava, chiando, nas brasas, as lasquinhas de bacalhau.
Encostada à autoridade do dr. Venâncio, mamãe explicava ao Padre Hermógenes que
o sr. Giuseppe era um necessitado de rezas e não só as dos da casa. O homem
miudinho, com sua batina preta e surrada, disse, então, algo que me pareceu um
desses gracejos dessalgados:
-- Aquele que cai do alto ao ínfimo,
pode voltar do ínfimo ao alto.
O substituto do Padre Matta, capaz
de inesperada assuadas, era o contrário do que se poderia esperar de um
religioso daqueles tempos: ao que parece acreditava mais em Vieira do que nos
dogmas do Papado. Em todo caso, poucos sabiam disso: para comer e dormir, para
ter acesso a livros, fingia ser papista. Foi o primeiro antiburguês que
conheci, a ponto de querer que mamãe vendesse o piano, objeto de ostentação,
não de uso, para converter a pecúnia em esmolas para os miseráveis, aos quais
dava sopa, pão e cópias dos sermões de Vieira. Certa vez, inventando ter ouvido
a teoria de um amigo, o sr. Lauzimier se disse inclinado a acreditar que o
mundo fora criado pelo Diabo e que Deus estava lutando para humanizá-lo. Supus
que causaria o sr. Lauzimier, no mínimo, de, como gostava de dizer, “um
encapsulado” por blasfêmias, mas disse:
-- Não é o que está nas Escrituras,
mas é interessante. Não chega a ser uma hipótese, mas é a favor de Deus.
O sr. Lauzimier e o alumiado (não
sei se por Deus, ou se pelo Diabo) conversávamos quando, meia hora depois,
Mariana e o sr. Rafael regressaram da rua, com ares de beatos surpreendidos em
safadezas. Simulei não lhe dar importância, atendo à conversa sobre o primeiro
ano da Guerra Mundial. Lembro-me que o Padre, olhando-me e ao seu amigo
francês, a este perguntou:
-- Até quando, Émile-Gérard, Deus
consentirá tanto ao Diabo? E, mais, responda-me: algum dia os poderosos do
mundo, sponte sua esquecerão o imundo
bezerro de ouro? Ou teremos, antes, jogá-los no inferno?
E não esperou resposta e saiu à
inglesa, sem despedidas à ninguém. O sr. Lauzimier, que antes falara bastante
com o sr. Ambrósio, afastou-se com o dr. Venâncio e comigo, então, o mísero
alcaguete do sr. Artemísio quis construir obcenas frases de consolação e eu as recusei
(me deixe em paz, porra!) e fui para
a janela principal e convenci-me que, em chança mordaz, o Todo Poderoso me
retirara parte das armas da vingança, usando-as, Ele mesmo, contra o sr.
Giuseppe, também idólatra do Bezerro de Ouro. Havia, porém, ainda, para mim,
oportunidade de despica e notei que o sr. Ambrósio, Mariana e o sr. Rafael
conversavam sob a desconfiada atenção de minha mãe: e foram todos à mesa quando
Anália e Rosenda anunciaram, na sala apropriada, a janta. Sem exagero, quase um
banquete: caruru, bacalhau, cabidela; a regra era a de que se havia visitas,
não interessavam os motivos, farta devia ser a mesa. Concluído o repasto, já de
pança cheia, o médico enchapelou-se para sair e minha mãe e o sr. Lauzimier
foram levá-lo à porta, descendo ao jardim. Os demais retornaram à sala de
visitas.
Eu, de mim, fui à copa e chupei duas
ou três mangas carlotas, às vistas de Rosenda e Anália. E reparei em Rosenda,
adivinhando seu corpo sob vestido e anágua, negra cada vez mais bonita. Meses
antes, passara-lhe a mão nas coxas e não se ressentira, t’esconjuro, diabinho mulherengo!, dissera a sorrir, gaiatando com
Anália, as duas pondo-me fora da cozinha, já
e já para o quintal, garanhão!, e ali, agora, chupando as mangas, eu gostei
de haver rememorado a cena, momento bom, saudável, o jeito de haver rememorado
a cena, momento bom, saudável, o jeito delas não me fizera mossa, e considerei
acertado ter deixado de assediar Rosenda, tinha seu homem, eu não sabia quem
era, mas tinha; devagarinho, quase todas as noites, abria o portão, ia
encontrar-se com o tal homem na rua escura, talvez um macho como o sr.
Artemísio. Ou um mequetrefe qualquer, que fêmea, hoje nem tanto, aceita a
submissão mais aviltante em troca de um contrato de casamento, à pseudo-segurança
sacrificando sua liberdade, até mesmo a liberdade suprema, a de amar. Ou,
senão, à frente do amor põe o prestígio de títulos.
Quando voltei à sala de visitas,
ainda lambendo os beiços, a catar restinho do gosto das mangas, vi minha mãe e
o sr. Lauzimier subirem a escada para o andar de cima e folguei com o naquele
instante imaginado: a bruxa cagada e o sr. Lauzimier trepando diante do sr.
Giuseppe, este incapaz de qualquer movimento com as pernas e muito penosamente
com os braços; incapaz de qualquer palavra ou frase, mas habilitado a ver, a
presenciar, a testemunhar o ato cruel. Bom, assunto deles...
10.
Meses, mais de um ano a correr, o sr.
Giuseppe idiotizou-se. Urinava e dejetava na cadeira de rodas que nunca
conseguiu mover, mas sobretudo o fazia na cama. De tempos em tempos, períodos a
se reproduzirem, porcarias mutiplicadas, era forçoso mudar o colchão, e dezenas
foram queimados: ele nos custava caro. Um bicho enjaulado por correntes
invisíveis e um dia naqueles olhos surpreendi agradecimentos, desse a que se
habituam os esmoleres, e isto porque Tonho (agora, enfim, Tonho) se
transformara numa espécie de satânico samaritano, eis que eu lhe jogava, goela
a dentro, quanta bebida alcoólica encontrasse. Sim, senhores leitores, Deus não
usara, na justa punição, todas as Suas armas: uma, a do golpe final, fora-me
ensejada, e generosamente, até porque me sentia como espécie de salvador;
adormecendo-o com álcool, eu o punha à corner, expulsava-o do campo. Esse
arranjo era coletivamente consentido e estimulado por todos, na coletividade
incluído o sr. Rafael, a quem Mariana tudo contava: ele jantava em casa quase
todos os dias.
Mamãe mitridizara-se, como os demais, à
força de propósito consciente: “os desígnios divinos são infalíveis, Deus
escreve certo por linhas tortas”, dizia Mariana; “Deus chama quando, e do modo
certo, aqueles que Lhe apetecem”, contraponteava o sr. Rafael, e a puta da
mamãe batia a cabeça, aprovativamente, enquanto Rosenda e Anália, era o que
lhes convinha, viviam um faz-de-conta-que-tem-que-ser-assim-mesmo. O dr.
Venâncio?
Impossível que um médico experiente,
embora pisquila em conhecimento teóricos, não constatasse os gritantes sintomas
de uma intoxicação alcoólica diariamente agravada. O sr. Giuseppe era um
inchaço dos pés à cabeça. Certa madrugada senti, contra meu braço direito, a
arranhá-lo, suas unhas sujas. O bico de gás estava aceso (saiba, Abelardo, que Salvador já teve um ótimo serviço de gás encanado,
empreendimento francês que foi à garra não recordo os motivos), não
precisei de acordar de todo para compreender o apelo contra a agonia de uma
insônia que lhe devorava os nervos. Pobre homem... Suava no esforço de
ergue-se, os dedos da mão direita crispados nas bordas do meu colchão de palha
– e eu o atendi. Episódios mais ou menos iguais se foram sucedendo e para obter
eleitos mais rápidos, úteis a todos, ao invés de mel e álcool passei a usar
álcool e menta. Garrafas de menta começaram a aparecer em casa. Todas de
procedência francesa. Quando surgiu, misteriosamente, a primeira garrafa,
lembrei-me que o sr. Lauzimier era quem gostava daquela bebida, saborosa e
traiçoeira. Estaria meu amigo envolvido na trama
Transcorridos uns poucos meses, em manhã
que nunca vou me esquecer, mamãe encontrou o sr. Giuseppe a estrebuchar no
corredor, alcançado com o uso dos braços. Gritando, a querer-se atriz em
frenesi, ela nos alertou e quando, sem pressa, apareci no seu aposento, simulou
uma vertigem, Mariana a ampará-la: o sr. Giuseppe continuava no chão,
respirando com enorme dificuldade, roxas as faces. Rosenda, chegando, olhou o
desgraçado como se fosse um bagulho e perguntou se deveria chamar o dr. Venâncio
e respondi: Chame, não chame, sei é que
estou atrasado para aula. Me ajude a botar este sujeito na cama. Gesto
caridoso. Depois, tomei meu banho, enfatiotei-me e desci. No portão encontrei o
sr. Lauzimier e veio-me à memória o bem trabalhado frasco inicial de menta e
não pude conter a pergunta:
-- É Rosenda ou é Anália quem abre este
portão, de madrugada, para o senhor encontrar-se com minha mãe?
O inopinado e a brutalidade da indagação
não o agastaram. Ele mediu as pausas para responder: Não tenho encontros de madrugada como dona Sophia. E esteja seguro de
que se os tivesse Rosenda jamais se prestaria ao papel de alcoviteira.
Entrou e eu saí, aborrecido comigo mesmo, imerecida a agressão ao Francês, e
caminhei e talvez o ter visto o cuidado com que um comerciante arrumava sua
vitrina fez-me estacar. Cada coisa em seu lugar. Sapatos, meias dentro. Pretos.
Calça listada, suspensórios, camisa, gravata. Só a camisa era branca. Paletó
preto. E preto o chapéu. Bengala preta. O manequim sorria, eram brancas, brilhantes
como o cachecol, as luvas. Não devia ter sido fácil vestir aquele manequim, aos
pés do qual o homem colocava cortes de bons e belos tecidos ingleses. No fundo
havia uma espécie e xaxim com orquídea arroxeada. Perguntei-me: não estaria
cometendo um erro, afastando-me de um ninho apodrecido, mas, em todo o caso, um
ninho? Se houvesse, em verdade, um conluio de mamãe fosse com o sr. Rafael,
fosse com o sr. Lauzimier, fosse com o próprio dr. Venâncio, não me seria
prejudicial o afastamento naquela hora? Não poderiam, por exemplo, forjar um
testamento que me fosse adverso?
E voltei e ordenei a Anália café em meu
gabinete – sim, já era meu, por direito de uso, aquele gabinete – e nele
permaneci, fingindo ler apontamentos, livros, revistas. Lia um dos sermões de
Vieira quando dr. Venâncio, viúvo de ano e pouco de corridos, pôs a mão no meu
ombro e disse Desta seu pai não escapará
e repliquei que o sr. Giuseppe não era meu pai e ele redarguiu:
-- Desde que dona Sophia casou-se em
segunda núpcias...
Veio-me vontade de um “Foda-se, dr.
Venâncio!” e ainda bem que me contive e ele sentou-se junto de mim, silencioso
e a certo passo perguntei: Até quando o
senhor também matou, ou está matando, o sr. Giuseppe? Fazendo-se
desentendido sobre o ponto que eu queria ferir – repito: todos sabiam que eu
estava matando o sr. Giuseppe --, ele disse que os insondáveis mistérios da
mente e do corpo fazem da ciência um brinquedo nas mãos de Deus. E, agitado, eu
concordei e disse: A ciência é uma
peteca, doutor. Peteca é um brinquedo. Quando criança muitas vezes eu vi Deus
jogando peteca com as estrelas. Só que as estrelas não morrem. Será que a
ciência morre de todo? O que um homem deve fazer para não morrer de todo?
-- É uma ambição descabida, Antônio. Nós
somos pó.
Não lhe dei atenção: O sr. Giuseppe morre de todo porque nem
chega a ser uma peteca vagabunda. Nele não há nada de estrela. Um mínimo de luz
nele não há. Nem chega a ser um manequim. Não é nada. Será que só alguns, os
raros, são alguma coisa e que todos os outros não somos nada? A ideia da
morte do sr. Giuseppe me lançara num vazio. Algo era retirado de minhas mãos.
De certo modo, furtavam-me um brinquedo maldito, mas um brinquedo.
Encontrava-me ameaçado de ver minha existência menor na sua importância. E
então eu chorei e chorei doidamente, sem escândalo, que nunca tolerei escândalo
e ele acendeu um cigarro. As mãos trêmulas, estendeu-me o venenoso canudinho de
fumo e papel.
-- Vou ver dona Sophia. Você vai
continuar aqui?
-- Vou. Por favor, deixe outro cigarro
comigo.
Permaneci no gabinete e nele almocei
rodela de lombo com farinha atoucinhada e arroz branco e no seu ir-e-vir Anália
percebeu lágrimas secas no meu rosto. Não entende, pensei. Presumira que não
sou um rapaz feito de fel, dirá isto à Rosenda, à Mariana, ao sr. Lauzimer.
Dissesse, eu não perderia nada, quem sabe talvez ganhasse simpatias tipo “olhem
ali o coitado, outra vez órfão de pai. E é desses que se escondem para chorar,
embora esteja estudando para ser doutor”.
Útil que imaginassem assim: a batalha da
vingança ainda não ganha. Mamãe ainda estava no meu caminho.
INTERRUPÇÃO
– VII
Coisa
e tal, Abelardo, me desculpe ter faltado tantos dias. Eu tive que me virar por
causa de uma bruta de uma gripe de mamãe, a bicha pegou ela de jeito, mas já
está melhor, e tem que, eu não minto, o Trabalho de Narda não é moleza, coisa
aí de 1.200 laudas, em espaço dois, tá percebendo? Espaço 2 e ela é chegada a
acrescentar coisas com sua letrinha, aliás são letras bacanas. Me desculpa o
atraso?
Acho
que você deve desculpar, até porque enquanto você e o Cris se esbaldavam no
Carnaval eu aguentei mamãe com febre até de quarenta e se Narda não fosse o
amor de gente que é, todos os dias lá em casa, não sei o que ia acontecer com
minha velhinha, cuja eu amo paca. Uma novidade sem-sa-ci-o-nal é que deixei o
dr. Azevedo de banda e estou me analisando com Narda, cobrona no assunto. Ante
ontem eu falei, falei e ontem Narda me deu um trecho do que eu disse para sobre
isso falar ainda mais. O que eu disse e foi gravado por Narda, o tal do trecho
que mais chamou atenção dela, foi o seguinte: “Sou muito solta. Preciso de
alguma coisa que eu possa segurar, mas as coisas são muito escorregadias e as
pessoas também. Como fossem à praia passassem nos corpos óleo de bronzear e não
tomassem banho para tirar o óleo. E eu não sei bastante sobre essas coisas,
essas pessoas. Tenho medo de dizer que devem tomar banho, que devem se livrar
do óleo.” Outra coisa que eu disse foi que quando vejo móveis cobertos de pano,
contra o pó, a poeira, a minha vontade é a de tirar os panos. Foi o que me
aconteceu quando pela primeira vez estive aqui e vi os móveis cobertos. Me deu
uma revolta e me deu uma tristeza. Nem as coisas feias devem ser escondidas,
então por que esconder as coisas bonitas?
Me
desculpa pelo atraso, meu?
1.3.1969.
Marluce
De
noite, umas sete horas, barbeado, indumentária de meio-luto (ou, como se dizia,
luto aliviado...) desci para o velório. O corpo fora colocado na sala de
visitas e reparei, um a um, nos participantes do espetáculo: alguns vizinhos, o
sr. Lauzimier, destacadamente, o sr. Rafael, cinco ou seis italianos, um
sujeitinho de óculos representando a viúva do Comendadore, alguns sócios do Clube de Gamão, o genro do
desembargador Eutrópio, o Padre Hermógenes (ele me ensinava latim), o sr.
Ambrósio e Mariana, dois ou três desconhecidos, um deles com interessante
tique: ele metia os ombros até o pescoço e sacudia a cara como chupando limão
bem azedo. De todos recebi pêsames e beijei a mão do Padre Hermógenes – uma
dessas pessoas que vivem hipóteses de verdade pedindo que ele me acompanhasse
ao gabinete. Prometeu e foi sozinho, disposto a esperá-lo. Uma vez lá, i sr.
Lauzimier apareceu e aproveitei o estarmos a sós para pedir-lhe desculpas pelo
incidente no portão. Ele viu a garrafa de menta – aquela, em cristal
trabalhado, que trouxera, anos antes, para uma noitada de gamão – e sugeriu um
terceiro cálice. Ouvi – disse – você convidar o Padre Hermógenes. Como eu e,
aparentemente, como você, ele aprecia esta espirituosa. Eu mesmo, então,
fui à copa buscar o terceiro cálice. Perguntei:
--
Foi do senhor a ideia da menta?
--
Não. Mas, mel ou menta, o efeito seria o mesmo.
--
Mas, por que eu, somente eu, lhe deveria dar álcool, matá-lo com álcool?
--
Porque ele só aceitava de você.
--
Por que?
--
Não sei. Há de ter havido algo entre você e ele. Ele quis morrer por suas mãos,
Antônio. E esqueça isto.
Ele
bebeu com gosto e, em seguida, acendeu o cachimbo. Disse:
--
Não era necessário você me pedir desculpas, Antônio. Compreendi sua exaltação,
continuo a compreendê-la, mas estou um pouco magoado. Não é sempre insuficiente
para uma melhor convivência o que sabemos um do outro? E uns dos outros? Nós nos
ignoramos e fazemos isto porque nós nos tememos. Ou nós nos ignoramos. E esse
temor e essa ignorância de onde vêm? Dizem que se trata de uma herança social
maldita que nos foi transmitida e que transmitiremos. Talvez seja verdade, não
sei. De qualquer sorte, onde, quando e por que se gerou esta terrível força
malsã? No Bezerro de Ouro, você ouviu o Padre Hermógenes falar disso, com
alusão à Guerra na Europa. Será que basta?
Um
parêntese: não se vivia a Guerra. Aludia-se à ela. Ninguém contava os mortos e
algo mudou: contamos 40 milhões nesta que continua sob novas formas. E sempre o
Bezerro de Ouro.
--
Não será este símbolo bíblico, símbolo de ganância primária, somente um
aspecto, talvez o mais importante, mas um
aspecto? O monstro que os homens ainda não aprenderam a identificar na sua
totalidade não terá outras fontes de sustentação? Antes que o ouro fosse
conhecido e divinizado não se entredevoravam as comunidades? Não, Antônio, as
malditas heranças são muito demais para terem uma só origem e assim nossas
guerras contra as guerras devem abarcar todos os horizontes das desgraças
humanas: os preconceitos de cor e de raça, as intolerâncias...
Ele
me incutia dúvidas quando eu necessitava de um grupo de certezas às quais me
ater, certezas simples e não complicações do tipo “guerra contra guerras”; o
sr. Lauzimier estava citando Jean Jaurés e eu
então não sabia, embora não me escapasse o fato de que era, basicamente, um
pacifista a acreditar na Humanidade como um todo mais ou menos homogêneo. Mas,
no fundo, nele havia tinturas de um patriotismo que tentava minimizar.
Outras
dúvidas certamente seriam formuladas se, providencialmente, o Padre Hermógenes
não surgisse, mais interessado na conversa do sr. Lauzimier do que em outra
coisa qualquer que eu lhe propusesse. O sacerdote perguntou:
--
Será que tudo não nasceu no ventre sujo do Bezerro?
--
Então, como explicar a simbologia Abel e Caim? Eles são a inveja pura, ela
sozinha, sem condicionantes materiais...
--
Estariam descondicionados os que a imaginaram?
Não era uma
discussão que me interessasse e escusei-me
(hoje, Abelardo, eu daria um milhão para questionamento desse tipo...) e caminhei à sala, buscando sr. Ambrósio: ele
se tornara ainda mais importante, era o único que entendia dos negócios. De
resto, nele, sim, havia pesar e preocupação. Sufocando de vez os temas de
reflexão instilados pelo sr. Lauzimier e tencionados por um religioso ousado o
bastante para entender a Bíblia como discutível em muitas de suas partes,
embora disso não fizesse praça, e agora frente a frente com o sr. Ambrósio,
elaborei uma certeza e atribui-me um objetivo: “este indivíduo é típico
seguidor do modice et modeste melius est
vitam vivere (melhor é viver vida meã e modesta), chega a ser serviçal,
tanto quanto é uma vaca casamenteira a sua filha, mas há nele algo de útil, há
canina lealdade nele; não vislumbro, nele, qualquer assanho de ambição; foi
leal ao sr. Giuseppe e precisa de me ser leal e eu preciso que seja. Ou iremos
comer o pão que o Diabo amassou, já que não interessa a vela sem o pavio: ele
será a única luz e o único fogo na oficina”. E a ele, com alguma sinceridade,
eu disse:
--
Agradeço sua presença. O senhor é um homem honrado, sem nada de comum aos
adoradores do Bezerro de Ouro.
Quase
chorou, emocionado. Dei-lhe as costas, retornando ao gabinete. A meu pedido, eu
queria acabar aquela discussão sobre temas bíblicos, sobre uma guerra que não
me interessava ainda, o Padre Hermógenes acedeu em ajudar-me numa tradução, o
que interessou, também, ao sr. Lauzimier: “o que eu possuo em nome alheio,
posso possuir em meu nome” para Quod meo
nomine possideo, possum alieno nomine possidere.
--
Curioso o brocado que você escolheu, Antônio.
Sem
insistir na observação, o sr. Lauzimier, talvez enjoado com a possibilidade de
novos brocados jurídicos, afastou-se e levou consigo o Padre Hermógenes. Ali,
fechando a porta, vi que o terceiro cálice, o destinado ao sacerdote, continha
gotas da bebida verde. Bebi dois ou três cálices seguidos, pensando nas
perguntas e nas observações que ouvira. A quem, quando, onde e em que
circunstância eu transmitiria minha posses, minhas arcas de ódio, minha
insegurança, os meus medos? Qual seria, afinal, o teor da vida para alguém que
não encontrava respostas nas pessoas, alguém que ainda não descobrira os
grandes amigos e extraordinárias companheiras que viviam nos livros?
Entendia
medíocres vidas tão rudemente atordoadas como as mamães, Mariana, sr. Rafael,
Anália, sr. Ambrósio: Rosenda, a todos se avantajando em alegrias para mim
inexplicável, era uma exceção; e o era, minha intuição dizia-me, por ser
mulher, nela brotando, a cada dia, uma santidade natural. Viver a serviço de
reles empáfia e de risíveis presunções untuosas como as de muitos professores
que eu ia conhecendo no primeiro ano da Faculdade de Direito? Viver para
perguntar à Dúvida sobre suas origens, como o sr. Lauzimier, se aquela dúvida
sempre paria outras?
--
Tonho, abra a porta! – mamãe pediu.
--
Não seja mal-educado. Todos perguntam por você.
--
Vá embora. Me deixe em paz.
E
gritei: Que se fodam, mãe! E bebi,
bebi muito, querendo um sono que não demorou a chegar, um sono agitado que me
fez sentar no divã em várias ocasiões: apesar de apelado nem meu pai apareceu
em sonho que me tranquilizasse. Acordei, espancado, minutos antes do féretro
sair e não teria sido desperto na hipótese de Rosenda e Anália desistirem dos
muitos avisos que me deram sobre a destinação do cadáver.
O
orador oficial do Clube de Gamão fez discurso no cemitério.
ESCLARECIMENTO – VIII
Querida,
não é verdade que eu e Cris nós tenhamos esbaldados no Carnaval, como você
afirma. Devo dizer que Cris se excedeu nas bebidas e me vi envolvido em
situações desagradáveis, algumas perigosas à minha integridade física.
Situações deploráveis porque Cris, surpreendentemente é capaz de ser violento,
agressivo, provocador. Acredito que ele está enciumado pelo fato de você ter
jantado a sós, duas vezes (consecutivamente, segundo ele disse) com a dra.
Narda, sem que haja sido convidado. Ele se sentiu out.
O
Ivo me disse que você experimentou o anel. E, mais, ele disse que você sorriu.
Pois, agora, eu beijo o anel, e, nele, beijo também o seu sorriso
assustadoramente provocante. Querida, você não deve falar nada a Cris sobre o
que acontece no Carnaval. Quero que o assunto morra. Tê-la conhecido e a Cris é
acontecimento que festejo todos os dias.
Venha
hoje, à noite, imploro.
Abelardo
11.
--
Fale, Tonho, diga alguma coisa – ela pediu na primeira noite de sua efetiva
viuvez e repliquei: Tônio, mãe, Tônio.
Tônio Petrucci, fu Vicenzo! Vou falar uma coisa importantíssima, vou dizer e
digo que o retrato de papai, aquele da Itália, ele sozinho, está comigo. Tirei
do álbum e ele é só meu. Os outros, os com a senhora, não me interessam.
--
Você me odeia?
Tive
medo de responder a verdade. Eu tive medo que ela se casasse com o sr.
Lauzimier – tê-la ou não tê-la não seria sua dúvida principal? --, ou com o sr.
Rafael, ou com o sr. Ambrósio, com masseiro, com o moleque-dos-temperos, com o
assanhado condutor-de-bonde, com o coveiro-chefe do cemitério, com quem quer
que fosse, e me deserdasse, e disse:
--
Não, não odeio a senhora, mas não a amo. É meu direito.
--
Você não acredita que me sacrifiquei por sua causa?
--
Não.
Ela
estremeceu e sua beleza invulgar ganhou esporas, avivou-se: se eu jurar pela Santa Cruz que só tive
prazer com seu pai antes de você nascer, você acredita no juramento? Repeti
o não e levantou-se e disse que
tínhamos coisas comuns a preservar, principalmente a fábrica, a casa, o terreno
na Pituba, o nosso modo de vida. E eu concordei e aduzi: E as aparências, mãe as aparências. Eu não gosto de escândalos.
Bebeu
trinta gotas de “valeriana” em meio copo d’água e antes de subir para o seu
quarto, olhando-me fixamente, pediu: não
durma tarde, por favor. E deu-me as costas, toda de preto, julgando que o
passado fosse fácil de ser esquecido. Não me demorei no gabinete. Fazia calor,
era outubro, e de cuecas fiquei na janela do meu quarto, olhando a rua deserta.
QUARTA PARTE
1.
Prevalecendo meu interesse quanto à
narrativa em si, despido, assim, de preocupações formais, em termos literários
esta será uma parte prejudicada. Explico: ando fatigado e por isso tentarei
abreviar, em cenas resumidas, algumas passagens marcantes que precederam e
talvez tenham também condicionado – isto os senhores leitores julgarão – o meu
bem sucedido ingresso na central putárica do Professor (...) Passagens, ainda,
reletivas à morte de minha mãe, à eleição para a Câmara Federal, etc. Deste
modo, com certeza, chegamos mais rapidamente a episódio fundamentais. Vejamos,
pois, as mencionadas passagens:
Cena
A
O
mundo de minha mãe continuou a esboroar-se quando Mariana e o sr. Rafael,
acasalados, desapareceram de casa, deram às vilas Diogo. Ao saber da fuga,
mamãe imaginou que tudo havia sido tramado pelo sr. Ambrósio. O aviso dado por
Anália e uma vez sentada na sala de jantar e de visitas do pobre homem, ele
aturdido com o inesperado daquele tudo tão gordo, mamãe não trepidou em lançar
a pergunta:
--
Onde está Mariana? É verdade que ela fugiu com o valdevinos do sr. Rafael?
Quero saber o que haja sobre esta descaração e não admito mentiras!
O
horror, se tanto posso dizer, dilatou as veias, já de si salientes, do pescoço
e do rosto daquele indivíduo vilipendiado no recesso do seu lar. Durante quase
um minuto, não se moveu e ao olhar para as três filhas restantes pediu-lhe que
informassem alguma coisa, ele não sabia da fuga, ele não sabia de nada. A mais
magra das raparigas socorreu o idoso pai:
--
Mariana gosta do sr. Rafael, mas, senhora dona Sophia, este é um assunto de
nossa família.
--
Mariana estava em minha casa, a descaração se passou em minha casa e quero
saber de tudo.
A
rapariga me olhou cheia de apelos e eu me levantei e disse à mamãe. Vou embora; a senhora, se quiser, que me
acompanhe e falei Boa Noite a todos,
com licença, e fui saindo, sem pressa, convicto de que ela me seguiria. Mamãe
tinha medo do breu e a noite já se fizera: seguiu-me como uma cadela
resmungona. Receberia, naquela noite, outra paulada. “Deus escreve certo por
linhas tortas”, como se diz.
Cena B
Em casa, quando
reclamou de Anália que o janta estava atrasado, ouviu uma resposta dura:
--
Estou sozinha, dona Sophia, e só tenho dois pés e duas mãos.
--
E em que diacho(1) de buraco se meteu Rosenda?
--
Ela fez a trouxa, se despediu e foi embora.
--
Como?
--
Foi embora, dona Sophia, foi embora.
--
Por que a negrinha ingrata fez isto? Por que, Anália?
--
Não sei, nunca pergunto. Mariana pediu que avisasse a senhora, mas Rosenda não
pediu nada. Nem sequer a paga do mês. A senhora vai querer sopa?
--
Eu não quero mais jantar – disse, e, trêmula as mãos, pálida, subiu para o seu
quarto. Bem mais do que uns quinze minutos decorridos, Anália levou-me ao
gabinete um prato de quiabada, de sertão à carninha, e copo de refresco, umbu.
Perguntei:
--
Por que também Rosenda foi embora?
--
Está grávida do sr. Lauzimier, um homem muito bom, não queria mais nada às
escondidas. Vai casar com ela, ponho minha mão no fogo que vai. Quer saber mais
de Mariana?
--
Diga.
--
Foi pra Itaparica, os pais do professor Rafael moram lá.
--
Você bota a mão no fogo pelo sr. Rafael?
Ela
riu, dizendo que não, sem usar palavras e também sem a elas recorrer deixou
claro que a mim prestaria todas as informações. E, de repente,
surpreendendo-me, a pergunta: Se dona Sophia
der uma das raivas dela, você me arranja outro emprego, aqui pertinho?
--
Agora, Anália, -- tranquilizei-a – eu é quem mando aqui. E cuido de você agora
e enquanto você viver.
Depois
de alisar meus cabelos, o que sempre desejou e nunca, antes, se atrevera, levou
copo e prato, além da toalhinha rendada, colher, garfo e faca. Que todos
fodam bem e botem meninos no mundo, eu disse, com alguma alegria e
sentia gostosa saudade de Rosenda. E me entreguei a pensar nas aulas, nos
colegas de Faculdade, especialmente Arimar, franzino como eu, mais ou menos de
minha altura. Ele me havia dito que eu poderia dispor dos seus livros, latim,
inglês, francês, grego. Grego? Sim, respondera, grego clássico, por que não? Por
que eu temia o mais belo dos idiomas?
Ele
estudava, Arimar, com o sacrifício de prazeres, inclusive mulheres, com o
sacrifício de noites e dias de folga, a descobrir, nos livros que amava mais do
que eu, sábios e poetas, deuses e homens a disputar cada fração de segundo da
vida, histórias reais e mitos entrelaçados. Cadmo e Ésquilo, Perseu e
Calístrato, Heracles e Cleon.
Falo-vos,
senhores, de Péricles Arimar Caruso (E
você deve escrever a biografia dele, Abelardo.), meu único amigo na
juventude. Dele falarei, adiante, com mais vagar.
Diacho. Também assim, há décadas, se designava
o Diabo. (2) Trata-se de “A Divina Comédia” Um dos livros de cabeceira do
senador Petrucci. Aliás, um dos seus cadernos de apontamentos se intitula-se “O
Melhor de Dante”.
Nenhum dos livros que tinha estava
virgem dos seus dedos. Pouco antes de morrer, apesar de pertencer a família
apenas remediada, ofereceu-se luxuosa edição da obra máxima(2), com ilustrações
de Doré. Mas, senhores, cabe-me
conter a emoção.
Com
bons sentimentos, já anotava Gide,
só se consegue má literatura, embora eu advirta que somente Sade (que eu
conheça) terá feito, se fez, literatura usando somente maus sentimentos.
Cena C
É preciso,
assim, voltar à mamãe...
Ouvi-lhe
a voz do alto da escada: Antônio, por
favor, chame Anália. Ela queria, no quarto, xícara de chá e algumas
torradas. Eram umas 10 horas da noite e eu mesmo, apenas amornando as torradas
sobradas de manhã, preparei o solicitado, assim poupando o sono da velha e fiel
empregada. Mamãe agradeceu o préstimo e seus olhos ardiam de perturbadora
curiosidade: quais as razões de Mariana? quais os motivos de Rosenda? onde elas
se encontravam? E eu nada sugeri que a encorajasse a fazer-me perguntas. Melhor
que o ódio provocado pela fuga das suas mais a enfurecesse, melhor que a
solidão continuasse a secar cada pedaço do seu corpo, cada átimo de sua alma,
uma e outro apequenados pelo desamor.
(Foi naquela noite, Abelardo, que Mariana
desapareceu de minha vida, ganhando lugar em minhas memórias. Se aquele
professor falso, de maus modos, tem alguns créditos comigo – bem pensado, ele
ativou minhas tendências à desconfiar dos outros --, à Mariana, sua rude
franqueza, eu devo muitíssimo. Devo-lhe, sobretudo, não ter cedido aos meus
rogos, e, saiba você, saibamos eminentíssimos leitores, que tais rogos não
foram apenas os descritos. Esqueci, por exemplo, o que chamo de “A noite da
Grande Bronha”, ela no quarto, trancada por dentro, eu a assediando por fora,
ah!, eu na operação manual, ela espiando pelo buraco da fechadura, quem sabe se
masturbando também. Enfim, coisas da vida. Tenha eu forças, escreverei “As
Mulheres de Minha Vida”. Ou talvez, como está em moda, “As mulheres e Eu”, algo
assim, putarias. Se Mariana me tivesse aberto as pernas, fogosos como éramos,
seriam muitos os filhos, o que me desviaria de uma carreira política, a qual,
se não foi das mais brilhantes, apenas os inimigos gratuitos poderão
considerá-la medíocre.
No entanto, e Deus Nosso Senhor é
privilegiada testemunha, Ele que encontrou o mundo construído pelo Diabo e luta
por humanizá-lo, que falta me faz um filho! O Machado de Assis bendisse não sei
se dele ou de Carolina a infertilidade, por não desejar filhos. Eu maldigo a
minha!
Bem não sei como descrever, como
narrar, o que esta noite me acontece: olho em torno deste quarto, tão povoado
de objetos, obras d’arte, livros, meus queridos livros, olho em torno e
inexiste um corpo humano, sequer um braço que eu possa tocar e sentir o calor.
Dedos, sem sequer há dedos!
Palavras de fogo, estas, um gélido
frio enruga minh’alma tão maltratada, tão dorida. Em horas assim a memória de
Lisa, ela, Lisa, meu grande amor, me esquece. Se não tivesse morrido, se a
tuberculose não a houvesse levado, eu creio, sinceramente, que não me teria
prostituído de todo, mas só entre os dezenove e os vinte e três anos, porque
até os dezenove eu fui um emissário da Vingança, justa e necessária, e, depois
dos vinte e um, contaminado por tudo quanto a central putárica do Professor
(...) produziu, aceitei que me impusessem as vestes de um espantalho de palhas
apodrecidas, suja indumentária que atirei à purificação pelo fogo ao reagi, a
meu modo, contra a torpeza que foi o Golpe de Estado de 1037: sei que não fui
heroico nos Grandes Dias do Medo. Covarde também não fui e isto me redime. Julgou-me
meu povo com seus votos, a história julgar-me-á quando for oportuno. Tenho
certeza, não sofrerei o castigo do silêncio.)
Cena D
Sem
o auditório que Mariana e o sr. Rafael lhe proporcionavam, infeliz ao ver a
felicidade de Rosenda de braços dados com o sr. Lauzimier, os dois em footing na rua, Anália a obedecê-la
friamente, o universo de minha mãe passou a ser o andar superior, e seu sonho
era um quarto no Asilo de Velhos da Ordem Terceira do Carmo, uma instituição
benemérita: lá estava, tranquila e em paz, segundo as informações trazidas por
Anália, a viúva do comendadore. Em
resumo, um lugar de morrer.
Desleixou-se
da casa. As únicas exceções eram os sítios que mais a miúdo eu utilizava.
Imbuíra-se da obrigação de aprontar-me as camisas e as peças de dentro,
entregando-as dia após dia, sempre a repisar minha dupla condição: estudante da
Faculdade de Direito e, principalmente, a de dono de uma fábrica. Fábrica!
Fábrica! – o vocábulo grandiloquente enchia-lhe a boca, eis que não se
apercebera de alterações essenciais: desde a morte do sr. Giuseppe, o comércio
interno do País em ritmo ascendente (para isso contribuía a escassez de produtos
antes da Guerra facilmente importados), aumentava o número de lojas que vendiam
sapatos e assemelhados produzidos em São Paulo e mesmo no Rio Grande do Sul, a
preços concorrentes (melhor a qualidade), senão inferiores, aos dos produtos
localmente manufaturados. Vivia-se a involução industrial baiana. É a época, eu
creio, que se iniciava a concentração industrial no Centro-Sul, daninha aos
interesses nacionais, obra dos comunistas interessados em criar o que chamam de
“exército operários”. É isso que os imbecis dos paulistas não se dão conta:
aferrados ao “venha-a-nós” eles tecem a foice e o martelo na bandeira da
Internacional. Por mim, que se fodam! Tomara que o comunismo venha e sangre
esses putos que não sabem mais dizer São e dizem San. San Paulo uma porra!
Cena E
Quando a chamada
“Gripe Espanhola” assolou a cidade, matando e matando(3), adicionei pânico aos
exasperantes cuidados de minha mãe e durante umas cinco semanas não saí de
casa, nem mesmo para avisar o sr. Lauzimier ou o Padre Hermógenes. Atendia o
sr. Ambrósio e quando a colega da Faculdade só abria a porta para o
inesquecível Arimar e o fazia alegremente, obrigando-o a, para início de tudo,
beber colheradas de canja bem quente. Presumia-se que o caldo de galinha matava
os bichinhos da moléstia pavorosa. Depois, sempre jovial, Arimar punha no piano
partituras de Beethoven, de Bach, de Brahms, interpretava-as romanticamente, e
simulava despreocupação:
--
Eis-nos no reino da Beleza, Tônio, esqueça os outros, esqueça o resto. Deus um
dia, entediado de tantos séculos de punição contra seus filhos, matará as
guerras, as epidemias, os desapreços, os preconceitos, a ignorância, a piedade,
a fome, tudo que não presta. E preservará, soberana, a beleza.
--
A troco de que?
--
Ora, Tônio, porque Ela é Ele!
Foi
na tarde que Arimar falou assim, desacreditando da teoria segundo a qual o
Diabo fez o mundo para Deus, lutando diuturnamente, conseguir humanizá-lo, que
o levei até meu quarto. E ali vimos, do alto, o horroroso trânsito dos mortos,
alguns conduzidos em coches de luxo, outros, os muitos, metidos em caixões de
madeira crua, esbranquiçadas. Entrementes, no quintal e em toda parte baixa da
casa, mamãe espalhava cal-virgem, comprando-a de vendedores que puxam burros
com panacuns escuros. Na rua, lembro-me, só o francês subestimava o valor da
cal: a melhor defesa eram os banhos de álcool, bebidas quentes e, de modo
especial, as canjas de galinha chamadas de “caldo”. Quanto mais quente melhor.
Em minha casa, como consequência da calagem desordenada, endoidecida, jaziam
mortas, no jardim, todas as plantas. No quintal, mortos os pés de romãs,
hígidos, unicamente, as duas mangueiras, o sapotizeiro branco: estes
continuavam a dar seus frutos. Eles apodreciam no chão. Arimar e eu, nós os temíamos,
embora os víssemos tentadores. E mamãe influía para que mais e mais os
temêssemos e não pensava em Arimar. Queria-me vivo e, por meu intermédio,
queria-se no Asilo, na esperança de um quarto onde pudesse se agasalhar longe
do algoz que a ferroava, longe de tudo e usualmente e ela mais próximo, e, em
certa medida, longe dela mesma enquanto ligada a um passado não muito distante.
Queria fugir-se. Sobretudo, penso, o que mais a feria era o grande espelho do
seu quarto, eis que a imagem agora refletida era a de uma mulher de uns
quarenta e cinco anos, pouco menos talvez, a acorcundar-se, os seios sumidos –
e tinham sido tão excitantes! --, pronunciado encarquilhamento das pernas. Os
dentes, antes tão certinhos, de um branco alegremente inigualável, pocavam em
série. E também os sinais de precoce degenerescência que lhe vincavam o rosto
atestavam que de igual modo por dentro se emegerava.
2.
A
necessidade de pô-la no Asilo da Ordem Terceira, de minha parte
visando a
(3).
Gripe Espanhola. Segundo me dizem, aconteceu no fim da Primeira Guerra Mundial,
1914 – 1918. Teria sido levada dos EUA para a França. “Espanhola” porque uma
das suas vítimas foi um Rei ou um Príncipe de Espanha.
que
não mais me apoquentasse, deu-me têmpera para formular a alguém de prestígio o
meu pedido de emprego no serviço público: a oficina indo à breca, não me
restava outro caminho. Fiz o pedido a um catedrático, o Professor (...)
indivíduo descuidado em camuflar sua presunção, que eu sabia de sólida
influência no partido situacionista. Sim, leitores, o Professor (...)!(4)
Antes, evidente, procurei ganhar-lhe a simpatia, pesquisando suas preferências,
estudando os autores que mais admirava, notadamente, em literatura, o Anatole
France e, para o curso que ministrava, Bastiat e Le Play. Exigiu-me meses de
exaustiva preparação essa manobra titulável “simpatia/identificação cultural”,
nada fácil eis que o Professor (...) vivia mais nas antecâmaras do Palácio do
que na Faculdade.
Em geral ríspido, notei-o de humor
favorável no decurso de enxundiosa prelação. Era o dia, era a chance e enderecei-lhe pergunta sobre
possíveis desdobramentos teóricos e práticos de teses defendidas por Bastiat e
Le Play naquele momento, tão dramático, em que, como se dizia, “a Humanidade
pensava” as gravíssimas feridas da I Grande Guerra Mundial. A Humanidade, é
claro, ela mesma, não pensava porra nenhuma, cada zebedeu procurava o seu e a
maioria dos zebedeus não sabia procurar picas, mas isto não vem ao caso: é
assunto para os chamados “cientistas sociais”, cujos eu considero uns chatos,
encangadores de grilos, cujos, devo dizer, hodiernamente estão multiplicados
por 200 ou 300 mil, parindo calhamaços e enganando os bestas. Queime-se noventa
e nove por cento dessas porcarias e não se terá perdido senão porcarias.
Algumas refinadas, outras grosseiras.
Mas, como eu contava, fiz a pergunta
ao Professor (...). Ele pegou a deixa e
discursou e, ao término, fingi que ia levantar-me para aplaudi-lo e fingi de
novo que me sentava por falta de apoio dos colegas e ele olhou severamente para
toda a classe e Arimar, encerrada a aula, me disse:
-- Você fez papelão, Tônio. Foi
deplorável, palavra de honra.
-- Me emocionei. Entenda: ele me
livrou de dúvidas. Você me conhece e você sabe que tenho emoção à flor da pele.
Se nasci assim, emotivo, que posso fazer, Arimar? Matar-me?
-- Uma coisa tão tola...
-- Para você, que tem conhecimentos.
Não foi difícil levar meu amigo na
coversa e dentro em pouco concordávamos em que Sully Proudhomme foi uma besta
quadrada, quem desconhece Allan Poe no original não sabe da missa a metade,
etc. Ao deixá-lo perto do Campo de Pólvora, ao vê-lo a caminhar para a Fonte
Nova, a mim me disse: “a honra se afasta, e permanece e se afirma o que é
dúbio, interesseiro, falso, egoísta”. Reconheci e reconheço: o Anjo Vingador,
envolvido pela trama da própria vingança, putificava-se e o ter consciência
desse processo, certo
que ainda em
seus primórdios, não me levou
a um exame
(4).
Por razões óbvias, evitamos o nome do Professor e de seus familiares.
Eliminamos , também, a descrição de sua residência em aprazível bairro de
Salvador. Adotei uma política de nomes próprios que impede identificações ou
insinuações malévolas.
autocrítico.
Nem me quero, agora, lamuriento, a incidir nas idiotices de tipo mea culpa, mea máxima culpa. O que fiz,
fiz e, no meu caso, não há o abismo entre promessas bonitas e a tragédia da
prática. Empurraram-me, e fui forçado a aceitar, para um caminho previamente
traçado, descobri os percalços morais desse caminho, ou pedaços de tais
percalços, e resolvi segui-lo. Mediante eficientíssimo “Ô, abre alas? Que eu
quero passar”, encurtou-me o Professor (...).
Nas aulas, ele me olhava com rabo do
olho, a insinuar novas perguntas, e pedi-las, e eu “na minha”, como se diz na
gíria de hoje. Com isso dava-lhe a impressão de que gostaria de atendê-lo, mas
temia ser chacoalhado pelos colegas, muitos dos quais influenciados,
anarquista. Mais tarde, haja tempo, voltarei a falar sobre esse homem, de
riquíssima biblioteca. Agora, prendo-me
ao Professor (...). Em encontro que fiz por parecer casual abordei-o justo ele
ia saindo da Livraria Catilina, e pedi que, logo se oferecesse oportunidade,
nos explicasse, em aula, as vantagens e desvantagens do Tratado de Versalhes,
saudado, na época, como o começo do fim do militarismo alemão. Esboçando um
sorriso enigmático, ele me convidou:
-- Passe em minha casa, esta noite.
Conversaremos sobre Versalhes e de imediato saiba que gostei de sua
interpelação em a semana retrasada. Comedida e oportuna. Ofereço-lhe um
chocolate. Não antes das sete e nem depois das nove horas.
Tentei dizer que adorava chocolate,
desde a infância, não me deixou falar: eu sabia francês o suficiente para
traduzir Villon? Ótimo, meu filho.
Balzac? não me fale nele, é um
selvagem. Proust é que é. E o Lautreamont, ham? Horror aos portugueses, mas
admita o Fialho e do Eça só um pouco, e bem pouco, molho demais dá pirose. Não
dizia azia, dizia pirose. Um falastrão, já se vê. Antero de Quental era um
carbonário, pois não. Camões? Ora –
ele me disse – o Luiz é português porque
a mãe, coitada, não sabia que iria parir um gênio. Chamava, vejam só, Luiz é um ibérico, meu filho e quando digo
ibérico digo europeu digo universal. Vá lá em casa no horário indicado.
Fui e ele explicou que a mulher,
dona Carmen, e as duas filhas passavam dias em Itapagipe, em férias. Elas se divertem. E como é mesmo seu primeiro
nome, meu filho?
-- Antônio, mestre. Tônio de
apelido.
-- Tônio, Tônio... bonito.
-- E sobre Versalhes, mestre? É um
tratado que garantirá...
-- Esqueça Versalhes, uma droga. É
uma camisa de força para os alemães, mas desde quando alemão aceita camisa de
força?
É uma bobagem do Wilson, esse
paspalhão. Aliás, os americanos são uns paspalhões, uns anarquistas, uns
carbonários: vão virar comunistas, pelo que tenho lido. Vão se afundar no
inferno. Imitam os russos, bolem com fogo. Mas, eles lá, nós aqui.
Esqueçamo-los. Conte-me sua vida, o que fez, o que faz, o que aspira. São belos
esses seus cabelos negros, aloirados nas bordas. Fale e fique à vontade,
estamos sozinhos. E tire este paletó e afrouxe esta gravata. Ponha-se todo à
vontade. Sim. Assim, assim, é como gosto. Dizia Parret que uma certa nudez abre
o espírito. E agora, vamos, fale.
Sem desfitá-lo um segundo, decidi
jogar com audácia e falei e falei e exagerei nas cores. Falei sobre a situação
em que me encontrava, querendo a formatura e ainda sem emprego em perspectiva,
a oficina a cair aos pedaços, a casa necessitando de cuidados urgentes, ah! não é fácil ser pobre tendo antes
experimentado alguma riqueza, problemas tantos que iria vender o piano de
minha mãe, e é nele, mestre, somente
nele, que ela rememora seus felizes anos da Pituba.
-- Pituba?
-- Pituba. Nasci lá.
-- Mas, meu filho, aquilo é o fim do mundo. Ali só existem
uns dez eleitores, se tantos. São Salvador é uma em forma de U. A penha e a
Ribeira, estendendo-se pelo Porto dos Tainheiros fazem a principal extremidade:
muitos milhares de eleitores. Rio Vermelho e, já escasseando, Amaralina, formam
a outra extremidade do U. Um eleitorado rarefeito. Lamento que você tenha
nascido na Pituba, meu filho. Quem foi ser pai, o que fazia?
-- Vincenzo Petrucci, artesão do
couro. Um artista. Quis-se industrial, chegou a importar máquinas inglesas mas
morreu no esforço. Felizmente meu padrasto...
-- Esqueça.
E insisti no meu rosário de
desgraças e mal insinuei que ou conseguiria uma colocação conveniente no
Serviço Público ou iria para as ruínas da casa pitubana, abandonando a
Faculdade, abandonando tudo, ele interveio:
-- Não engulo isso de um homem,
mesmo sendo seu pai, trabalhar no Taboão e morar na Pituba.
-- Juro, mestre.
-- Meu filho, você não sabe mentir.
Desde a manhã de hoje, na livraria, percebi que você terminaria por me pedir um
emprego. Você o terá, um dia desses, tranquilize-se. O que? quando? quanto você
ganhará? Não sei ainda, mas você terá a colocação e ela será compatível com seu
nível de conhecimentos. Que tal, agora, o chocolate?
Ele mesmo pôs a mesa – estou sozinho, repitia – e não esqueceu
de vestir um pijama de seda, alegando calor. E de repente, disse:
-- Em troca do prometido, Tônio,
quero sua imediata adesão ao nosso partido, adesão de corpo e alma. Isto e eu
lhe arrumarei a vida, Tônio. Agora, um pedido meu, pessoal: concentre-se na
leitura dos romances de Anatole. Umas semanas mais e me provoque, em classe,
para que eu possa falar sobre ele que é a maior figura literária deste século.
-- Concordo com o senhor.
-- Ouça um segredo e de logo aprenda
que um segredo é um segredo, nada pode transpirar, com ninguém deve ser
partilhado. É que, Tônio, se o Anatole me pedisse o de detrás, eu consentiria a
ele, se é que você me entende...
-- Entendo, mestre.
-- Tanta é minha admiração por ele.
Não sei negar nada a quem tenha talento, desenvoltura...
-- Entendo, mestre.
-- Justiça?
-- Justifico.
Ele então...
ESCLARECIMENTO
– IX
Querida, nada de Cris hoje à noite.
Pelo amor de Deus, vamos esquecer que ele existe.
Não se perfume para hoje. Quero
fazê-lo pessoalmente, se você permitir. Seu corpo jovem e lindo, querida, exige
discretos odores e combiná-los, sem que se repilam mas se harmonizem é ciência
e é uma arte. Nelas me tenho especializado, há décadas, e o mais fascinante é
que tudo sempre se renova. Um renovar que tem origem no fato de que o nosso
próprio perfume, o do nosso corpo, jamais se repete. Venha antes das vinte
horas e saiba que nem o Ivo estará aqui: orientei-o para encontrar o Cris,
pagar-lhe umas bebidas, prendê-lo para que não nos interrompa. Espero-a com
ansiedade. Abelardo.
Ela estava acordada quando eu
cheguei e fui para o gabinete e disse “não” quando indagou se eu queria jantar.
O chocolate do Professor, aqueles biscoitos açucarados, o acontecido, tudo me
embrulha o estômago e apelei para a garrafa de conhaque que o sr. Lauzimier me
oferecera.
Não desconheço minhas dívidas para
com o Professor (...) mas o tê-lo descoberto como um veado seboso causou-me
repugnância. Mil vezes já disse que admito as lésbicas, eis que, coitadas, as
mulheres, em matéria de sexo, sofrem o que o Diabo determinou e nisso Deus ainda não venceu.
Veados, porém, não! Certamente esta minha idiossincrasia contra os veados tem
origem a partir daquele dia em que mamãe me surpreendeu com o odiente Padre
Matta, na circunstância que já descrevi. Entretanto, a noite não foi de toda
má. Para a felicidade do meu futuro, um delicioso romance de Anatole France
prendeu-me atenção. Refiro-me ao tão pouco conhecido “O Sr. Bergeret em Paris”.
Li-o de uma sentada e refleti muito sobre o trecho seguinte:
“Mas, uma cidade inteira, uma Nação
inteira se resume em algumas pessoas que pensam com mais força e justeza do que
os outros. O resto não importa (...) Os espíritos raros é que são
suficientemente livres para desvendar os terrores vulgares e descobrir por isso
mesmo a verdade velada”.
Eu fui um desses espíritos raros. E,
ao legar-lhe o que agora escrevo, tenho convicção de continuar sendo, apesar da
idade e do cansaço físico que ela me impõe.
Eu não sabia de nada.
INTERRUPÇÃO
– VIII
Você é simplesmente bárbaro,
querido! Depois desses dias maravilhosos, divinos, só posso mesma gritar pro
mundo todo que você é bárbaro, você é o quentíssimo da paróquia, vá saber
contentar uma mulher assim no inferno. Comparado com você, querido, Cris é
galinho. E não digo isto para jogar confete, digo porque você realmente sabe
contentar, é disso aí. E quero voltar a Brasília e quero que tudo seja
repetido, tudinho que os seus requintes, acho que nem na Índia tem nada igual.
Vou ao “Birita”, hoje de noite, só prá contar pru Cris uns babados e dizer que
nossa viagem à Brasília foi coisa do serviço secreto que nós estamos fazendo,
estas memórias, deste que foi um dos homens para tristes que já conheci. Me
confirme se o Cris aparecer perguntando, me confirme dizendo que a gente partiu
às pressas, um chamado de tal dona Lourdes, coisa urgentíssima, e você ficou no
sexto andar e eu fiquei no décimo primeiro.
Diga também que só fui à buate do
Hotel Nacional uma vez e que assim mesmo tive enxaqueca, ele sabe que sofro de
enxaqueca. E se perguntar porque não chamamos ele, você explique que eu disse
que ele tem medo de avião, e tem mesmo. Beijão, querido, beijão. Salvador, 13
de março de 1969. Marluce. Eu vou dar
à Narda a mesma desculpa. Eu me sinto mal quando minto para ela, mas dou um
jeito. A mesma.
Eu não sabia de nada quando, por
volta das nove horas da manhã de um dia benfazejo, cheguei à Faculdade e
Arimar, quase a correr, aproximou-se de mim dizendo saiu a sua nomeação! mostrando-me exemplar do “Diário Oficial”. Lá
estava o decreto tão esperado. Ser-me-ia entregue, segundo o estatuído pelo
Governador, e para regência plena, a cadeira de “Noções de Moral e Cívica”, da
Escola Normal.
Disse que, em verdade, havia pedido
um emprego ao Professor (...) mas não sabia... e Arimar me interrompeu e me
informou que os maledicentes estavam a assoalhar que eu só havia conquistado a
nomeação porque me agachara diante dos poderosos, tornando-me um pulha.
Consegui, no rosto, traços definidores de um homem injustiçado e disse que não
houvesse a obrigação de velar por minha adorada mãe, ampará-la, faria tudo para
sumir da Bahia, do Brasil, e findar meus dias em Andorra, uma merdinha de cidade, Arimar, com um mérito, porém: eu estaria a
salvo desses pulgas incompetentes, invejosos, farolados pelo despeito, apenas
capazes de fiar corrosivas perfídias (eu sempre fui bom em discursos,
Abelardo), tentando que nelas nós, os de
espíritos raros, Arimar, nós nos enredemos. Não quero vê-los, pelo menos hoje.
Diga por aí que eu estou muito gripado. Gripadíssimo.
Arimar exibiu-me, então, uma
expressão fisionômica que, embora amigável, tendia para o espanto: não mentir
era algo inerente ao seu caráter e dizer-me, às escâncaras, de sua
impossibilidade em atender ao meu pedido significava, igualmente, um golpe
contra amizade que prosperava. Ele não me elegeu por acaso e sim porque eram
muitas nossas afinidades. Enquanto os outros colegas consideravam-no um tipo
esmaltado por vaidades, eu não lhe tinha inveja e sim o estimulava. Defendia-o
se, por exemplo, numa pensão de mulheres, sacrificava trepadas com qualquer das
madalenas para ouvir histórias tristes, umas reais, outras imaginadas,
emocionando-se ao lado do espanhol anarquista, Pablo Alejandro, que tinha um
filho do mesmo nome, menino travesso que gostava de brincar com uma espécie de
florete, ameaçando nos picar. Arimar recusou-se a mentir e propôs:
-- Sairemos juntos, Tônio, andando
pela cidade. Conversaremos. Você concorda?
-- Não.
-- Pablo recebeu livros novos...
-- Não. Vá às aulas. Diga a verdade
aos maldosos. Diga-lhe que os boatos tanto me feriram, tanto me irritaram que
resolvi buscar o amparo da solidão. Os que hoje me vituperam, Arimar, estarão
amanhã agarrados às minhas calças, curvados diante de mim. (Pau, casca, Abelardo e você mesmo
testemunhou o Theodoro a me beijar os pés, querendo ser desembargador por
méritos, cujos, aliás, ele não os tem) E não se exceda ao defender-me: eles
também têm inveja de você. É compreensível: já os chineses ensinam que os sapos
do lodaçal são incapazes de compreender o que lhes dizem os grandes peixes dos
oceanos. E saiba de uma coisa: além de bom aluno, o Professor (...) me admira
porque prefiro a ironia de Anatole aos destemperos do velho Balsac.
Abismou-se: Mas, Tônio, você até há poucos dias adorava Balzac!
-- Adoro-o ainda, mas o Anatole tem
mais amor ao homem. Confessadamente é progressista, vive mais a nossa época,
pressente um futuro sem querras, sem fome, sem injustiças. Se antes não lhe
falei disso...
-- Mas, você critica tanto o Pablo!
-- É que não me interessa construir
prestígio às custas de ações que considero uma obrigação social e não um favor.
A primeira e única briga que tive com meu padrasto, tive-a por defender um
proletário, o sr. Artemísio, até hoje meu amigo. Sabe de uma coisa? Talvez eu
não aceite a nomeação...
Arimar me olhou, desconfiado, e
afastou-se em direção à Faculdade, deixando comigo o exemplar do “Diário
Oficial”. E de noite, na residência do Professor (...), introduzindo nas frases
uns adjetivos gordurosos, agradeci a mercê e falei com franqueza: eu não era
forte nem em Moral e nem em Cívica, matérias estudadas por exigência apenas
curricular. Não lhes atribuí, mestre,
maior importância.
-- E não têm, Tônio, reconheço que
não têm importância maior. Nem por isso se vexe, querido filho. Melhor: querido
amigo. Há por aí, em francês, uma caterva de compêndios sobre Moral. Compre
dois ou três, faça os resumos, escola por escola, concentre-se nos gregos bem
educados -- e, claro, o notável Platão à frente --, suba até os ingleses e
franceses dos séculos XVIII e XIX e dê setenta por cento de atenção a Kant. O
resto, os modernos, despreze-os. Todas as ideias, todas, mesmo as de Kant,
devem ser paramentadas com a essência do cristianismo papal, cujas raízes
encontram-se no Decálogo. A Bíblia, como um todo, é perigosa: Cristo expulsando
os comerciantes do Templo é algo subversivo. O Decálogo é puro e esse
entendimento é fundamental. Pois não é, Tônio, que até no Brasil, e mesmo um
pouco em nossa pacata São Salvador, deletérios braças já exigem coisas, já
ululam e já fazem greves, brancos e pretos se misturando? Pois já não há muitos
Esse-Menino que se dão ares de eficientes caixeiros? Contra eles, querido, a
chibata e o Decálogo, santos remédios. Assim, pois, de três em três aulas sobre
concepções mais gerais, retorne sempre ao Decálogo: não roubar, não matar, não
cobiçar, etc., e etc., a besteirada sempre conveniente para os pobres de
espírito. O contentamento a cegá-los, meia-volta à sabedoria de Kant, vale
dizer, meia-volta à luz. Entendido?
-- Sim. E quanto a civismo, mestre?
-- Bem, civismo... Beba mais
chocolate. Civismo, civismo... Ora bem. Fale da pária, o dever de defendê-la na
Paz e na Guerra, a religiosa necessidade de reverenciá-la pela manhã, bandeira
a subir, pela noite, bandeira a descer, oh! estou me repetindo... Seus olhos me
inquietam, Tônio.
-- Eu o admiro muito, professor. Seu
saber... Algo mais sobre a bandeira?
-- Claro que há. Recomendo, com o
tato necessário, agradáveis digressões sobre cores e sobre o dístico: Ordem e
Progresso. Ordem em primeiro lugar. É o que está estabelecido, é o que deve ser
cimentado. Ponto final quanto a isto. Porque é perigoso pensar publicamente o
que não deve ser pensado. Ou você se expõe às objurgatórias daqueles que
resistem às transformações, invocando o primado da Ordem. Mesmo quando são
simples miudezas. O dedo mindinho para salvar a mão, mas eles não querem e se
os que mandam não querem, então quem somos nós para querer? A vida é curta e
frágil, é preciso aproveitar. Aproveitar em tudo, na carne e no espírito. Você
gosta de paté com pão e vinho? Tenho um patê...
Eu adoro, mas mamãe se zangaria se
hoje eu não jantasse com ela. Tenho que ir. Mas, antes, mestre, devo dizer que
o senhor me abriu não picadas em densas florestas e sim sombreadas veredas em
verdes campos – disse e levantei-me e ele tomou minhas mãos entre as suas,
gorduchas, suarentas, fez com que outra vez me sentasse, o discurso ia
prosseguir e terminou assim: Nunca
esqueça, Tônio, seja quanto a Moral, seja quanto a Civismo, as contingências
políticas. Ou você levará um tombo e eu não quero que isto aconteça. Prezo sua
amizade, quero-a sempre mais ardente, mais íntima. Você precisa mesmo ir?
-- Preciso.
-- Bem, são quase oito horas e o
Governador virá às nove. Vá. Seja-nos fiel, Tônio. Amanhã Carmen e minhas duas
meninas estarão de volta. Vocês as conhecerá. Vá, até amanhã.
“Carmen” e “duas meninas”?
Ah, os senhores leitores verão que
não foi tão fácil assim...
3.
Mamãe exultou com a notícia da
nomeação. Ao pressentir que me ia beijar a mão esquerda, afastei-me em direção
à porta que dava para o jardim. Esperou, minutos depois, que eu entrasse no
gabinete, entrei, ela quis entrar, não deixei e bati-lhe a porta na cara.
Inexcedível a sua sabujice, esperou-me à saída:
-- Vou rezar sempre muito por você,
meu filho.
Quatro ou cinco semanas após minha
primeira aula na Escola Normal, ao descer para o café da manhã, por força de
muita insistência ela me conseguiu na sala de visitas e rindo, um riso de bruxa,
apontou a parede maior. Lá estava, substituindo o retrato colorido do sr.
Giuseppe, especialmente feito em São Paulo, a amarelada fotografia de meu pai,
o rei sozinho, jovem, robusto, ao fundo a paisagem de uma cidadezinha
calabresa, a foto que, arrancada do álbum, eu guardara na minha gaveta.
A manivérsia irritou-me. Pisando no
estofado de uma das poltronas, alcancei a altura suficiente e retirei o retrato
emoldurado em oval. E exigi: Não bula
mais em minha gaveta ou não haverá Asilo nem merda nenhuma! Tentou dizer
que unicamente pretendera me agradar e antes que terminasse a fala, um pout-pourri de sandices, sílabas e
letras fedorentas, dei-lhe as costas, encerrei-me no gabinete, sem mesmo
quebrar o jejum matinal. Um chá que Anália me trouxe e a necessidade de cumprir
obrigação contraída com o Professor (...) aos poucos foram permitindo uma
mansidão e nela achei acolhimento para ajuizar sobre as tarefas do dia. Sobretudo,
eu devia escrever suelto, algo
ferino, em relação ao Intendente (hoje se diz Prefeito) que, embora
correligionário do Governador, estava a pôr as manguinhas de fora, dando-se uns
ares de independência, comportamento não previsto no repertório de direitos
elaborado por S. Excia.
--
S. Excia. – explicara-lhe, na véspera, o Professor (...) – é
extraordinariamente hábil, Tônio. S. Excia. estimula pequenas divergências
internas com o intuito de averiguar tudo sobre os que, sendo rolinhas,
ambicionam ser águias soberbas ou vorazes falcões. Vai dando linha aos bichinhos,
adverte-os maneirosamente e se eles não... Entendido?
-- Percebi, mestre.
Eu deveria preparar o texto do suelto de tal modo que repontassem duas
ou três citações de autores franceses da inquestionável preferência do
Professor (...) O Intendente, assim, identificaria o autor da verrina e
racionalista sem dificuldades: “ora, se o Professor (...) foi a tanto é claro
que o Governador lhe fez a ponte; logo...”. E
assim advertido – acrecentou – o
nosso hoje rebelde carneirinho voltará ao redil, fanadas suas ambições
desmedidas, ou tirará a máscara, nesta última hipótese, Tônio, chegará a hora
das bastonadas no sujeitinho e este prazer o Governador não nos dará: S. Excia.
adora bastonar, e bate rijo, Tônio, sabe bater, e dona Carmem riu com
descaro ao ouvir aquilo e o Professor (...), agastado com a gaitada da mulher,
fez-se sisudo, e imaginei: “O Governador fode esta mulher, o Professor (...)
sabe e deixa; como negar algo a S. Ecia.?
E ali, no meu gabinete, um tanto a
perigosa pureza de Kant, um tanto algumas das perversões do Marquês de Sade,
diverti-me a inventariar hipóteses escandalosíssimas. Havia, porém, o que fazer
e eu não me podia permitir o luxo de convescote mentais daquele tipo. E
arregacei as mangas para o trabalho. Por volta da hora do almoço eu já tinha o
texto pronto, lido e relido. Citei Anatole France e Vigny. Os versos de Vigny –
“fais ... ta noble et rude tache / dans la voice ou la sorte voulu t’apeller –
caíram tão bem que o Professor os repetiu duas vezes, a comentar: Tônio, você conseguiu uma reprodução
magistral do meu estilo. Farei umas emendas e vai ser uma bomba!
-- A seu conselho, mestre, bebi nas
melhores fontes.
-- O Vigny no revestimento, o
Anatole mais sumarento do que nunca, magnífico, Tônio, magnífico. Só um néscio
não perceberá minha orientação, meu dedo. Bem, S. Excia. virá abraçar-me depois
de amanhã. Farei cinquenta anos, querido. Venha também, depois das oito.
-- Com o máximo prazer, mestre.
-- E o nosso estouvado Intendente?
Será que lendo o sualto ... De
qualquer modo vou convidá-lo, enviarei um cartão. E se aparecer e se perder a
tramontona, genioso e irritadiço que é, e se investir contra mim eu lhe
rasgarei a fantasia. Há, porém, outra possibilidade. Para acalmá-lo pois que o
sogro do peralvilho além de riquíssimo é escolado em falsídias, o Governador,
para poupar-me, aqui tendo em conta os interesses partidários, poderá informar
ter sido você o autor desta pequena obra prima, acrescentando que de nada eu
tinha conhecimento. (Dona Carmen, vi,
concordou). Sim, isto é possível. Nesse caso, sempre tendo em conta os
interesses de S. Excia. e os do partido, e, ainda, os seus interesses. Tônio,
-- saiba que pretendo Elegê-lo deputado – você deve agir com astúcia e sangue
frio.
-- Como se estivesse num palco – ela
disse, quase debochando.
-- Desse modo, Tônio, se o peralta
do Intendente atirar-lhe pedras e estrume à cara, reaja, sim, reaja, mas com
altanaria, sem a violência dos iracundos. Faça-lhe, à vista de todos, um
discurso viril e irônico. Quer treinar? (Dona
Carmen, vi, concordou. Com vivo empenho) Sim, por que não?
Considerei a ideia meio aveadada,
mas o exercício de destreza mental era útil aos meus propósitos, ele avançara o
compromisso de deputar-me e submeti-me: Aceito
se o mestre e amigo considera indispensável. Ele disse: Considero, meu querido, considero e dona Carmen adentrou-se na casa, em busca das
filhas, Lucinha e Creusa, para engordar o auditório. A tal Lucinha pareceu-me
freteira e apetitosa, mas Creusa saira ao pai, era um bofe, um composto de tronchos. O Professor (...),
animadíssimo, explicou a cena e, cada ator no seu canto, dedo em riste contra
meu rosto, ele engrossou a voz:
-- Pasquineiro! Canalha!
E então (que jeito?) aplumei-me:
-- Tais xingamentos, senhor
Intendente, porque assim requer a conveniência partidária, eu os considero
medalhas, louros, buquês de flores, ou, se desejais, simples pingos de lama que
não podem enodoar a frescura virginal dos meus linhos. (E fiz pausa). Linhos, senhor Intendente, com que teci a armadura
que defende o estandarte do nosso partido. O meu, seguramente; o vosso, ainda,
senhor?
-- Como ousa? Como ousa?
-- Recordo, senhor Intendente, meu
queridíssimo poeta Cruz e Souza, recordo-o e digo que vossas invectivas eu as
recebo como sidéreas rosas, preces de luar e lírios, brancas sonoridades de
cascatas. E me retiro, senhor Intendente, não antes do apelo que aqui e agora
faço: no futuro, senhor, flete contra nossos inimigos comuns a ira que vos põe
fora da razão, nunca contra um jovem do vosso próprio partido.
Aplausos e depois chocolate quente;
o Professor mandou Creusa abrir uma lata de biscoitos franceses e me recordo
ter dito que não, infelizmente eu não sabia tocar piano, minha mãe sim, ela
sabia, em passado próximo, fora mesmo quase exímia na arte do teclado; livros
de Cruz e Souza? trarei, senhorita Lúcia;
e ela falou: mais chocolate?
E
recusei, minha mãe me espera, ela é
paralítica, e o Professor (...) estranhou que mamãe, sendo paralítica,
tocasse piano, e não me engasguei para doirar a pílula: a paralisia, felizmente, não alcançou os membros superiores, mas já
não interpreta como antes. Menos chueteira, dona Carmen convidou:
-- Venha almoçar amanhã.
-- Com o maior prazer.
Em casa, avaliando tudo quanto
acontecia, antevi, sob férreas alfombras, alguns dos riscos da empreitada: o
Professor me exigiria como amante? Outros existiram, imprevisíveis, e ouvi em
coro meu pai, tio Leonardo, o sr. Artemísio, Arimar, escutei-os, tudo isto é muito podre, é muito sujo,
Tônio; ainda há frestas na pocilga, filho, fuja, limpe-se na luz do sol,
limpe-se nas águas da Pituba, limpe-se! E eu disse aos livros do gabinete:
-- É um jogo, amigos, e já comprei
as fichas.
O Intendente não compareceu à
recepção oferecida pelo Professor cincoentão. O Governador, de sua parte,
apresentou-se às nove horas daquela noite abafada, saudou os convidados, não
deu trela a nenhum, apertou a mão de dona Carmen, beijou a testa de Lucinha,
querendo-se paternal, e quanto a Creusa, notei, fez que não viu, e depois
arrastou o Professor (...) até o gabinete. Trancaram-se e esperei que me
chamassem – o suelto obtivera
repercussão aquém da por mim esperada – e não me chamaram. De volta à sala,
após ter levado o Governador até a porta de saída, pelo jardim, o Professor
estava exuberante: Tudo otimamente bem,
Tônio, objetivos alcançados, querido. Inclusive, o Governador quer conhecê-lo
pessoalmente. Agora, Tônio, regozijemo-nos, a diversão é o que vale. Eu me
entristeceria se você passasse a segundo plano o que hoje mais me alegra: os
meus cinquenta anos. Meio século, querido Tônio, meio século!
-- S. Excia. soube que vim disposto
a enfrentar à bala o Intendente?
-- Bala, Tônio? Querido, você veio
armado?
-- Não se preocupe, já me desfiz da
arma: entreguei-a a um fiel servidor que tenho, o sr. Artemísio. Ele está na rua.
Temi que ele convidasse um
inexistente sr. Artemísio, mas o Professor, expelindo gratidão por todos os
buracos da cara, após dizer que também tinha seus “capoeiras”, reafirmou que o
Governador me convocaria o mais cedo possível e que eu não me afastasse da sala
ou da varanda, queria ter-me a vista. Lá pelas dez horas dona Carmen improvisou
um “sarau artístico”. E uma mulher botou o filho para tocar piano. Uns malucos
deram-lhe atenção, eu espiava Lucinha, fazia-lhe sinais, ela fingia que não me
olhava e de repente seu leque caiu e ela curvou-se mais que o necessário para
apanhá-lo e com isso o que queria era me mostrar os peitos, duas lindezas,
nessa altura eu já coçava meu pau, para que ela o imaginasse, e ouvi a maldita
voz de dona Carmen, Que declame o jovem
Antônio Petrucci, e hesitei, negando meus méritos em coisas tais, mas ela,
a própria Lucinha, o Professor, quintos, vozes muitas, com aplausos exigiram e
marchei para o meio do salão, pau pururuca. E alto, magro, resoluto, duros os
olhos a exigir silêncio, anunciei, atrevidamente olhando Lucinha, o soneto
“Argila” de Raul de Leoni, que é,
senhoras e senhores, um dos mais injustiçados poetas de nossa língua pátria,
vate cuja grandeza um dia outros povos hão de reconhecer e proclamar.
Declamei com gosto, sabor, aroma,
sangue, cores, e enfatizei os tercetos: “É tanta a Glória que nos encaminha /
Em nosso amor de seleção, profundo, /
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis) / Se um dia fosse teu e fosse minha /
O nosso amor concederia um mundo / E do teu ventre nasceriam deuses!” E sem
esperar palmas – nos olhos dos muitos basbaques eu lia reprovação – emendei
outros sonetos e poemas, inofensivos à pudicícia, assim ganhando alguns
aplausos, nada mais. E agradeci as atenções e afastei-me e apareceu um cidadão
a murmurar Bravos, jovem, os meus
parabéns e o Professor (...) não consentiu que conversássemos e no jardim
falou: Esse soneto, o “Argila”, bonito,
sem dúvida, mas você não o considera, digamos, um tanto imoral?
-- Não, não é imoral. A beleza não
é imoral. No entanto se o senhor entende que arranhei seu lar no que tem de
mais sagrado (Nesta altura, Abelardo,
cocei os culhões, minha única arma naquele entrementes), peço permissão
para me retirar.
-- Em absoluto, querido Tônio! (E de raspão ele pegou no meu pau).
Importante, para mim, é que nenhum dos meus pouquíssimos protegidos – e você,
já é o principal – preserve publicamente em conduta que seja prejudicial, hoje,
amanhã e no futuro. Privadamente, querido, viva, viva muito, corpo e espírito
para todos os prazeres, fogos crepitantes! Vamos ao meu gabinete que tenho
novidade.
E fomos e dona Carmen estava sentada
numa das poltronas e ela nos disse que ficássemos nus, um calor danado, e
aconteceram coisas que agora me revolvem o estômago. Diabo engenhoso, que
suruba suja, e a certa altura, quando ele se vestiu para ir ver os convidados,
consegui despedi-los, eu pedi: Mande
Lucinha, quero ela. Iradamente, sua voz enrouquecida lembrava a de minha
mãe, dona Carmen me chamou de idiota,
Lucinha tem dono, idiota! O Governador – ele era o dono – apareceu perto da
meia-noite e Lucinha já estava no quarto, esperando-o.
ESCLARECIMENTO
X
Luce,
se a dra. Narda não for à sua casa
(telefone-me), irei vê-la hoje, a noite, e falaremos a sós. Gostaria que desde
logo você pensasse nas vantagens ou desvantagens deste nossos bilhetes
constarem deste trabalho. Interessante, querida: de repente veio-me o desejo de
ver meu nome impresso ao lado do seu e do Cris. Isso, é claro, se você não se
opõe.
Repare que se transcrevermos o final
deste capítulo agravaremos a memória de uma senhora que merece,
respeitosamente, ser esquecida. Anule também, integralmente, os capítulos
numerados quatro e cinco, seis, sete e oito. Suponho que são pastichos de obras
do Marquês de Sade e não trazem nenhuma novidade. Por experiência própria ou
leitura ou ouvir dizer, etc., o leitor inteligente imaginará o que se passou na
residência do Professor (...). Do capítulo oito, porém, mantenha o trecho,
marcado a lápis, no qual o finado se dirige a quantos lhe concederam mandatos,
aplaudiram-no em comícios, direta ou indiretamente o ajudaram, etc. É uma
ingratidão sem tamanho e não há porque escondê-la do público.
E, sim, Brasília... Sabe que eu
fiquei vaidoso com suas palavras?
Beijos, muitos beijos.
18.3.69 Abelardo.
Que me putifiquei?
Já o disse antes, longe de mim
negá-lo. Afirmo e reafirmo que eu, Tônio Petrucci, senador Antônio Petrucci,
conseguiu iludi-lo dezenas e dezenas de anos, mas vocês, que negavam e negam
aplausos a um soneto como “Argila”, vocês vivos e vocês mortos, vocês é que me
quiseram assim, vocês todos e não apenas minha mãe, o sr. Giuseppe, o sr. Ambrósio,
o Professor (...), o Governador, dona Carmen (ela teve uma morte horrível), as
figurinhas que gravitaram em torno de mim, e sim eles e sim também vocês, todos
podres de espíritos, de curiosidades, de dúvidas averiguadoras, de dúvidas
poderosamente interrogativas. Sim, vocês todos!
Meu mérito – porque há mérito em ter
sido um canalha bem sucedido – consistiu em ter compreendido vocês e agir de
acordo com tal compreensão: nas ondas de
que são feitos os movimentos eu soube nadar, sem me permitir afogado. Esta é a
nossa diferença essencial. Como antes já disse, sempre soube em que
circunstância me prostituí, cada momento do processo. Era a ambição que me
aprestava os culhões quando eu ia para as surubas na central putárica. Tinha
consciência de que meu pai e tio Leonardo choravam de dor por me assistirem
degradado, física e moralmente, e lhes prometia mudanças quando conquistasse as
posições pretendidas. Era um jogo – e um jogo sujo, mas estou contando tudo e
vou contar muito mais. Vocês, ao invés, gostam-se engaiolados pela nudez.
Putos! Perturbados putos que, agora,
se vivos estão, coram e enclausuram-se naquilo que alguém definiu como
“silêncio de gelo”. Eu, não. Eu grito e confesso, eu digo sem meias palavras
que subi na vida mediante processos impuros, processos que, no entanto, são
brinquedos de criança se comparados com os postos em prática pelos que subiram
além do que eu alcancei, e poucas as exceções, as ressalvas. A Pátria, juro,
nunca a mercadejei, e mil réis mal ganhos, embolsei-os, muitos, mas sem
depositá-los em bancos estrangeiros. Não meto o povo nisto, o povo é bobo, meto
vocês, putos, perturbáveis putos. Fodam-se!
INTERRUPÇÃO
– IX
Meu, atendo sua ordem. A quem
interessar possa digo que estou de acordo com seus bilhetinhos nesta pamonha.
Assinado, Marluce. Pensando bem, Abelardo, é uma boa isso de a gente ficar
trocando bilhetinhos. É como se você nunca estivesse tão longe. E de vez em
quando vou dar mais palpites sobre estas memórias e fique sabendo que gosto de
umas tiradas do velho, principalmente quando ele bagunça de uns caras aí que
andam posando de santos e que não são santos porra nenhuma.
Meu, me machucou aquilo ontem a
noite de você “estranhar” que Narda toda hora vá lá em casa, coisa e tal. Eu já
“estranhei” você toda hora falando de Cris isso, Cris aquilo? Cris é porreta,
eu sei que é, mas se é ótimo numa coisa é péssimo em outra, fique de aviso.
Você diz que me adora, eu acredito
ou não usaria o anel. Eu digo e escrevo que adoro você numas coisas e outras
pessoas têm coisas que eu adoro. Por exemplo: o jeito de Cris gozar os chatos,
as delicadezas de Narda. Entendeu? Me espere hoje à noite, eu estou à-fim de
você. Tchau, belo. Salvador 19.3.69. Marluce.
Você reparou a que mamãe só me chama de Lu? A
mesma.
9.
Uma freira levou-me a notícia. Eram
nove horas da manhã e eu tinha pressa, eis que o Governador me marcara
audiência para às onze. A freira, antes de entrar no assunto, espichou um
circunlóquio insosso, cretino mesmo, sobre a vida e a morte, a morte não é um
fim em si mesmo, é un départ para
caminhos maravilhosos (no cu, veja-se “A Divina Comédia”), e interrompi a
algaravia e perguntei: Mamãe morreu de
que, afinal?
-- Morreu dormindo – respondeu e
disse que o médico chegaria às onze horas para o atestado de óbito, depois
seguir-se-ia o velório, prolongando-se pela tarde e à noite, enterro na manhã
seguinte, eu cuidasse urgentemente do caixão, das flores, da cova. Exigi: Quero o enterro hoje, de tarde. Amanhã
embarco para o Rio, em missão oficial do Governo. Questão inadiável. Ela me
olhou com espanto e acrescentei:
-- Quero tudo acabado até quatro
horas, quatro e meia o mais tardar. De minha parte, Irmã, despeço-me da
senhora, devo mudar de roupa. Não se incomode quanto a despesas. Tenha um bom
dia.
Levei-a até a porta e, de volta,
passando pela copa, avisei a Anália sobre o acontecido e ela perguntou sobre a
causa da morte, respondi Morreu de
preguiça. Anália riu (elas se detestavam), e mandei que avisasse a Arimar,
fosse buscar o sr. Ambrósio, me esperasse às doze horas, Informe Rosenda e o sr. Lauzimier, dê a noticia também ao Padre
Hermógenes, a ninguém mais, seja expedita que o tempo voa, enterro às quatro da
tarde.
Antes do Palácio, passei na casa do
Professor (...) para comunicar a nova e encaminhar uma nota de condolências aos
jornais fiés. Uma nota hábil, escondido o nome do meu pai. “Doloroso golpe
feriu, ontem, o jovem advogado e jornalista dr. Antônio Petrucci, com o
falecimento de sua genitora, a sra. Sophia da Anunciação Petrucci, viúva, em
seguidas núpcias, do industrial Giuseppe Camposanto. O féretro saiu do Asilo da
Ordem Terceira do Carmo, sob lágrimas do filho amantíssimo e a tristeza de
numerosos amigos, ocorrendo a cerimônia final no cemitério Campo Santo. Unimos
o nosso pesar ao pesar de toda a Bahia, solidários que estamos com brilhante
advogado e jornalista, a quem S. Excia., o Sr. Governador do Estado, manifestou
sinceros pêsames, de igual modo procedendo muitos e ilustre líderes políticos.
O dr. Antônio Petrucci segue, hoje, para o Rio a bordo do “Netuno”, com a
missão de defender, perante os Juízes da Suprema Magistratura, várias causas de
sua selecionada clientela e, também, de números desvalidos da sorte”.
O Professor sugeriu: Acrescente que você é candidato.
-- Não, não acrescente uma vírgula.
Recuso usar meu luto como arma de campanha política. Peço que ninguém vá ao
enterro. Eu me emocionaria ainda mais e é melhor que tudo passe com a velocidade
de um pesadelo – e saí daquela cena e na rua me dei contas que precisava
acelerar os passos: eram quase onze horas. Diante do Governador, após receber
as instruções (recados sigilosos, umas cartas, orientação para sondagens,
etc.), nada disse sobre a morte de minha mãe. Com a mesma facilidade idiota,
com que hoje, jovens falam em acabar com a burguesia, falava-se, na ocasião,
sobre movimentos revolucionários. Isso gerava um clima de apreensão e ouvi S.
Excia. recomendar: Obtenha o máximo de
informações sobre as áreas militares e não dê nenhuma sobre o que temos na
Policia Militar e na Guarda Civil. Quando eu já ia saindo, ele disse: Agora, dr. Antônio, uma questão pessoal. Se
me exasperei, naquela noite, quando vi Lucinha de mãos dadas...
Excelência, por favor! No dia em que
eu for incapaz de compreender a tensão nervosa em que o senhor se encontra eu
me afastarei. Tudo está definitivamente esclarecido, Excelência, e quero
agradecer o senhor ter consentido meu retorno à casa do Professor (...).
Assim me expressei e na cara, na
minha cara meses antes agredida por cusparada daquela nojenta boca de beiço
moles, e o mais antes narrado(5), qualquer um descobriria variegadas emoções
calmas: compreensão, tolerância, obediência ao Chefe, uma certa tristeza, vontade
de cumprir as ordens, e ele, satisfeito, metendo em meu bolso 500 mil réis,
algo além do anteriormente fornecido, uma pequena fortuna, despediu seu
palafreneiro sempre à disposição.
No cemitério, quando me abraçaram, o
sr. Lauzimier e Rosenda pouparam-me de palavras vãs. Rosenda de novo grávida, o
francês disse que quando eu voltasse do Rio não os encontraria mais. Ele
herdara, do avô paterno, uma fazenda em Madagascar, lá iriam viver, viajando na
semana entrante. Permite? – e beijei
Rosenda na testa e ela me retribuiu com um olhar bom, sadio, amigo. O sr.
Lauzimier disse: De volta, Tônio, você
encontrará um presente nosso. E imaginei mais livros e apertei-lhe a mão.
Em casa, o sr. Ambrósio perguntou: Missa
de sétimo dia? E respondi que não, nem de trigésimo, nada. Ordenei “me
ajude aqui” e sob sua enorme surpresa, e também a de Arimar, armei uma foqueira
e dei-me a queimar, no quintal, os antigos pertences do sr. Giuseppe e os de
minha mãe, exceto o piano, impositivamente ofertado a Arimar, o piano cujas
teclas ele não terá tocado salvo algumas vezes, e certamente poucas vezes:
morreria, quase na véspera do meu embarque de volta a Salvador.
(5)
No último capítulo desta parte, o senador recorda o suficiente sobre seu
envolvimento com Lucinha e com o Governador. O capítulo específico, cheio de
pormenores, é desaconselhável.
Muito falei de Arimar em capítulos anteriores
e talvez tenha provado que também com bons sentimentos se faz literatura: ela
tanto exige demônios quanto deuses. Há a acrescentar, aqui, que a morte de
Arimar, tão sentida, ocorreu de modo absurdo, estúpido: na fazenda de um tio,
na cálida e posso dizer que amorável cidade de São Gonçalo dos Campos, armara
rede para um cochilo após o almoço e aos poucos, sem que pressentisse, foi-se
partindo a viga-mestra, e de repente madeiras podres, grossos pedaços,
arrastando tijolos, caliças, bichos mortos, caíram-lhe sobre o peito, o rosto,
a cabeça, assassinando-o. De regresso do Rio, quando soube do acontecido, outra
vitória do Diabo, promovi o translado dos seus restos e os coloquei, com
agradecida anuência da família, num modesto mas digno túmulo, Cemitério da
Quinta dos Lázaros, ao lado do corpo de meu pai. Dois homens e todos os anos
tenho festejado. Flores, muitas flores, para duas honras silenciadas. Um
silêncio de hinos, eis que, para mim, são mortos que vivem na memória. Quero
ficar ao lado deles, quietamente.
10.
O Rio. Os pontos de luz uns de
outros se separavam à medida em que o navio ia vencendo a distância. Em mil
pedaços partia-se o bosque de luzes. Eu, de mim, ansiava que o navio perdesse
sua liberdade e me devolvesse a minha. Assim, desejei que logo fosse amarrado
no cais deserto, e foi e de supetão vi-me em hotel da rua Mem de Sá, imediação
dos Arcos, quarto no terceiro pavimento, vozes incomuns, exageros de cortesia
profissional agravando uma espécie de estupefação frequente às pessoas
imaginativas repentinamente deslocadas de seus espaços, seus chãos. Senti-me
temeroso. E meu pai e tio Leonardo nada inspiravam que fosse favorável, tudo o
que sugeriram limitava a coisa como eis
afinal você desamarrado, Tônio, eis você afinal diante de caminhos muitos e nós
não sabemos o melhor a ser trilhado, não, não sabemos, eu um simples pescador,
seu pai um simples artesão do couro, grande homem, sim, grande homem, mas
naquele pequeno mundo da Pituba, Itapuã, Brotas, Taboão; também eu, Tônio,
grande homem mas só em pedaços de mar,
-- as malas, senhor.
Despedi o rapaz com uma gorjeta e
voltei à janela, madrugada, supondo-me na condição de um condenado aos riscos e
à solidão. Repeti as invocações que tio Leonardo me fazia ouvir, de noite, na
praia da Pituba, olhos no céu: Haja
sempre mar, Senhor, por Vossa Misericórdia; neles haja sempre peixes, Senhor,
por Vossa Misericórdia; e mar e peixes saibam, Senhor, que é em consequência de
uma lei Vossa que os sujamos, ferimos e matamos, e tanto conhecendo se apiedem
de nossa almas. De manhã, diante do espelho, eu me disse: “não erre ou erre
o menos possível. Não se apresse, em nada. Veja da janela: todos são estranhos.
Como descobrir que um estranho não é inimigo? Eis porque, Tônio, mais do que
lá, na Bahia, toda cautela é pouca”.
E saí e andei, e nas ruas, mais do
que a solidão, senti a dor do anonimato. Gentes e gentes, aos montes, e para
todos e para cada um eu não era nada, ninguém, e quase a jurar eu me disse “um
dia, o mais breve, esta cidade não me negará suas carícias e estas mulheres me
olharão com curiosidade, respeito e me farão reverências; agora, porém, ninguém
me concederá cinco ou dez segundos e todos irão rir se lhe falar de minhas
aspirações e todos, mesmo o mais fuleiro, insistirão em gargalhadas se eu
contar que troquei o tão gostoso chibiu de Lucinha pelos hipotéticos votos de
ainda não sei quantos coronéis mandatários de currais eleitorais, porque assim
quis S. Excia., um velho devasso, perverso, por que você bateu na mocinha, tarado, e na minha vista, provocando-me
para um confronto impossível que numa hora dessas não sou maluco para brigar
com o dono dos votos? Por que você sempre a espanca? por que você não se
contenta com o chibiu dela, tão quentinho?
Porca vida esta, Lucinha, terrível
isto de eu ainda não poder cuspir na cara do velho cruel, sádico. Por mim,
creia, por mim, juro, escarrava na cara dele, mais do que escarrou na minha,
mas Lucinha, compreenda, compreenda que tudo foi disposto de tal modo que me
vejo de mãos atadas, é a tal ordem natural das coisas, você sabe disso que você
é inteligente, seu pai sabe disso, todos dependemos desse Déspota, esta é a
verdade; homens à deriva seríamos, eu e seu pai, se ousássemos enfrentar o
tarado no território dele, e hoje, querida, as lágrimas que você chora seriam
soluços terríveis, amanhã, eis que tudo está arrumado pelo Diabo para ser como
é, e Deus está atrasado na luta contra os belzebus. Não há, pois, na vida,
apenas os limpos caminhos dos pássaros, assim eu disse a seu pai e ele quase
foi além daquele choro; coitado, faça-lhe justiça, querida, pois se ele não
tivesse presença de espírito para inventar a desculpa que inventou hoje o que
há seria pior, seria nossa desgraça. Chego a me arrepiar quando imagino as
consequências se, graças a seu pai, as coisas não tivessem sido contornadas. No
mínimo eu seria espancado numa rua deserta, como é comum, seria demitido do
emprego, e por que, Lucinha, por que? Por causa de sua imprudência, dessa sua
mania de agarramento! Quem mandou você pegar em minha mão, quem mandou? E a
burra de sua mãe? Por que ela não correu para avisar que S. Excia. vinha
chegando pelo jardim? Como é que eu ia adivinhar que o puto tinha a chave do
portão do jardim?”
-- Vossa Excelência está se sentindo
mal?
E olhei para o homem atarracado,
português, sem dúvida, e não respondi, continuei caminhando pela Rua do
Passeio, e me perguntei: “que diabo eu ganho com estes pensamentos , estas
rememorações?” E lamentei não ter dado uma resposta gentil ao oportuno
português. Poderia ter-lhe explicado, para tranquilizá-lo, que é dos meus
hábitos falar sozinho quando me exalto, e estava exaltado, e ri, sozinho, ali,
na Rua do Passeio, e compreendi a insensatez de minha primeira reação contra a
cidade e as pessoas da cidade e me disse: “esta é uma cidade que cresce
rapidamente e tem segredos; não devo temê-los e sim é bom que os encare de modo
realista; se, por exemplo há um assassino na próxima esquina, há também aquele
português que se preocupou comigo e me chamou de Excelência, Vossa Excelência está se sentindo mal?”, e
caminhei à toa, vagabundando. E quando me senti mais seguro, mais calmo,
mentalmente recapitulei minhas obrigações, disposto a cumpri-las com sucesso.
Senhoras e senhores leitores:
pesa-me dizer-lhe que se de minha primeira viagem ao Rio trouxe êxitos,
acompanhou-me de volta uma desgraça de desdobramento miseráveis. Refiro-me a
uma doença venérea, blenorragia como hoje se diz (dizia-se, na época,
gonorreia), cujo tratamento, feito aqui, na Bahia, me esterilizou – e isso me
impôs o malefício que é a ausência de um filho, significando uma terrível
punição. Não que eu houvesse, um dia, pretendido constituir família, como
normalmente se entende o que seja uma família: marido, mulher, a filharada, a
parentela, etc., essa espécie de seguro contra velhice tão ao gosto do pequeno-burguês.
O que sempre me apeteceu foi um
filho meu, gerado em não importava que útero. Desde que o menino saísse branco,
sem defeitos físicos ou insuficiência mentais, pagaria regiamente à parideira –
e ela que não me aparecesse mais. E criaria o menino segundo o estilo de meu
pai, a sorri, a cantar, a aprender na vida e nos livros, o garoto, assim, a
crescer sem ódios e sem medos, eu a gozar cada instante de sua alegria. Isso
não me foi consentido e agora meus olhos ardem mas não choram. É outra punição,
é um grande sofrer, acreditem, porque se as lágrimas saíssem, molhariam mais do
que meu rosto, molhariam minha dor, amenizando-a.
INTERRUPÇÃO
– X
Uma bobagem você trazer o Cris para
jantar, porra! Só vim aqui, esta manhã, para deixar isto escrito. Estes sapotis
foi mamãe quem mandou, não tenho nada com isso. Eu vou me mandar. Vocês
pareciam dois veados, risinhos prá cá, risinho prá lá, um negócio ridículo.
Você e Cris estão sujando minha cuca: eu não sou de surubas! Marluce Santiago.
Negócio que eu quero deixar nas pontas é o seguinte: eu não sou moralista, eu
não tenho frescuras, mas tenho meus princípios e um deles é este: quem faz
surubas não sabe o que é amor, é exibicionista, como Narda me explicou. O amor,
como ela me explicou, se faz a dois, com as bênçãos de Deus. Você não queria
que eu explicasse por que me mandei? Pois tá aqui, amizade, escritinho, o
motivo. Eu tenho moral, tá bom?! A mesma.
Voltei aqui, hoje, para dizer que está bom, te bem, eu entendi mal, Narda
também acha. Ela acha que fiquei nervosa porque Cris foi coisa inesperada, eu
queria só você – e queria mesmo, estava no fogo. Vou prá casa e levo o anel de
volta. Outro dia eu pego na Quinta Parte. Hoje não dá pé. Ainda estou muito
sentida. Talvez eu vá com Narda tomar sorvete na Ribeira e não apareça. Narda
acha que uma separação de dias só pode fazer bem. Marluce.
QUINTA PARTE
ESCLARECIMENTO
– XI
Esta “Quinta Parte” se inicia no
capítulo dezessete, o senador Petrucci já eleito deputado federal, ele e eu no
Rio. Pequeno o quarto que eu ocupava numa pensão, o apartamento dele era amplo,
em Copacabana, um bairro tranquilo, nada a anunciar o que hoje é.
Os capítulos que o antecedem pouco
ou nada acrescentam. Pretendi manter o numerado onze, uma tentativa de poema em
prosa dedicado à jovem Lisa, que o Senador conheceu quando, deixando o pequeno
palacete das Mercês, foi residir em casa ampla mas apenas térrea na rua Banco
dos Ingleses, também na Bahia. Reconheço que há frases bonitas no capitulo
onze; eu me lembrei, porém, que na “Sétima Parte”, quando se entregou delírios
desenfreados, a todo instante o nome da mocinha é citado. Eu a conheci,
pessoalmente.
O apartamento, no Rio, era
espantoso. Nele, além dos quartos, das salas, havia um gabinete de trabalho,
livros em quantos pedaços de parede existissem. Ele estava, então, mais ativo
do que nunca.
Salvador, 5 de abril de 1969.
Abelardo
D’Antunes
Luce, embora saiba que você não me
ama com a disciplina que desejo, você é muito maluquinha, mantenho minha
proposta de casamento: gostaria de um filho seu, quando você quiser. Sobretudo,
querida, somos necessários um ao outro. É possível uma boa convivência, ainda
mais agora em que desaqueceram seus desentendimentos com o Cris, a jura que ele
fez de não mais se envolver no seu relacionamento com Narda.
Pense nas vantagens de uma
associação nossa, você e eu, as experiências que juntos faríamos, as viagens
fascinantes. Enfim, querida, pense, pense com alma. Abelardo.
-- Deixe de palavrório! Enfurne-se
no Ministério da Fazenda e faça com que me soltem a verba para os papa-hóstias
de Feira de Santana. Precisamente, Abelardo, Feira de Santana, precisamente, uma cidadezinha que cheira a bosta, não
discuto isso, mas a gente de lá me interessa. Se os bois e as vacas de lá
votassem eu acharia perfumadíssimas as fedorentas bolotas deles. Votos,
Abelardo, votos, tudo o que produza votos! Claro que eu gostaria... Bem, não me
rale a paciência. Vá logo ao Ministério.
Abelardo gostava de novidades,
parecia uma criança diante dos atrativos que o Rio de Janeiro oferecia e
escondia de mim o tipo de vida que levava: esta a razão porque não quis morar
comigo. Uma das suas preocupações era a de me transformar em político de
prestígio nacional, sustentando que eu devia conciliar o caça-votismo com ampla
afirmação de personalidade combativa. Eu tinha o que dizer sobre problemas
graves do Mundo e da Nação, sabia como dizê-lo e assim, então, por que eu me
encolhia?
Se o senhor vigário de Xique-Xique,
lá no cafundó da Bahia, me pedia uma verbinha para sua escola paroquial,
Abelardo, me mostrava, grifado, o trecho da solicitação e indagava: Interessa? e a pergunta lhe saía com má
vontade. Mas, era com entusiasmo de jovem afoito que me resumia os principais
lances da crise internacional, a ofensiva japonesa na China, o perigo
bolchevista na França e na Espanha, o rearmamento alemão, a ação italiana na
África... E a simpatia que era o sr. Franklin Delano Roosevelt! Queria eu um
exemplo de perfeito cavalheirismo?, pois então o inglês Chamberlain. Stalin? Para
ele Stalin era simplesmente um assassino, tipo lombrosiano característico. Uma
manhã, recordo bem, Abelardo me surpreendeu com a seguinte observação:
-- O perigo maior, repare o senhor,
consiste em que o desenvolvimento da luta na Abissínia poderá levar a França e
a Inglaterra à denúncia do Tratado de Stressa e então à Itália não restará
outro recurso senão aproximar-se da Alemanha. É o que se deduz de um editorial do
“Le Matin” que recortei e coloquei debaixo da estatuínha dos macaquinhos
japoneses. O Senhor leu?
Despreocupado em arredondar as
quinas, respondi:
-- Não li e não vou ler. Pouco se me
dá que haja Stressa ou a mãe de Stressa. Pouco me interessa se Mussoline está
matando ou não os negros da Abissínia. Você insiste nessas histórias de Itália
aqui, Itália acolá, Mussolini aquilo, porque sabe que eu gosto da Itália, mas a
Itália que eu amo se chama Calábria e só. Calábria! E me providencie outro
exemplar do “Diário Oficial” de anteontem, o da Bahia e não o de Roma, por obséquio...
Noutra oportunidade, Abelardo
preparou volumoso dossier sobre a
situação do café, a inquietação que lavrara em São Paulo, um mundo de
informações a propósito das malandragens no comércio internacional. Desejei
estudar aquela papelada. No fundo, no fundo, bem que eu gostaria de chamar a
atenção dos círculos econômicos e diplomáticos do Governo e isto com um ou dois
discursos judiciosos: deputados e senadores já viajavam para o Exterior pagos
pelos cofres públicos. Assim, os dados reunidos por Abelardo, também porque
procediam de boas fontes, eram uma tentação, mas em tempo eu me disse easy, Tônio, easy, palavrinha mágica que
aprendi com Arimar quando, juntos, traduzíamos poemas gregos. E repeti easy e
disse:
-- Bom trabalho, Abelardo. No
entanto, gele isto. É cedo. A notoriedade, agora, não me trará proveitos. Se me
destaco em demasia, provocarei invejas gratuitas. Os medíocres ficarão com um
pé atrás sempre que eu disser qualquer frase além da conveniência. A
mediocridade é tirânica, não esqueça. Mais tarde, quando consolidar meus atuais
redutos e instituir outros, farei discursos estudados, profundos. Se
diretamente não arrebanham votos, ajudam a fazer nome, prestígio, o que, por
sua vez, abre portas para bons negócios. Mas, agora, Abelardo, o que conta é
trabalhar em silêncio, uma pontezinha ali, um mata-burro adiante, um pedaço de
estrada, empregos! empregos!, as verbas para os papa-hóstias, essas coisas.
Miuçalhas, vá lá que sejam, são, mas elas reunidas é que dão votos. Por
exemplo: cadê a verba para o açude na fazenda do coronel Zeca Menezes? Para mim
a verba do Zeca Menezes vale mais do que toda a capadoçagem que os gringos
estão fazendo com os preços do café, do cacau, do açúcar... O café que se
estrepe! Cadê a verba?
-- Tenho ido ao Ministério, tenho
procurado...
-- Sei que a culpa não é apenas sua,
filho de Deus, sei disso, mas sei também que se não tivermos o máximo de
vigilância, o Chico Moraes fará com que o processo desapareça. Encalha o bicho
na gaveta de um dos burocratas que ele controla e acabou-se o que era doce e
nós ficaremos sem pirulito, sem “abafa-banca”, sem nada. O Moraes está certo.
Ele não vê com bons olhos minha aproximação com o coronel Zeca Menezes. No
lugar dele, sejamos sérios, eu faria o mesmo. Guerra é guerra e você perde um
tempo enorme com essas bobagens de Abissínias, Stressas, merdessas, de café. Os
pretos que se fodam, Mussolini que se campe, a mãe de Mussolini idem, eu quero
é a verba para o açude do coronel, eu quero é a nomeação para o marido de
Lucinha, bom rapaz, eu quero votos, Abelardo, votos. E pare de me azucrinar com
este seu antiintegralismo cretino! E se amanhã este maluco desse Plínio Salgado
casar politicamente com o doutor Getúlio, ham? Eles estão sazonando, esses
bichos insensatos , e seja por tática ou não, isto não me interessa, o fato é
que o próprio doutor Getúlio é quem lhes esterca a terra e os “verdinhos” estão
crescendo. Toda hora eu ouço um “anauê”. E por favor, agora saia, vá a um
cinema, divirta-se. Você não entende picas de política brasileira. Vá, saia, eu
espero uma senhora .
E não era uma senhora, era Epifânia,
o corpo igual/igual ao de Lucinha, o rosto, porém, desfavorecido com nariz de
papagaio. Ela chegou no horário e depois de tudo, um muito tudo, perguntou ao
ver o retrato de papai: E você não tem um
retratinho de sua mãe?
-- Não, Epifânia. Ela morreu logo
que eu nasci. E se vista e saia, está anoitecendo.
Ela gostava de permanecer na minha
cama, nua, olhando o que havia no quarto, a me fazer indagações cretinas, e
naquele fim de tarde, a noite vindo, sem dar muita importância aos objetos
outros, reparou no retrato de papai, aquele feito na sua gloriosa aldeia
calabresa, ele desacompanhado, o casario atrás, magnífico pano-de-fundo,
perguntou: Como era o nome dele?
-- Bucéfalo, Epifânia. Se vista,
ande.
-- E sua mãe, como se chamava?
-- Bonifácia! Merda, pare de fazer
perguntas idiotas.
E alterando a forma de tratamento,
passando do você para “o senhor” assegurou que não tivera intento de judiação.
Gostava de retratos e sempre usando “o senhor” falou do retrato que fizera do
seu cachorro, a morte dele, morte por atropelo, uma morte horrível, senhor, horrível! Tejo se chamava o cachorro,
Tejo, e paguei mais do que o usual e sorriu, disse Obrigada, senhor deputado, e sorriu.
Senhor, senhor, e a palavra me fez
lembrar Lisa, estava morta, ela já estava morta, contei isto antes, e sempre me
chamava senhor ou senhor Antônio, jamais Tônio. Pobre Lisa, coitadinha, tão
prematuramente morta. Desfavorável, muito, o que me poderia acontecer, naquele
então, e a tarde estava feia, nuvens carregadas, ameaça de chuva grossa. Algo
ruim a caminho ou eu não lembraria Lisa. Lucinha, sim, o corpo de Epifânia
lembrava o dela, mas Lisa, Por que Lisa?
Um mau presságio e não saí e bebi
muito e dormitei no divâ do gabinete e no sonho confuso era Epifânia, não o cachorro
Tejo, que monstruoso veículo atropelava. Um caminhão da Limpeza Pública, creio.
Eu caminhei pela praia com Tejo, ele escarreirou a Senhora-Toda-de-Preto, que
foi devorada pelos morcegos, e todos os amigos ficamos a jogar conchas no mar:
Tejo ia buscar as conchas e as trazia de volta. Era um animal grande, bonito e
valente.
18.
Não sei se em julho, mas, com
certeza, em 1936, proferi na Câmara aquele que considero como o meu primeiro
grande discurso político de repercussão nacional. Semanas antes, eu havia
firmado com Chico Moraes e Lomanto Teixeira – este um moleque de marca maior,
um capadócio --, deputados que comigo disputam influência na área do rio São
Francisco, uma combinação vantajosa. Apenas fiz uma concessão importante:
escrevi carta ao coronel Zeca Menezes informando que o açude de sua fazenda
sairia “menos por força do meu prestígio do que pela extraordinária
combatividade do nosso comum amigo, o deputado Chico Moraes, portador desta,
cuja presença no Parlamento honra a Bahia e o Brasil”. As demais concessões
foram tolas. Lembro-me de duas ou três demissões (exigidas pelo Teixeira) de
funcionários federais lotados em cidadezinhas abaixo de Juazeiro, uns merdóides
que se empanturravam com surubim, bebiam cachaça como se fosse refresco e pouco
me ajudavam. Além disso, uns quebrados, inclusive desistência de propositura
mediante a qual eu destinava uma verbazinha para reconstrução de Igreja
localizada nas imediações de Barra do Tarrachil (ou xil, sei lá, nunca fui lá), também uma exigência do Teixeira. Em
troca, Moraes se afastava do meu caminho em Glória e vizinhanças enquanto o
Teixeira desistia de obstruções em dois municípios do que chamo de “sertão
próximos”, aquele que tem Feira de Santana como capital de fato. Ignorava, o
bestalhão metido a ladino, que naquela área florescia uma cultura nova, o
caroá, e que outra se anunciava, promissora, a do sinal: a da piaçava era
intensa e extensa. Aquela zona ia ficar parrudinha de eleitores. E, repito, não
distante estava Feira de Santana.
INTERRUPÇÃO
– XI
Abelardo,
Reparando que este capítulo é longo
e encucada para lhe dar uma resposta logo, aqui, por escrito, digo a você, de
cara, que topo: casamento, o que você chama de associação, eu e você, legal,
estou nesta, aceito, mas negócio do Cris bancar o maestro, não! Ponha a cuca
fria e pense: eu caso com você, comunhão de bens, você faz questão de um filho
dentro de três anos, eu tenho ki Koisa a
perder?
Nada. Só tenho a ganhar que no caso
de não dar certo, havendo desquite, você terá de rachar comigo o que você tem. Como diria o Senador, eu não
tenho picas! Estou sendo bruta? Estou, mas se eu não escrevesse aqui isto como
é que eu ia ficar? Ia ficar grilada com a sacanagem de não ter avisado a você,
ainda mais com criança no meio. Então, a gente tem que acertar na base do
pão/pão, queijo/queijo. Outra coisa é que quando chamo atenção de você mais
Cris não é para fazer inferno. Se vocês se gostam, ora, se gostem! Agora, não
me metam na história – e isso, meu, não é moralismo, é não misturar alhos com
bugalhos, bugalhões com o nascimento da criança, se nossa associação tiver sucesso.
Eu gosto de Cris. Quando eu estava
num fumacê incrível não foi nenhum jesuscristinho quem me deu a mão. Foi ele,
mas não sou boboca, não vou ficar a vida toda pagando juros porque já dei a mão
a ele mais de mil vezes. Meu, peço que você releve minha franqueza, mas foi
bobagem aquilo de você ontem dizer que Cris não vai mais me encher o saco por
causa de Narda. Vai, sim, a menos que você grite
com ele, ameace cortar a mesada, corte!
Meu, era o que eu tinha a dizer. Com
carinho, 18.4.69, a sua Marluce. É
linda a tiara, linda! M.
O sertão virando votos, o que antes
eu já tinha, mais alguns “pingos”, mais Salvador, etc., senti-me consolidado,
eleitoralmente. E parti para o grande discurso, aquele que atrairia as atenções
da imprensa e de círculos governamentais. Elegi cuidadosamente, um tema
insólido, perigoso até. Querendo-me persuasivo, fiz a defesa dos militares que,
por equívoco, vítimas da deificação de Luis Carlos Prestes (só o chamei de
Carlos Prestes, eliminando o Luis...) “aderiram, por omissão, lamentavam
omissão, às badernas promovidas pela chamada Aliança Nacional Libertadora,
organização estipendiada pelo ouro de Moscou”.
Antes de me permitir a ousadia de
tal discurso, eu havia ajustado minhas opiniões às opiniões de líderes
militares com os quais estabeleci relação, não digo íntimas, certo, mas
cortezes, respeitosas, o bastante para eu pescar as tendências dominantes em termos de opinião e eram
aquelas: alguns – notem bem, alguns, poucos
– oficiais envolvidos nos acontecimentos
de novembro de 1093, malfadada “Intentona Comunista”, haviam sido iludidos pelo
prestígio pessoal de Luis Carlos Prestes, moços de boa família, com apreciáveis
folhas de serviço. E eu disse da tribuna: “Julgavam heróis, esses rapazes,
moços que não justifico mas procuro compreender, julgavam herói, dizia eu, um
indivíduo que, seduzido pelo Bezerro de Ouro, o nefando ouro de Moscou,
consentiu-se vencido pela ambição amaldiçoada e assim dobrado transformou-se no
que é: em régulo”. Tenho medo de Prestes . Ele é um sujeito baixinho e, pior,
sabe matemática. Não pode ser normal quem, tendo a mulher torturada pelo
Getúlio e, depois, entregue aos nazistas para ser assassinada, não trepidou em
apoiar jogada do próprio Getúlio. Bem, estávamos no discurso. Mais adiante eu
disse: “Os jovens e desinformados oficiais aos quais tenho aludido,
precisamente porque desinformado e jovens, pecaram contra a Nação. Mas,
senhores, pergunto eu, quanto de nós, em nossa trajetória, também não cometemos
erros graves? Quanto não cavalgamos os burricos da impudência cívica
julgado-nos a bridar os brancos corcéis do melhor idealismo e da mais calorosa
brasilidade?” E fui adiante e concluí dizendo: “Arrisco-me, Senhor Presidente,
meus nobres pares, arrisco-me às vaias dos inconformados e dos faltos de bom
senso, mas insisto em expressar a certeza, a convicção, de que as clarividentes
autoridades da República – não mais aquela
República abastarda sob a presidência de Washington Luiz – saberão examinar, um
a um, com todas as cautelas, cada caso de oficial detido e processado por erro
de omissão. Caso e caso, insisto, não para conceder anistia, que sabidamente, é
implícito reconhecimento de culpa do Poder, mas o perdão, que é dádiva cristã
somente possível ao Magnânimo e ao Forte. E se já houve, neste País, um Governo
Forte e Magnânimo, não terá sido sequer assemelhado a este que a Pátria tem,
hoje, a ventura de contar, sob a chefia impoluta, incontestável e incontratável,
do nosso Presidente, o Excelentíssimo Senhor Doutor Getúlio Vargas, a quem
rendo, em esta oportunidade, as minhas homenagens e as homenagens do meu
Estado, a Bahia”.
Alguns aplausos assinalaram o
instante em que deixei a tribuna e me seguiram poucos passos. A sede do Poder
Público federal era no Rio. Não havia essa maluquice que é Brasília. Eu tinha
apego ao edifício da Câmara, no alto de uma bela escadaria. Ali Abelardo estava
a me esperar. Disse: Foi um discurso de
alto nível. Redargui: Graças, também,
à sua colaboração. Lembre-se que “incontestável e incontratável” é adendo seu.
E o “magnânimo”. Nunca me ocorreria dizer “magnânimo”em relação ao doutor
Getúlio. E caiu bem. Quando quer, você é competente, Abelardo. Basta querer.
-- O que não entendi...
-- A porrada no Washington Luiz?
-- Não estava no texto quando eu
datilografei.
-- Saiu de improviso e explicarei no
momento oportuno. Providencie mandar para nossos amigos da Bahia um bom resumo,
sábado agora, no hidro-avião. Hoje, pelo telégrafo, mande uns trechos para os
jornais, e a íntegra, faço questão disso, mande para o Professor (...) e use
papel especial, de linho. E termine com aspas, sinceras condolências, em nome
de deputado Petrucci, pelo passamento da Excelentíssima Senhora Dona Carmen
fechaspas. Morte feia a de Dona Carmen, erisipela, horrível. Não chega a ser
lepra, mas parece: a carne vai ficando podre. Fodi muito ela, uma mulher
horrorosa e malvada. Ela teria vendido a Lucinha ao Stálin só para pegar a
rebarba do Stálin. Lucinha achava que não, mas desconfio que ela é quem avisou com
antecedência ao Governador. Resultado: morreu podre. Sim, fodi muito a burra.
Ou não teria Lucinha. Ou não teria a primeira eleição. Eu comeria com gosto um
guisado das carnes dela. Isto para ser Ministro, é claro. Noto que você não
gosta de ouvir minhas confissões, Abelardo.
-- É meu temperamento, senhor. O
passado não me atrai.
-- No entanto você roído de
curiosidade para saber o que reputo um segredo de Estado, o motivo das pauladas
no Washington Luis, pobre velho. Você é um utilitário, Abelardo, permita a
franqueza. Você fincou sua curiosidade unicamente nas batonadas que dei no
Washington Luis. Está bem. Depois eu conto. E não me apareça em casa entre as
cinco e sete que a Epifânia vai lá. E outra coisa: me compre cento e cinquenta
libras esterlinas que sábado eu viajo para Londres. Quero as libras amanhã,
cedo.
(Lembro-me
da estupefação que você, Abelardo, apanhado de surpresa, não soube controlar.
Doeu-me um pouco informar que seguiria sem você, mas recorde-se que
acrescentei: “Surgirão novas oportunidades. Já se acabaram os tempos das vacas
magras”.)
Foi na manhã do dia do primeiro
grande discurso, cujas linhas gerais, habilidosamente, o Abelardo conseguira
emprenhar nos noticiários políticos, que o Secretário de Assuntos Exteriores
telefonou lá para casa avisando que um envido seu me procuraria para “ampla
exposição” sobre alegadas atividades subversivas do ex-presidente Washington
Luis, na época exilado nos Estados Unidos. Ouvi a maviosa voz do Secretário:
-- O honrado deputado compreenderá
nosso propósito. Conceda-lhe a devida importância no discurso de hoje, como se
fora uma iniciativa tua.
-- Sempre estive à disposição do
Governo, Excelência. Não vejo diferença entre o Carlos Prestes e o Washington
Luis.
-- Não exagere.
-- Digo no discurso o que Vossa
Excelência quiser.
-- Sabemos que és um dos nossos. Aliás,
teu gesto enviando charutos da Bahia ao Excelentíssimo Senhor Presidente há de
ter sensibilizado bastante ao Nosso Chefe. De minha parte, muito grato pelo
doce que tivesse a bondade de me enviar.
-- Cocada, Excelência, cocada-puxa,
Excelência. E feita de coco e rapadura.
Depois de um austero Bom e quase a pôr-me tartamudo, as mãos
tremeram, o Secretário formulou o convite para a viagem: Londres. “Por que
isto?” – eu me perguntei enquanto o homem falava. Em resumo: uma delegação
mista do Itamaraty e do Ministério da Fazenda iria discuti com autoridades
inglesas o descongelamento de créditos brasileiros e representantes do Poder
Legislativo acompanhariam as dèmarches.
E disse:
-- Lembrei teu nome e quantos
consultei a respeito acolheram minha ideia com agrado. Aguardarei até amanhã,
não além das doze horas, a tua confirmação e sobre Washington Luis desejo teu
aval, de olhos fechados, ao que te dirá o funcionário por mim encarregado de
explicar os motivos. È competente e é meu sobrinho.
-- Decerto, Excelência. Quanto ao
convite, aceito desde agora. É uma honra. Quanto à cocada, providenciarei mais.
E que tal frutas, Excelências? A Bahia é o paraíso das frutas tropicais.
Mandarei para Vossa Excelência dulcíssimas laranjas-de-umbigo, mangas, sapotis,
romãs, tangerinas...
E ele me interrompeu: Eu agradeceria. Bom. Este segundo Bom significava, pela inflexão da voz,
que deveria encerrar o assunto e encerrei: Até
breve, Excelência. Até sábado, no
navio. E ouvi o adeus excelencial e preparei-me para receber o
funcionário/sobrinho. Conhaque, imaginei, talvez essa sub-excelência que vem aí
aprecie conhaque. E ri para as paredes: que beleza, Londres! Eu me disse:
“Tonio Petrucci, vá ser sortudo assim no inferno”. Foi o espírito dadivoso de
papai que me estimulou a presentear o Secretário com cocada-puxa, foi o
espírito prático, de operário, do “seu” Lobo que me fez escolher o Secretário e
não o Ministro para agrado mediante regalos. Calculei, me lembro, que o
Ministro deveria estar empanturrado de presentes, tantos que não daria
importância a uma cristaleira com tufos de cocada-puxa, mas já o Secretário...
Dito e certo.
Presentes,
Tônio -- o Professor (...) me
ensinou --, dê presentes aos que decidem hoje ou podem decidir
amanhã. Tenho pena dele, coitadinho, o que fez e o que faz só para ter umas
lascazinhas do Poder. Viver à sombra dos
fortes, ele gostava da frase, e
sempre protegido. A espera da sub-excelência, igualmente imaginei: a verdade
é que devo muito a ele, muito, e vou arranjar um rendoso emprego para o marido
de Lucinha, bom rapaz, sabia que ela era usada e não se importou; agora, com o
Governador morto, com dona Carmen enterrada e a debiloide da Creusa no
convento, Lucinha será menos infeliz; sei que ela nunca me esquecerá, basta um sinalzinho
meu, chamando-a, e a pichaninha viria, como uma cadela de um canil fantástica
onde se combinam e se alternam o medo, a alegria, a tristeza, a exaltação, os
delírios romântico, os empenhos de segurança.
Tenho presente, agora, um
ensinamento de Arimar:
-- Os muitos fortes, os realmente
poderosos, são incapazes para o amor simples, duradouro, que alimenta o
espírito para as intimidades com a beleza; e os muito fracos, Tônio, não têm
sequer força para ver além de nuvens no céu e temem as diferentes formas que
apresentam, modeladas pelos ventos.
E eu interrompi e disse: Muito literário, Arimar, muito literário.
Ele sorriu, e sorriu com algum mistério, coisa que não entendo até hoje. Mas,
senhores leitores, tudo que busco, nesta altura, é tentar recompor meu estado
de espírito naqueles quarto-de-hora em que esperava o sobrinho/funcionário.
Tratava-se de um rapaz sisudo, de boas maneiras, e não quis beber nada. Deu-me
as informações sobre o que o Governo queria, a porradinha no Washington Luis,
uma bobagem, ignoro a razão, e levantou-se para sair. Perguntei: O senhor também irá a Londres?
-- Sim. Passe bem, senhor deputado.
Um emproado, pensei. Não era. Era
Zito, uma figura excepcional.
Viajamos num transatlântico inglês,
o que deplorei. Queria um paquete italiano, com pessoas italianas. Ao invés,
naquele navio, gentes estranhas, ingleses muitos, uns rostos hipocritamente
seráficos, outros com intuídos de mangação, e não me eram simpáticos os
funcionários integrantes da delegação. E o Secretário, cinco dias de mar, não
me aparecia ao menos para um Alô, tudo
bem? Mantinha-se trancado no camarote, aquele sacristã. Em todo caso,
considerei gentil o me ter enviado o sobrinho/assessor para explicações: a
Excelência, confinado no camarote, ultimava a redação de documentos básicos
para as discussões que se travariam em Londres. Porque, então, se mostrou menos
sisudo, menos formal, aceitei o tema que o sobrinho/assessor propôs para uma
conversa no bar.
-- Ah! o bar! Exclamou.
E disse que, agora sim, livre das
obrigações funcionais, podia beber e bebemos conhaque e concordamos logo de
saída: mantidos os parâmetros usuais dos negócios europeus, a Itália, na defesa
dos seus interesses coloniais na África, voltar-se-ia para a Alemanha, a Hitler
se associando, constrangida embora por se ver compelida a abandonar seus
aliados tradicionais, a França e a Inglaterra. Evidentemente – eu disse --, negócios
são negócios,
-- até porque na África, o senhor
deputado sabe, encontram-se à mão matérias-primas de ótima qualidade, sobretudo
em grandes quantidades e baixos preços. E há, ainda, um mercado interno que bem
ou mal se expande, além de uma mão-de-obra numerosa e barata; intuitivo, pois,
que a diplomacia alemã, experiente como é, joga a partir de conflitos de
interesse, buscando resultados, e os ingleses não cedem nada aos italianos,
nada, rien!
-- É como penso – eu disse e me roia
de tédio, conversa chatíssima, mas devia alimentá-la, eis que, afinal, um
assessor é sempre um assessor, e principalmente porque, no caso em tela, o
assessorado era tio de quem o assessorava. Fundamental isto, porque um assessor
sabe das coisas, eventualmente opina, sugere, orienta, esclarece, encaminha,
etc., e quando senti que o diálogo perdia gás tentei aquecê-lo com uma
indagação: E os russos de Stálin? Ele
assegurou que os russos eram uns bobocas. A
preocupação de Stálin – disse – é
puramente propagandística. Stálin é um primário. De resto, os japoneses
cuidarão dos russos, mais dia/menos dia, é fatal. Os belgas? Também não contam.
Tornar-me-ia bofininho se
prosseguisse a multiplicar perguntas de tal jaez (e os checos? E os espanhóis?
E os poloneses?) e manobrei habilmente, falando da Itália, e forcei o
sobrinho/assessor a ouvir discurso sobre a Calábria. Queijos, vinhos, pães,
montanhas, cabras – e uma gente de muito sangue também na alma. E contei tio
Leonardo a morrer apaixonado por uma camponesa, ele pescador e, pela família
dela repelido, saira sozinho, em seu frágil barco, e largara-se Mediterrâneo
afora, naquele mar morrendo, um homem com arraigado sentimento de honra, e ela, a jovem Silvana Tambellini Crespi, ao
saber meu tio morto, suicídio por amor, matou-se também, a foice afiada a
rasgar-lhe as carnes, do peito ao pescoço, morte lenta, terrível. E ele, o
sobrinho, um tanto abestalho: Era pobre,
teu tio?
-- Não, ao contrário. Era filho de
um dos maiores fabricantes de calçado da Itália, mas se fez pescador por amor
ao mar e aos seres do mar, às suas coisas. Com isso a família da moça não
concordava. Se era industrial, fosse industrial. O amor ao mar, porém, foi
maior.
-- Difícil de se repetir um episódio
assim.
-- Dificílimo. Em parte, confesso,
herdei de meu pai Leonardo esse amor ao mar. O mar, e não o oceano, compreenda,
o mar me seduz. Faço uma distinção, talvez arbitrária (e nisso sigo meu saudoso
pai), entre mar e oceano. O mar, para mim, supõe a existência de terra
alcançável. O oceano, não. O oceano, se não me infunde medo, me intranquiliza.
À vista do mar, renasce-me no coração não sei que sentimentos de retorno às
minhas origens primeiras, misteriosas, transcendentais... Perdão se falei
tanto, não pretendia ser maçante.
-- O prezado amigo falou da Itália e
do mar com une certaime tendresse... Queira
perdoar, decerto o amigo fala francês.
-- Sim, claro, e inglês, e italiano,
e grego, e latim, e um pouco de alemão, e...
-- Grego?
-- Sim, grego. Quanto ao amor pela
Itália, bem, refiro-me à Calábria. À Calábria de meu pai, de meu tio...
-- A senhora mãe do prezado amigo é
também calabresa?
-- Não, não, em absoluto. Morreu,
já, e era baiana, baiana de São Sebastião de Passé, uma coisinha de cidade, não
vale a pena falar nisso ou disso. Na verdade, são poucas as coisas de que valem
a pena falar, pensar, recordar, pouquíssimas, entenda-me o amigo, pouquíssimas
coisas valem a pena. Não, não, grato, eu não fumo cigarros perfumados, no
particular sou como meu antigo motorista, sr Artemísio. Ele gostava de charutos
de fumo forte, mas, embora eu goste, não posso fumar. Tusso muito, bastante,
demais.
E o moçoilo (o Zito, vocês vão
gostar dele, garanto) cortou a explicação que eu ia dar sobre meus brônquios. E
se disse confuso porque eu já me referira ao sr. Antemísio de diferentes modos,
agora como motorista. Expliquei que o sr. Artemísio era um só, exercendo
diferentes funções:
-- Um herói – eu disse. Um autêntico
herói baiano, morreu lutando pela vitória da Revolução de 30, mas, peço, não me
interrogue de supetão. E aceite outro conhaque. Este é um bom conhaque. Ele tem
o sabor e o calor da França. Aí está, o conhaque é algo que vale a pena. São
poucas as coisas que valem a pena, sim, poucas as coisas que valem a pena, sim,
poucas, estou seguro disso. É interessante, meu caro, mas quando eu faço
referência a pessoa ou a objeto que vale ou não vale a pena, me vem à memória
um personagem de Balzac, Gobseck, o usurário Gobseck. Eis que ele, em certa
passagem, assim se definiu diante de um dos seus agentes: “Tu tens toda a
classe de crença, ao passo que eu não tenho nenhuma. Para mim só há uma
realidade concreta e bastante invariável para que valha a pena ocupar-me dela:
o ouro”. Terrível, não? pois quanto a mim às vezes me digo que nem sequer creio
no ouro. Já acreditei em algumas possíveis verdades, elas morreram e deixaram
memórias. Prendo-me a elas, porque outras verdades não me surgiram.
Disse assim, disse, e hoje não sei
quanto falei, enebriado por álcool e memórias. Sei, entretanto, que em um de
repente decidi calar, interrompendo frase no meio, eis que eu estava a me abrir
demais, a ser livre demais, e não havia recíprocas visíveis, suspeitáveis, que
indicassem a utilidade daquele sobrinho/assessor me descobrir nu, sem defesas.
Olhando-nos e encontrei, nele, um pouco de simpatia. Ouvi-o a dizer-me: Aprendi muito com o senhor. E então ele
me lembrou Pipo, o filho de dona Jeruza, na Pituba, e falei e falei e falei,
mesmo que um menino botando pra fora o resto do menino – e foi bom.
Em Londres, uma semana após nossa
chegada, ao me convidar para obscuras missões em Paris e em Roma, o
sobrinho/assessor reiterou que se tratava de encargo diplomático da mais alta
valia e salientou: Você, meu caro, não
foi escolhido por acaso. Meu tio assombrou-se quando informei que além de falar
vários idiomas, você dedica duas horas diárias ao estudo do grego clássico.
Como é mesmo aquele trecho sobre a velhice e o amor?
-- Naquela tarde de conhaques? Eu
estava tão excitado...
-- Começava com uma referência a
Afrodite.
E simulei um esforço de memória, na
verdade desnecessário, e disse em grego: Tis
de bios, ti de terpnon ater chyses Aphodrodites / tethnaien hotemmoi meketi
tauta meloi / Kryptadie philotes kai meilichia dora kai eune... – e antes
que ele me pedisse a tradução, dei-lha: Que
é a vida, que pode haver de bom sem a loura Afrodite? / Antes morrer, quando
não se pode mais gozar esses prazeres / Esses dons saborosos, os amores
discretos, o leito... Pausa significativa e o sobrinho/assessor falou
assim:
-- Tendo a concluir que o senhor,
oh! perdão, você... tendo a concluir que você, estando comigo, seja aqui, em
Londres, seja em Paris, seja em Roma, participaria, digamos assim, de noitadas
alegres, de muitas Epifânias cooperativas, dadivosas...
-- Epi o que? – perguntei,
atoleimado. E ele riu e disse que sabia de Epifânia, que sabia de Lourdes, que
sabia sobre a extinta central putárica do Professor (...) E ofereceu-se para
amizade duradoura e fecunda: Desfaça esta
tua cara de bobo. Saber é poder e nós
sabemos. E não me chames mais de Gilberto. Zito, ouça bem, Zito, é como quero
que me chames, mas não na presença de estranhos.
Paris me causou inapagável
impressão, mas Roma é que, nos inícios, me deliciou, e a tal ponto que não fui
ver as cidades e as aldeias da Calábria, comer seu pão agreste, seu queijo,
beber seu vinho; no dia em que pensei na Calábria eu me disse uma espécie de
“calma no Brasil”, Tônio Petrucci, que é que há? por que essa pressa toda
homem? Outra vez volto à Itália, me meto Calábria a dentro, percorro-a sozinho
e inteirinha, é uma jura, juro!, mas nada de Calábria agora”, agora não estou sozinho, se eu falar em
Calábria o Zito vai querer ir comigo e isto não seria perdoado, Zito é um
sujeito putificado demais para pisar a augusta terra calabresa, e pior se
eu falar agora, aqui, há testemunhas como corno, e bebidas como corno, e de
repente, ali, naquele apartamento romano, gritei Abaixo Milão, porra! E disse que Milão era uma terra de putos como
o sr. Giuseppe, e uma sujeita gritou e viva
\Milano! e abaixo Torino! E repliquei viva
Torino e abaixo Milano!, uma esculhambação, e alguém sugeriu Vamos até Milão?, e Zito ameaçou dar um
tiro nas fuças do sujeito ou da sujeita que de novo falasse em Milão e eu não
sei mais o que aconteceu porque dormi num sofá e dormindo eu morria afogado entre as mulheres nuas e tristes e
espantadas e sem destino que haviam escapulido de um quadro que eu vira em
Paris, e no quadro um velho de chapéu coco pedia pelo amor de Deus que lhe
ensinassem o caminho de fuga, queria escapar daquele horror petrificado e havia
um sujeito com cara de quem se perdia em intricados pensamentos e flores
mortalmente plastificadas e estátuas pejadas de assombros, e aquelas mulheres
belas e frias, e nas carnes delas eu me morrendo, -- Tônio, porra, Tônio! – e Zito, assim, xingando, me despertou, manhã
já, manhã cinzenta – és uma besta, não
aguentes um décimo de pileque desonraste descaradamente o Brasil. Eu anunciei
que eras bastante potente para quatro ou cinco dessas burras pagas em libras,
Tônio, em libras!Vamos, levanta, animal bêbado. Hoje temos trabalho, mas
amanhã... E houve o amanhã e de algum modo me reabilitei diante de Zito,
mas reconheço que ele foi muito mais eficiente do que eu, eficientíssimo, e
alegre, e contava as mulheres romanas, una,
due, tre... e em parte compreendo alegria dele: não vira nem sentira o
quadro de pintor (Delacroix) que incrustou naquela paisagem todos as esperanças
mortas e o fez com extraordinária perícia artesanal.
E agora, tendo o quadro na memória,
também compreendo a aparente insensibilidade dos médicos competentes, a exemplo
do meu querido Augusto. Sim, não há mistério: ele sabe o que me acontecerá e o
que acontecerá a ele; é como meu pai diante do couro, ele sabia tudo; é como tio
Leonardo diante do mar, ele sabia tudo, mas
quando eu, criança, vi meu pai morto, eu não sabia nada, por isso tive medo, e
também naquele quadro ninguém sabia nada, ninguém sabia o que fazer diante de
tentas impossibilidades compactadas naquele jardim cercado de grades.
Imaginem um mundo povoado, um mundo
num jardim a lembrar os romanos antigos, e você, por ânimo paternal, quer
ofertar boneca a uma menina e ela se mantém estática, não aceita e igualmente
recusa. É um menino, agora: você quer dar-lhe uma bola ele não aceita e
igualmente não recusa. Ninguém sabe nada e todos querem fugir de não saber
nada, mas não sabem fugir: aquelas grades do jardim devem ser postas abaixo e
ninguém ao menos olha; as grades estão em cada pessoa, participam das pessoas.
É terrível, creiam, um mundo assim;
é a não-vida, é o Ato não concluído. Ainda não chega a ser a morte ou seu
anúncio porque não chega a ser vida. Ou melhor, da vida há a forma, não há a
substância: é essa forma que grita desesperadamente pela substância, pelo
movimento, pela energia. Sei do que falo. Eu lutei e fugi dos ângulos,
quadriláteros, retângulos, em que me quiseram aprisionado e isto em meio a
cores que deveriam me fascinar para a submissão. Não, em mim, Tônio Petrucci, o
Ato está a concluir-se, vai morrer. E ainda respiro liberdade e vou matando, um
a um, os medos diante do inevitável e esta coragem me vem de experiência
pessoais e o saber de experiências de outros.
Logo depois da Segunda Guerra estive
de novo na Inglaterra e ocorreu a um dos membros da delegação parlamentar ver
Coventry e o vimos não era uma cidade, eram restos, as paredes dos destruídos
edifícios apontando para o céu escuro e triste. E chorei ali, em Coventry;
chorei pela cidade assassinada, pelos habitantes mortos, chorei pelos tijolos
partidos, vigas carbonizadas, realejos no chão, em frangalhos, e lembrei aquela
gente do quadro e me disse, convictamente, que estava a se fazer uma amanhã
para Conventry, mas que vidas outras jamais teriam o homem aturdido e as
pessoas aprisionadas no jardim, aquelas mulheres presas umas nas outras e na
verdade dissociadas quanto a propósitos de liberdade, as estátuas imóveis, o
desespero do velho de chapéu coco, a querer fugir e sem coragem, a hesitação
nele empedrada.
E de volta a Londres a Excelência
Maior, depois de espiar os documentos recolhidos em Paris e em Roma, avisou-me
que deveria retornar logo ao Brasil, no primeiro vapor. Como eu seria,
necessariamente, procurado pelos jornais, ordenou que decorasse as declarações
que ele próprio redigira. Leu o texto duas vezes, entregou-mo, e, quase um mês
depois, ao desembarcar no Rio, choveram as perguntas jornalísticas e respondi
com o decorado:
-- O Excelentíssimo Senhor
Secretário das Relações Exteriores regressará dentro de poucas semanas e
fornecerá à imprensa informações as mais completas sobre a missão. De minha
parte, como representante do Poder Legislativo, posso adiantar que a delegação
brasileira transigiu onde e quando devia transigir, em termos de negociações, e
se manteve inflexível sempre que estiveram em causa os supremos interesses
nacionais do nosso País. Nada mais tenho a informar. Esta a impressão que
transmitirei, com as minudências técnicas que se façam oportunas, aos meus
colegas do Poder Legislativo. Destaco que o nosso País, na área específica da
diplomacia, está excelentemente bem servido.
INTERRUPÇÃO
– XII
Abelardo, você fofocou com o Cris o
negócio de eu não querer morar a três, casada ou não! Assim não dá, assim não
dá... Narda é quem tem razão quando diz que vocês, homens, são uns porcos. É um
inferno de tudo bacana um dia, cinco dias, quatro dias e subitamente lá vem
fofocagem. Não tenho saco prá isto. Negócio também que lhe disse ontem e
escrevo aqui: tô cheia de você me mandar flores, cheia! Em 30 de abril, 1969. Marluce. P.S. Narda me recomendou folgar uns
dias e é bom que ninguém me procure. Você é complicado, adora fofocas, a
própria Narda é complicada, o maluco do senador foi complicadíssimo. E Cris nem
se fala. Vida filha-da-puta, esta, e me mando daqui, não quero ver ninguém. A mesma.
ESCLARECIMENTO
– XII
Marluce,
luce, lu, amor, eu não fiz fofoca
nenhuma! Nem Cris. Você interpretou mal a frase de Ivo, quando ele disse que
sentia-se alegre em servir a nós três,
mas isto não significa morar a três! Eu falarei a você, logo que volte, mas sem
Narda presente, sobre o casamento. Casamento a dois, é claro que a dois.
Lu, querida,você tem certeza que
Narda lhe está sendo útil?
Eu adoro você. Abelardo.
19.
Minha volta ao Rio se deu em fins de
agosto e já na segunda quinzena de setembro, de olho numa missão diplomática
bem remunerada, discursei na Câmara sobre política internacional. Sacrificando
os prazeres ensejados por Epifânia e sobretudo Lourdes, minha inesquecível
Lourdes, e sacrificando ainda cinema, teatros, concertos, eventuais namoricos,
estudei quase a queimar pestanas um tema bem apropriado às circunstâncias, e
tudo no maior sigilo, só Abelardo sabia – e estava feliz, ele gostava de me ver
brilhando. Com o sigilo eu queria surpreender meus amigos do Itamaraty e
afinal, a 21 de setembro, 1936, assomei à tribuna. Defendi o direito (meu Deus,
que heresia) de a Itália, usando privilégio deferido às grandes potências,
enviar voluntários com a missão de impedir o esmagamento das “falanges” que se
insurgiam contra o governo de Madrid, de orientação que tinha por bolchevista e
anarquista. Esta a tese, este o tema, e se hoje me arrependo, eis que o
franquismo é um dos mais abjetos abortos da História, repetiria a dose se
idênticas as circunstâncias. Aliás, no preâmbulo do discurso, depois de
referir-me à Declaração de Independência dos Estados Unidos eu disse:
-- Assim, senhores, onde quer que
uma forma de Governo se converta em destruidora dos propósitos democráticos, o
mudá-la constituí-se num direito do povo. Tal, e não outro, o sentido do
pensamento de Jefferson e nele se há de ter inspirado Machado de Assis para
afirmar, como afirmou, que “a tirania é a véspera da liberdade”.
Conferi o efeito do adendo
machadiano e fui em frente com minha sapiência (em boa parte apudística, confesso),
e falei John Locke, de Hume, de Kant, a influência deles “na valorosa ideologia
libertária do falangismo”. E disse mais, disse: “E também nesse particular,
Senhor Presidente, submeto-me, com toda humanidade, a qualquer contestação ou
arguição” e dei uma pausa e olhei o plenário, mas ninguém estava interessado em
contestar ou arguir coisíssima nenhuma e me senti ridículo, me arrepiei, eu
sempre sinto arrepio quando o ridículo me assalta ou mesmo me ronda, e lá estava ele, o safado, no nariz da
endurecida cara do líder da Maioria, no bico de um sapato qualquer que olhei,
nas pontas dos dedos das mãos, sim, lá estava o sacana de olho travesso, e a
vontade foi a de abandonar a tribuna, mas aguentei firme, o discurso era
importante, dele o Secretário das Relações Exteriores tomaria conhecimento,
isto é que me interessava, a Espanha que se arrebentasse, o general Franco que
fosse para o inferno ou o céu, eu queria era um lugar entre os brasileiros que
se sentavam nas confortáveis poltronas da Liga das Nações, em Genebra, Suiça,
um bom dinheiro todos os meses e a dois passos de Paris, a cinco passos de
Roma, e de Roma eu iria sozinho `Calábria, e refeito por ambições assim
animei-me a ler o resto do catatau: “Estabelecido, portanto, em termos
teóricos, o direito excepcional de os governados se rebelarem contra os maus
governos, salientemos, Senhor Presidente, que na Espanha atual, o conflito não
contrapõe legalistas contra sediciosos e sim restauradores do bom governo
contra a malta anarcobolchevique”.
Foi nesse preciso momento que o
estúpido do deputado João Otero, esquerdista feroz, embrutecido pela
descortesia e pelo fanatismo ideológico, levantou-se e à Presidência se
dirigindo disse:
-- Peço a palavra pela ordem! – e o
chibungo do Presidente atendeu e o Otero falou assim: “Comunico que abandono o
plenário, Senhor Presidente, por dois motivos. Primeiro: o deputado que se
encontra na tribuna inscreveu-se para discutir projeto que concede recursos
para obras de engenharia civil capazes de impedir as constantes enchentes do
rio Paraguaçu, em seu Estado, a Bahia, mas, na verdade, está a tecer
considerações ignóbeis sobre política internacional, propondo que os fascistas
italianos invadam a terra espanhola. Segundo: é direito de o referido deputado
expelir quantas sandices queira, mas é intolerável que, para justificar os
crimes de Franco e dos Riveras, insista em ferir a memória e a obra de homens
que, como Cervantes y Saavedra, Lope de Vega, Quevedo e tantos outros,
pertencem tanto à Espanha quanto pertencem à Humanidade. Retiro-me do plenário,
Senhor Presidente, por respeito a memória desses homens e, também, em certa
medida, em respeito ao pequenino e honrado rio Paraguaçu”.
A irônica capadoçagem provocou risos
contra mim, uns quinze ou vinte e cinco deputados acompanharam João Otero
quando ele abandonou o plenário, e me perturbei mas me controlei e disse: “Senhor
Presidente, nobres pares. Não quero a invasão da Espanha, quero a libertação da
Espanha: voluntários não são invasores. Reconheço, porém, que ainda não me
referi ao projeto do rio Paraguaçu. Mas, a tanto chegarei. Apraza a Deus que a
Itália possa contribuir para salvar a Espanha; apraza a Deus que a Itália
prossiga iluminando o mundo com os faróis do seu esplendor. No particular do
projeto sob exame, para o qual peço aprovação, apelo para que a Itália, tão
avançada em engenharia hidráulica, a nós transmita as experiências abundantes em
seus tesouros de saber. Estou convencido que este apelo ecoará favoravelmente
em Roma, por confiar, como confio, no Exmo. Sr. Dr. Embaixador da Nação amiga.
Mas, Senhor Presidente, volto a afirmar que negar apoio ao impoluto general
Francisco Franco é coabitar com o que de mais nefando existe num passado
apodrecido. De nossa parte, Senhor Presidente, nós não nos prostituiremos, nós
não nos transformaremos em recadistas de democracias decadentes,
desorganizadas, de regimes socialmente ineficazes, a exemplo da França que se
avermelha, dos Estados Unidos da América do Norte hoje negligente diante da
avassaladora expansão bolchevique. Tenho dito, Senhor Presidente”.
Da tribuna da imprensa, onde se
aboletava, Abelardo mandou-me um olhar azedo (natural – pensei --, ele é
americanista) e os quatro ou cinco deputados que me abraçaram fizeram sórdido
cudocismo, e um deles disse: Compreenda,
Petrucci, o Otero está de nervos estraçalhados, o único filho dele acaba de ser
preso como comunista. Respondi, seco: Eu
não tenho filhos e nem poderei tê-los. Quem pariu Mateus que o embalance.
Esperarei oportunidade para uma resposta.
Não tive essa oportunidade: em
1937, João Otero foi preso. Como comunista. É como eu sempre digo a Abelardo,
ou seja, se os comunistas não existissem seria preciso inventá-los. Porque a
gente joga as porras em cima deles, sejam ou não sejam, e pronto. Eu sou contra
torturas. Umas porradas, tal e coisa, e pronto. As torturas me fazem mal. Não
quero nem saber.
De noite, em casa, fui surpreendido
com a aparição do adido cultural da Embaixada italiana, visita, ele disse, não
só de agradecimento formal pelo meu discurso e sim, ao mesmo tempo, de
intensíssima curiosidade intelectual e ainda para informar que Sua Excelência,
o Senhor Embaixador, providenciaria, horas antes, uma correspondência urgente,
via aérea, dirigida a Roma, pedindo livros sobre engenharia hidráulica e logo
chegassem a mim seriam entregues. “Uns néscios, uns cretinos”, pensei e disse Ótimo, caríssimo amigo, ótimo, e o
rapazola desbrecou os encômios. Segundo ele disse em todo o mundo poucos
parlamentares haviam, como eu, compreendido o real significado do fascismo,
efetivamente, como dito em meu discurso, “um denodado esforço para necessário
Segundo Renascimento”. E sapecou o terceiro ou quarto recado: O Senhor Embaixador, pelas razões expostas,
deseja felicitá-lo pessoalmente e indaga se o senhor aceita jantar em nossa
Embaixada.
-- Será uma honra.
-- O Senhor Embaixador ficará
encantado ao saber desta honrosíssima aquiescência. Magnífico! É irresistível
minha alegre vontade e informo que o nobre deputado vai ser convidado, com
deferências especiais, a visitar o nosso País, a Itália.
-- Amo a Itália.
-- Peço encarecidamente que o nobre
deputado mostre-se alegrissimamente surpreendido quando, após o jantar, o
Senhor Embaixador formular o convite. Surpresa, por favor, surpresa!
-- Não entendi.
-- É que acabo de cometer uma
indiscrição, quando falei no convite a ser feito, uma indiscrição que o Senhor
Embaixador não me perdoaria. O Senhor Embaixador é rigorosíssimo quanto a
procedimentos protocolares e o que fiz agora, antecipando...
-- Entendo. Nada direi ao Senhor
Embaixador.
-- Recentemente, não me custa
informar, um dos nossos melhores funcionários em Washington foi punido por ter
cometido indiscrição de menor monta. Transferiram-no para o Haiti. O Haiti! E
ainda se encontra lá. Aquilo é um inferno de pretalhadas imundas a falar
francês numa algaravia dos pecados.
Além de veado, um chato, eu me
disse, e neste vai-vai, se eu permitir, passará a noite a falar do Haiti, já
não tenho nervos para suportar imbecís – e interrompendo-o indaguei: Por favor, revele minha ignorância, mas onde
é mesmo que fica o Haiti? Na África?
Oh!, que bobagem esta minha. Não, não fale. O Haiti fica na América Central.
-- Sim, mas...
-- Espere um pouco e anote minha
confissão: eu não sei os nomes de todos os países da América Central. Nem de
todos os da América do Sul. Cuba, certo, sei, e isto porque concorre com o
Brasil no mercado internacional do açúcar. Nas Américas, além dos Estados
Unidos do Brasil, o que existe? Admito a Argentina, por causa da carne e do
trigo. O Uruguai, vá lá admito, sua estrutura política é curiosa, e o que mais?
(O boiota bobeou e mantive a ofensiva)
O Haiti é uma ficção, meu caro. O resto é um conglomerado de terras e gentes
que – e me permita citar um verso atribuído a Homero – poll’ epistato erga kakos
d’espitatos panta. Quer que eu traduza? Perdão, pergunta tola esta minha,
decerto o amigo sabe grego. Para mim é muito estimulante encontrar pessoas que
saibam grego. Ou que, como eu, o estudem. Deixe-me contar episódio
interessante: não há muito, traduzi epainos
tolmes como “elogio da bravura” e um amigo meu, amigo muito querido,
sugeriu que eu substituísse “bravura” por “valentia”. Um absurdo, claro!
Expliquei a ele... Por acaso estou a entediar o caro amigo?
-- Não, não, de modo algum!
-- Mantive bravura, epainos tolmes a significar “elogio da
bravura” e consegui convencer meu querido amigo, aliás meu tio, tio Leonardo,
um namorador danado, diga-se de passagem. E, ele mesmo, um bravo. Seu único
defeito, se é defeito, era gostar de mulher. Epainos tolmes... Um valente não é necessariamente um bravo, um cavalheiro,
mas o bravo é necessariamente valente. Até para matar-se. O suicídio de tio
Leonardo prova isto. Bravo, bravura, são vocábulos que sugerem, além de
valentia, elevada nobreza, pureza de sentimentos, cavalheirismo, lealdade.
Conheço o caso de dois irmãos que se uniram para matar a mãe adúltera e foram
absolvidos. “Vocês agiram com bravura para evitar um mal maior”, disse-lhe o
Juiz. A palavra empregada pelo Magistrado foi precisamente bravura. Na hipótese
de outra palavra grega... Vejamos, por exemplo, paragenou. Tenho defendido...
Adivinhando que em seguida a paragenou viriam outros chutes nos
culhões, o estafermo levantou-se e disse: Perdão,
nobre deputado, adoraria permanecer, mas ainda esta noite tenho de saldar
outros importantes compromissos. Levantei-me e disse:
-- Irei ao jantar com imenso prazer
e fingirei surpresa ao ser convidado para visitar oficialmente a Itália.
-- A rivederci – ele despediu-se, o bofininho, e saiu e fui para a
janela: Lourdes poderia ter ligado o abat-jour
alaranjado e seria o sinal verde, eu poderia descer para o apartamento
dela, o marido não viria. Não, nenhum aviso favorável. Com certeza o idiota do
marido resolvera ficar em casa, grudado no rádio par ouvir o programa de Chico
Alves e aí a sinetinha tocou e imaginei que fosse Abelardo e era Zito. Trazia,
afivelada, a mascara de “assessor” e disse dispensar o conhaque que lhe ofereci
e me abespinhei: Deixe-se de sacanagem
que estou puto com um tal de adido da Embaixada italiana. Durinho, poseur, disse:
-- Eu não confundo amizade com
dever. Tenho declarações formais a fazer e devo fazê-las. Faço-as por decisão
do Itamaraty, onde se lamenta teu pronunciamento de hoje. Lamenta-se,
deplora-se, critica-se e determina-se
que não te externes mais sobre política internacional sem antes ser
aconselhado.
Desejei responder altivamente (“olhe
aqui, Zito, não sou funcionário do Itamaraty e usei , ao discursar, um
privilégio inerente à condição de representante do povo, e do povo baiano”) e
no entretanto o que fiz foi perguntar: Porra,
Zito, o que é que eu fiz demais?
-- Falou o que não devia.
-- Falei o que penso.
-- Não pense! No nosso team só os chefes pensam. Deputado Petrucci,
em política internacional o que o Presidente ordena é expectativa sem
perplexidade. Tudo está muito fluido. Tanto quanto se sabe, a frase é do
próprio Presidente: expectativa sem perplexidade, e isto significa manter o
bico fechado. Concordas, nobre deputado? Vejo que já começas a concordar...
Agora aceito o conhaque. Por que atacar os franceses e os norte-americanos?
Sobre a questão espanhola, bestalhão, dispomos de informações com as quais nem
sonhas. Se a França fornecer aviões aos republicanos, então o teu querido
general Franco irá para o inferno, com ou sem voluntários italianos. Há
negociações nesse sentido, sabias? Um mundo de coisas há que não sabes, nem eu.
Encolha-te, portanto. Muito bem, agora concluo o recado oficial: o Senhor
Secretário manda te dizer que quanto a mangas multiplique as cestas. Há certa
senhora amiga dele, que adora chupá-las. Mais ainda, falastrão: iremos à
Argentina em dezembro e estarás conosco, apesar do discurso de hoje. Estará por
minha causa, graças à tua performance em Londres, em Paris e em Roma.
-- Zito, você sabe que em Roma,
naquela primeira noite fui um fiasco, mas em Paris, reconheço...
-- Roma não deixou de ser divertido,
aquela maluquice de Milão, a do quadro.
E disse isto com afeto e estendeu-se
a mão e o riso simpático, talvez até fraterno. Debruçamos-nos na janela e senti
necessidade de falar sobre Lourdes: o apartamento dela ficava justo sob o meu.
Essa mulher me amou, senhores, e eu não sei porque. Para ter-me ao seu lado,
não só para os esportes do leito, corria toda sorte de riscos. É curioso. Ela
costurava cuecas e camisas para me ofertar. Também sabia fazer doces, frutas em
calda. Brincávamos como se fôssemos dos adolescentes. E, sobretudo, era uma
ouvinte perfeita, dando-me razão em tudo.
(Levei
você comigo para Buenos Aires, Abelardo, não esqueça e foram vinte ou vinte e
um dias e eu nada aproveitei. Você e Zito saíam e voltavam e eu preso naquela
cama de Hospital. Não me sobrevivesse aquela maldita caganeira e aqui, nestas
memórias, eu escreverei que o ano de 1936 foi um dos melhores de toda a minha
vida. Quanto o 1937, puta-que-pariu!
Escrevo, agora, 1937, algarismo por algarismo, e é como
se estivesse a compor a mais brutal de quantas conjunções numéricas existam.
Acreditasse em astrologia e “ciências” afins e diria que em 1937 o sol e os
nove planetas dele dependentes, os dois mil planetoides que zanzam entre
Marte/Júpiter/Saturno e sei mais lá o que, reuniram-se em assembleia e
aprovaram: “e tudo, absolutamente tudo, para
arrebentar Tônio Petrucci!” E arrebentaram, você sabe.)
SEXTA PARTE
1
O telegrama chegou no 19 de janeiro e Abelardo disse Eu invejo o senhor, e ficou com o documento na mão, lendo,
relendo. Era assinado pelo próprio Presidente da República, o Excelentíssimo
Senhor Getúlio Vargas. Quando ele se matou, 24 de agosto de 1954, eu fui ao
Catete, eu, seu adversário desde 1945, fui vê-lo e mesmo sob ameaça de
represaria políticas eu entrei naquela imensa fila de enlutados. Eu queria ver
um pedaço da tragédia e no Palácio, lá dentro, estava o grande homem morto e
ele gritava que não estava morto.
Senhoras e senhores, Abelardo:
segundo penso há mortos que apenas morrem, silenciam, desaparecem. Outros há
que, mortos, protestam contra a estupidez, e meu pai é exemplo. Eu vi o Getúlio
morto e compreendi que um homem, um grande homem, nem morto deixa de sê-lo. O
grande homem é um morto que é, que fala, permanece, intriga, desperta amor e
desperta ódio. Talvez por isso tio Leonardo preferiu não se mostra morto,
poupando-nos de sobressaltos, minorando minhas dúvidas. Ao grande homem, com
certeza, a morte não dá sumiço. A morte respeita-o.
INTERRUPÇÃO
– XIII
Por esta eu não esperava, Abelardo.
O velho escreveu um negócio retado, porreta mesmo. Papai, que era fã de Getúlio
Vargas, por causa da aposentadoria que ganhou, antes não tinha nada disso, você
sabe, gostaria de ler isto. Papai era um homem estranho, Abelardo. Ele acendia
velas sob um retrato de Getúlio Vargas. Mesmo antes da morte. Sim, ele gostaria
de ler esta parte do senador. Aliás, eu lhe digo, como você deixou Cris ler
tudo, também estes nossos bilhetes, o que eu acho uma sacanagem porque acabou com
o segredo do nosso trabalho, Narda também vai ler tudo, tô lhe avisando. Por
que é que ele é melhor do que ela, em que? Marluce.
Não posso de reconhecer aqui que ontem foi muito bom. Quando você quer, o
Senador tem razão, você sabe fazer as coisas. Reconheço. M.
A assinatura no telegrama não era de
um assessor qualquer ou do chefe da Casa Civil e sim do próprio Presidente
Vargas. Sua Excelência, em certo momento, abandonou seus graves afazeres para
me desejar “rápido restabelecimento e pronto retorno às lides parlamentares e
diplomáticas”. E eu disse:
-- Abelardo, você não calcula a
significação deste telegrama. Bobagem minha, você calcula. Saiba que, filho de
Deus, à medida em que cresço você cresce comigo. Tanto que você já pegou sua
achegazinha no Itamaraty. È um começo. Depois, eu lhe garanto, arranja o boa
coisa no Ministério da Fazenda, um posto-chave. Lá é que está o dinheiro.
-- Eu serviria melhor ao senhor.
-- Sei disso. O que dificulta é você
não ter diploma. Sei que vendem diplomas por aí. Investiguei, arranje um, eu
pago. Diploma de advogado, obviamente. (Interrupção
– XIV. Quer dizer que seu diploma é falso, Abelardo?) Quero dizer ainda,
Abelardo, que muito do prestígio que hoje disponho, prestigio considerável ou o
Presidente Vargas não me enviaria este telegrama, devo em parte a você. Isto me
alegra e sobretudo estou alegre porque me sinto bem melhor. Há dois dias que
não vou ao bacio. A goma fresca e o chá de folhas de araçá fazem bem, graças a
Deus.
-- E a erva cidreira.
-- Cidreira sempre ajuda.
-- O senhor já começa a ficar
corado.
-- O ânimo está voltando. E vamos ao
trabalho. Antes de tudo, redija-me um telegrama para o Presidente Vargas, agradecendo
os votos de pronto restabelecimento e, preste atenção, aspas, retorno às lides
parlamentares e diplomáticas, fechaspas. Aliás, ponha lides diplomáticas e
parlamentares, uma inversãozinha de palavrinhas, ham? Talvez que assim o
Presidente saiba melhor que minha ambição é representar o Brasil no Exterior.
Que cara é esta, filho de Deus? Entendo, Abelardo, entendo. O Presidente é
muito cioso de sua autoridade. Se escreveu “lides parlamentares e
diplomáticas”, não devo alterar... Corretíssimo, Abelardo! Conclua do seguinte
medo: aspas, o fiel amigo e devotado servidor de Vossa Excelência, de pé pelo
Brasil, assinado deputado Antônio Petrucci, fechaspas. Memorizou? Agora,
Abelardo, saia, por favor.
E Abelardo saiu e eu me disse “vou
mandar cópias desses telegramas para o Professor (...), coitado, ele já deve
estar caducando, tudo a se apagar da memória, bom para ele, muito bom”, e
também me disse: é isto, Tônio, que você precisa de aprender, antes de caducar,
aprender a riscar da memória o que não presta, o que causa remorsos, o que
envergonha, a dar cores vivas, de belas cintilações, ao que encoraja, ao que
enobrece, ao que alegra; ou seja, não há que ceder aos bons sentimentos tolos,
porque enfraquecem, mas você tem que os ter e fruí-los no sol de sua intimidade
mais profunda, que ninguém saiba, que ninguém veja; não esquecer, bobalhão, o
que Balzac ensinou através de Blanchon: “Para vergonha da Humanidade, quis
estreitar a mão da virtude e a encontrei tiritando de frio em um casebre, morta
de fome, perseguida pela calúnia, ganhando ínfimo salário e considerada como
louca ou excêntrica ou imbecil”.
Somente na segunda semana de
fevereiro, 1937, é que comecei a me alimentar com carninha passada, vagens e purê. Dia sim, dia não, bebia canja que
minha cozinheira, Engrácia, preparava com cautelas especiais, pouca gordura,
parcimônia nos temperos, e fui me fortalecendo.
A semana do Carnaval chegou e não me
senti seguro para atender a convites recebidos: os dias de fuzarca maior
guardei-os em casa, sozinho, apenas Engrácia a me assistir. Nas ruas do Rio o
povo cantava, de preferência, a marchinha “Lig-Lig-Lé” (um dos versos dizia:
“chinês come somente uma vez por mês”, noutros rimava-se Shangay com Butterfly)
e um samba cuja letra nunca esqueci: “Vestiu uma camisa listrada / E saiu por
aí. / Invés de tomar chá com torradas / Ele bebeu Parati / Levava uma canivete no cinto / E um pandeiro não mão / E
sorria quando o povo dizia / Sossega leão, sossega leão...” – e eu solitário,
vez que outra ligando o rádio, imaginava o que Zito estaria fazendo, em que
veadagem Abelardo se envolvera, ou não fossem veadagens físicas, não afirmo
nada (você sempre foi misteriosíssimo,
Abelardo!), onde Epifânia se encontraria, certamente numa patuscada
qualquer, ou talvez não, ela era sonsa o suficiente para aproveitar uma festa
como Carnaval e mostrar-se santinha diante de seus familiares, virgem bem
comportada que espera, sem afobação, o maridinho sonhado, e era na verdade uma
puta, completa, total, não tinha sexo e sim um cofre entre as pernas, a
amealhar meus mil-réis, gostosa, não nego, aquela bundinha de tanajura, uma
alvura excitante, e os seios eram perfeitos, controlava-os a pô-los rijos e se
num ou noutro, suponho, eu colocasse uvas moscatel, ela andaria e as uvas não
cairiam, mas, ingrata, mercantilista, não me visitou um dia sequer ao longo
daquelas semanas de caganeira, e já Lourdes, casada, arriscara-se quatro ou
cinco vezes pondo bilhetes debaixo de minha porta, e eram orações, e Lourdes
nunca aceitou um presentinho meu, nunca! Ou seja, a virtude existe. É difícil,
mas existe.
Lisa?
Lisa viria correndo, aposto minha
vida. Poucas palavras no último bilhete que ela me mandou. Julgava-se atacada
de febre tifoide, não poderia ir ao encontro marcado comigo, Jardim de Nazaré,
lembro, é muita a febre que deu em mim, e
não era tifo, era tuberculose, e rezei por Lisa, pedi um milagre a Deus, fosse eu
rico e daria um bom dinheiro ao pai dela, vá
com a menina para a Suíça, lá os ares são ótimos, aqui estão 100 contos, mas o
que é que eu era?
Eu era um simples deputado estadual
um simples professor de moral e cívica, um advogado que não queria advogar:
espirrava toda vez que era obrigado a ir ao Fórum, por causa da poeira que lá
havia, poeira e mofos, eu sofro de alegrias esquisitas.
Tenho virtudes. Poderia esquecer
Lisa, só cheguei a roçar meu rosto no rosto dela, a segurar-lhe a mãozinha, que
gostoso, a sentir sua coxa junto à minha. E nada mais ousei e orgulho-me disso.
Sim, tenho comigo algumas virtudes, mas, Meu Senhor Jesus, e outros, se não
posso viver sem eles? Em que o senhor
está pensando, assim tão distraído?, ela me perguntou e respondi: Numa ilha. Ela riu, não entendeu. É
difícil entender a solidão. Sempre sonho-me entre milhões de livros
acariciantes, amigos, papai tocando bandolim, tio Leonardo cantando.
Maluquices. Talvez uma espécie de compensação. Meus horizontes estão povoados
de gentes sem sombras, todos perdidos, todos sem esperanças, em certa medida
(excluo poucos) todos são iguais às gentes daquele quadro, mas (com exceção de
Abelardo) não sabem disso. Abelardo sabe, não diz. Ele saiu daquele quadro e
não ensinou o caminho a ninguém. É uma porra e é melhor eu mudar de assunto.
Estou muito confuso.
Sim, tenho virtudes. Eu ainda posso
entender, por exemplo, o Carnaval. Sei e sinto que o Carnaval é o povo a se
agitar em cores e em gestos e em vozes, com ingênua malícia, beleza brutal,
beleza que eu aplaudo porque é uma relutância
instintivamente, natural, nunca uma soma de intenções friamente
elaboradas. É com respeito que me recordo dos grupos de mulheres, homens,
crianças, com suas máscaras africanas, recobertos de palhas secas, e os pés
calosos nas pedras-de-fogo, entregues a contorses e grunhidos, tradição de
séculos a comandá-los, a dançar, a gritar, todos a se remexerem e tudo na busca
de uma grandeza de memória religiosamente preservada transmitida geração após
geração, e eu não sei se há negros ou negras no meu passado, não tenho certeza.
Ela não era negra, minha mãe, mas
seu pai há de ter sido amulatado. Imagino que o avô foi um potente negro
escravo que favoreceu uma sinhazinha desesperada, o chibiu em fogo, ou então
que a avó dela há de ter sido uma fogosa escrava emprenhada pelo dono, ou
capataz, ou o Padre, ou o Bispo. É fácil recompor a cena: de noite o homem
branco penetrou no quarto da negra, forçou-a. Ou talvez não. É admissível que
ela tenha querido, consumida de desejos, ou ainda que ele a comprou com um
metro de chita. Ou as duas coisas. O que não devo e não posso esconder é que de
tudo isto a mim foi legada uma marca: não esqueço que sonhei com Mariana negra,
um absurdo, Mariana era alvíssima não obstante amulatado o finado sr. Ambrósio,
um sonho louco, mas sonhei!
Quantas vezes, quantas e quantas
noites, meu Deus, eu era ainda um adolescente, implorei à Rosenda que me
deixasse entrar em seu quarto? Não foi nela, em Rosenda, que pensei, ainda
menino, lá em Santo Antônio Além do Carmo, quando bati minha primeira bronha? E
Engrácia? desde que ela foi trabalhar comigo não andei querendo me esquentar
com ela? E entre as duas, Rosenda e Engrácia, não houve Odete?
Foi ela, Odete, quem me levou o
bilhete de Lisa, desmarcando o encontro no Jardim de Nazaré. Foi, recordo bem.
Poucas palavras no bilhete, ... “agradeço a gentileza do senhor... acho que
estou com febre de tifo... me escreva, por favor, me escreva”... Coitadinha de
Lisa: todos, na rua, rua Banco dos Ingleses, sabiam que ela estava de
tuberculose; até Anália, cheia de caduquice, sabia da desgraça. Ela morreu, a
virtuosa Lisa, assim como uma borboleta vai ali e volta, pobrezinha: e eu não
tenho nem um retratinho dela. Quando Odete chegou com aquele último bilhete, eu
logo lhe passei a mão na bunda e disse você
já é uma mulherona, qual a graça?, ela se sacudiu muito engraçadinha, disse
Me chamo Odete, dona Lisa está muito mal, meus dedos entre as bochechas da bundona
dela, fazendo cosquinhas, e de novo se sacudiu, entre safada e surpreendida, e
de repente afastou-se.
Li o bilhete, disse Tadinha de Lisa, tadinha, e falei Chegue prá cá, coisinha gostosa, chegue.
-- Dona Lisa está muito mal.
Entendi que seria um erro forçar
novas cosquinhas e olhei para ela e tanto que compreendeu: enquanto Lisa era
uma esperança a morrer, ela, Odete, era desejo novo, vital, negra de boas
carnes, e prometi duas pratas e um sabonete francês e espere aí. Ela esperou, de pé, e rabisquei um bilhetinho-resposta
para Lisa, assegurando que ia rezar para ela ficar boa, com respeito e admiração e fé em Deus deputado Antônio Petrucci, nome
por extenso (para que o pai não imaginasse intimidades), e levei Odete para meu
quarto, venha ver umas coisas, bichinha, e
ela olhou a cama arrumada, o lençol alvo, de linho, olhou fascinada, decerto
dormia em esteira, e perguntei se gostaria de deitar numa cama como aquela e
respondeu com um oh! tudo branquinho!
-- Se deite, bichinha.
-- Agora não, doutor.
-- De noite você vem?
-- Não sei, doutor.
-- Além das duas pratas que lhe dei,
darei mais cinco e outro sabonete.
E duas ou três noites depois, Lisa
já estava morta, levei-a à banheira e lavei-a com água morna e ela foi para a
cama, e ria, dentes lindos, saliva de quem mastiga hortelã, e quando perguntei
se já era furada disse que sim abrira-se para um tio, em Antas.
-- Você engravidou, bichinha?
-- Não, doutor. Tio Crispim só me
deve o cabaço.
ESCLRECIMENTO
– XIII
Lu, querida, abandone a descrição do
remorso, Lisa e Lisa e Lisa, coisa muito falsa, e recomece quando ele
interroga: “Engrácia”, onde marquei com um xis.
No entanto, esta tal Odete existiu
mesmo. Em 1955 ou 56 ela apareceu de repente aqui em casa e disse um sermão
enraivecido – “o que semeia corrupção ceifará corrupção”, nessa linha – e o
finado se impressionou. Um pequeno escândalo que consegui contornar. A mulher
parecia uma louca. Ela não sabia a Bíblia, ela gritava a Bíblia.
Querida: quando a Narda procurar-me
para conversarmos, nada oponho. Estou à disposição, afeito, que sempre fui, ao
diálogo. E, saibam todos, meu diploma não foi comprado. Obtive-o, com
facilidade, no Estado do Rio. É também de público, se isto for afinal
publicado, o que depende de minha vontade, de ninguém mais, que insisto no
casamento. Marque a data. Salvador, 30 de maio de 1969. Abelardo
Engrácia? Sim, também Engrácia. Nela
reparei detidamente, quando veio trabalhar comigo. Negra, não, mulata escura,
pernas bem torneadas, e uma noite, acesa a luz do quarto dela, espiei e vi a
mulherona nua, os peitos soltos, mas Engrácia rezava com emoção idêntica à de
minha mãe quando o sr. Giuseppe demorava de chegar em casa, na Pituba. E isso
me fez recuar. Rezava pelo homem dela, preso como comunista, e jurava ser isso
uma falsidade da Polícia, um amigo dele sim, era, parecia ser, falava muito em
sindicatos, um amigo-irmão, e no dia seguinte, sem quê nem praquê, Engrácia
voltou a puxar o assunto: eu não poderia fazer nada pelo homem dela? E chorou.
Eu me retei com o choro e disse:
-- No momento certo eu agirei, e por
sua causa. Quem mandou seu homem não respeitar as barreiras, se fazer amigo de
gente ruim, quem mandou? Cada pessoa deve ficar em seu canto. Mas, vou agir
porque você é muito boazinha. E não há necessidade de chorar, minha filha. (Antevéspera do Carnaval, Abelardo, você já
tinha ido para Petrópolis, se é que você foi mesmo para Petrópolis...) Que
é que acrescenta você ficar chorando aí como um idiota? Isto me irrita,
Engrácia. Vá chorar em seu quarto!
E foi e nunca mais me disse uma
palavra sobre o desgraçado do sujeito dela, não duvido nada que engaiolado na
ilha de Ternando de Noronha, cercado de tubarões por todos os lados, ilha
vigiadíssima. Talvez lá estivesse também o sr. Artemísio, já idoso, lamentei
por ele, mas que jeito? Quem vai para a chuva vai para se molhar, quem não se
cuida leva um tombo. Em 1930, embora participando da Aliança Liberal e, assim,
se expondo, o Professor (...) me disse: Não
se meta nesse negócio de Revolução e nem fale contra. Diga a todo o mundo que
você está sentindo umas tonturas, uns calafrios, fraqueza nas pernas e vá para
bem longe, o importante é defender seu mandato, e fui para São Gonsalo dos
Campos, uma lindeza de cidadezinha, hospedando-me com familiares de Arimar,
clima maravilhoso: o piano que fora de mamãe estava lá e eu levei meses olhando
suas formas, sua cor. Era um Pleyel. Às vezes eu o acariciava, lembrava-me de
Arimar, tinha medo de tocá-lo. Até porque não sabia nada sobre teclas, pedais.
Aquele Carnaval do maldito ano de
1937...
Amanhã (eu pensei), se me sentir
mais forte, vou dar uma volta pelas ruas pra ver o povo pulando de alegria. Quem
quiser que não, eu gosto de Carnaval: é uma virtude brasileira. No ano passado,
lembro, pretendi me fantasiar de cossaco, um cossaco como Tarass Bulba, o que
teria sido ridículo e perigoso, sim, Zito me advertiu bem, bastante perigoso
além de ridículo, cossaco lembraria a Rússia bolchevique, e, de resto, como
descrito no romance, o sr. Bulba (1) era um tipão, poderoso, alto e forte como
meu pai e usava barbas enormes, negras, e assim como eu sou, alto mas magro
como eu sou, fraco que não aguento uma caganeira, e aspiração fantasista será
algo estapafúrdio, mas darei umas voltas, amanhã, não sairei de Copacabana.
-- O senhor já pode comer mantinhas?
-- Uma ou duas, Engrácia, e coentro
picado. Será que cebola faz mal?
-- O povo fala bem de cebola.
E saí, manhã de terça-feira daquele
Carnaval, e sentei num bar de Copacabana, uma ruazinha que dava para Anenida
Atlântica, e ali umas mocinhas mascaradas brincavam comigo, a mais gordinha
sentou em meu colo uns instantes, fiquei de pau duro, primeiro tesão após a
caganeira, ela gostou da pressão, se mexeu, quis segurá-la, ela fugiu com as
outras – mulher é um bicho que não presta! --, todas rindo, acenando adeus, não
consegui beber o resto do suco de laranja-lima, e ainda excitado voltei para o
apartamento. Lourdes para me aquietar? não podia ser: fora com o marido para
Niterói. Epifânia, como chamá-la se ela não tinha telefone e Abelardo estava
ausente?
--
Engrácia, minha filha, venha cá. Ouça com atenção que vou lhe fazer uma
proposta de enorme importância: se eu ajudar a tirar seu homem da cadeia, você,
de agradecimento , se deita comigo?
--
Doutor, eu não posso.
--
Hoje só, hoje é Carnaval.
(1)
– O romance “Tarass Bulba”, pouco conhecido no Brasil, é do russo Nicolau
Gogol. Ele viveu e morreu antes da
revolução russa.
E com os olhos disse que se me
abrisse as pernas não seria mais a mesma respeitada, e acrescentou que só
entendia relações sexuais quando havia, de parte a parte, um grande amor. Esqueça essa bobagem de amor, que diabo é
amor?
-- É quando a gente sente falta se
está longe e fica contente se está perto.
-- Tá bom, eu boto só nas coxas.
Você faz o papel de um manequim e lhe dou trinte mil réis, ham? trinta mil
réis, Engrácia, trinta mil réis!
-- Não posso, doutor. Acredite em
mim.
-- Como é o nome do seu homem?
-- Honório, doutor.
-- O tal amigo-irmão dele, o
comunista, como é que se chama?
-- Eu não disse que é comunista,
disse que gosta de sindicato. E se chama Afrânio.
Ordenei que fosse para a cozinha e
bebi um conhaque e temi que os intestinos arrebentassem de novo, arrebentem, merda!, e bebi e bebi e
dormi e acordei com papai gritando Não,
Tonio, não a calça de pijama melada de esperma. Bom, mas como na vida
acontece, todo Carnaval tem prazo certo. E aquele acabou. Reaparecer na Câmara
em grande estilo, esse meu empenho principal nos primeiros dias de março.
Recordo que estudei regulamentação de emendas que nós, da maioria, no ano
passado (1936) aprováramos: uma sobre demissão de funcionários do serviço
público, demissão sumária, atos subtraídos à apreciação do Poder Judiciário;
outra, estabelecendo que militar participante de movimentos subversivos
perderia não só a patente, mas, e com ela, todas as regalias. Isto, explico,
para que o Tribunal de Segurança Nacional pudesse tratar do “caso Luiz Carlos
Prestes e afins” com o rigor necessário, sem prejuízos de bacharelismo e
tecnicismos formalistas. Eu inflacionei meus apontamentos com citações de J. E.
Burgess, W. H. Malock, Eichorn e outros em moda e mais não consegui do que
perder meu tempo. Assim porque um dos vice-líderes do Governo, com menos
ciência jurídica do que a minha, no entanto mais próximo do Palácio do que eu,
já se mostrara interessado no assunto.
Procurei-o em casa, buscando um
acordo, uma associação, e ele não quis, o fominha, e ouvi atentamente as pífias
explicações que me deu. Então, acortinando minha aporrinhação, eu disse: Aprendi esta noite muito mais do que em anos
de estudo. Fez-se modesto, o pilantra: O fato de eu já ter reunido um certo número de ideias a respeito das
emendas, não impede que profiras o teu discurso. Diga o que pensas e ensejarás
um debate salutar. Acredito que debates de bom nível sempre reforçam o
prestígio do Legislativo. Aceitas um cafezinho? – e mandou que a mulher
trouxesse café e licor, um licor de ameixas, e na rua, matutando, eu me disse: O sabidório quer é brilhar às minhas custas, eu apresento minhas propostas ele as
dele, e na hora da votação eu fico de neném e o sacrista empanturra-se de
“sim”, de “aprovo” e etc.
-- Que ele se estrepe!
Em casa decidi meter na cesta a
papelada e Eichorn e Mallok e Burgess que
me compreendam, desta vez não tenho oportunidade, acordei fora da hora, é
sempre oportuno saber com exatidão o momento de meter o rabo entre as pernas, e
disse a Abelardo: Ademais, há esta
boataria toda, conspiração sobre conspirações, é uma zorra, filho meu, ninguém
sabe de nada e todo o mundo finge que sabe de tudo, e de novo eu vou me reduzir
à insignificância antiga. Vamos jantar na Colombo?
Encolhi-me, anunciando aos colegas
que estava a sofrer de periódicas crises renais violentíssimas, mas crise
mesmo, naquela época, primeiro semestre de 1937, só tive uma, e de natureza
moral: eu estava num bonde, noite de São João (bela na Bahia, no Rio uma
merda), a burra da Epifânia me havia faltado vespertinamente. Então, ofendido
nos meus brios, assalto-se o dever de ir ao centro da cidade, uma travessa da
Senador Vergueiro, procurar o pai dela, boa
noite sr. Pereira Castro, eu me chamo Antônio Petrucci, o deputado federal,
claro que o senhor me conhece de nome, Petrucci. Muito bem. A filha do senhor
era garçonette num barzinho ali na
rua São José e eu botei ela de funcionária da Biblioteca da Câmara, um
empregão, mas esqueça isto, não estou alegando nada, estou aqui para defender
virtudes essenciais. Dê uns tabefes em Epifânia, meta-a num convento, porque
não é a virgenzinha que o imagina; é, senhor, o senhor me releve, é uma puta e
uma ingrata!
Pensei na boa ação, não a cometi.
Quem um dia, teve para comigo um gesto assim?
Eis que, como já disse, até papai e
tio Leonardo fizeram mistérios comigo.
2.
É enervante o Abelardo. Entulhava-me
a cabeça com “diz-quês”, a Força Pública de São Paulo isto, fulanos em Minas
diziam aquilo, fuzuês em Porto Alegre e no Recife, os comunistas outra vez com
as línguas de fora, os integralistas isso e aquilo, bó-bó-bó e bá-bá-bá, grande
movimentação na Embaixada Alemã.
-- Porra, Abelardo, me deixe! Estou
a fim de paz de espírito, não me meta nessa joça. E nem se meta!
Ele sempre cheio de novidades,
cotucando aqui e ali, incapaz de sentar a bunda num sofá, filho de Deus você é um mosquitinho elétrico!, e um dia pôs um
exemplar de “O Estado de São Paulo” em minha frente, edição de 21 de setembro
de 1937 assinalados os trechos que eu devia ler, e li. Li e tomei um susto:
-- Você devia, aos poucos, me dizer
do que me tratava e não jogar esta coisa em minha cara. Este editorial é
atrevido, é sério, é um desafio ao Doutor Getúlio. Esta gente idiota, cretina,
quer impor o doutor Armando de Salles na Presidência. Ele é paulista e não pode
ser. Pra que eleição agora? Por que não uma simples prorrogação dos mandatos,
os nossos e os deles? Engrácia, vá para a
cozinha! Meu Senhor do Bonfim, mais esta! Êta paulistas malucos... Está
confusa a joça? Bom, mandatos prorrogados e acabou o imbróglio. E não, não querem
assim, não querem paz, ordem, tranquilidade. Querem é baderna. De que maldita
tocas saem esses ambiciosos, esses fanáticos? Estou cheirando a coisa ruim,
Abelardo. Este editorial ameaça o Governo da República com rebelião. Taí o dedo
dos comunistas, filhos-das-putas! Palavra de honra, eu dava o rabo para saber o
que pensam e o que fazem os generais Dutra e Góes Monteiro.
-- Aquele repórter do “Correio da
Manhã” me procurou e pediu uma declaração do senhor. Como o senhor acha que a
Bahia...
-- Despacha o maluco, Abelardo. Ele
que vá entrevistar a mãe! Falatório nenhum, filho meu. Nada de aparecer meu
nome, nem em batizado de bonecas. Eu tenho minha tática – não me meter – e
quanto a você, você não é bobo. Vá marombando por aí, ouvindo e vendo as
coisas, falando muito para não dizer nada, eu estou de resguardo, a velha
bronquite, talvez tenha de voltar para São Gonçalo dos Campos.
E escrupulosamente cumpri meu
programa de prudências. Semanas e semanas se passaram sem que eu desse um passo
em falso. Às segundas e sextas, quando eu chegava com Epifânia, via cortinas do
apartamento de Lourdes a serem mexidas, bolidas, e era ela, ciumenta mas digna,
nunca tratou do assunto; às quartas e sábados andava à toa pela cidade, ora
pegando um bonde, ora uma marineti (hoje se diz ônibus, influência americana),
ouvindo as gentes a dizer besteiradas e, também, coisas sábias, que o povo é
assim e aí estão os “ditados” a provar o que afirmo, de um lado o boçal “o
futuro a Deus pertence”, de outro o genial, genialíssimo “desejo em dobro o que
me desejares”: Você esqueceu Engrácia,
Abelardo? Não pedi que você investigasse ela? Tenho minhas cismas... Às
terças e quintas dava uns rápidos pulinhos na Câmara, fingindo-me ruim das vias
respiratórias, distribua uns alôs, tudo
andando bem? e na excelentíssima esposa como vai? e voltava depressa, quase
sempre em carro-de-aluguel (hoje se diz táxi, influência americana), e em casa,
apijamado, trancava-me no gabinete, falava com Zito pelo telefone, depois
traduzia Teogne, ele sim, dificílimo, também uma espinha na minha garganta, e
aos domingos, sempre em casa, livre dos açodamentos de Abelardo, dos jornais,
da boataria, dos silêncios de Zito, eu me refastelava . Sozinho, Engrácia de
folga, adotava um regime excelente: vinhos franceses, sardinhas portuguesas,
pão de centeio, salame dos bons, italianos, leituras leves pela manhã, e dormia
de tarde, que gostoso, e às oito horas, estourando oito e quinze da noite, se
conferido aceso o abat-jour alaranjado, eu descia para o andar de baixo,
Lourdes me esperando, o bom marido em Niteroi (ele dormia lá, na casa de uma
irmã, após jogo de pôquer), e eu e Lourdes... Perbacco, que mulher, que gula!
Referiu-se ao marido, uma vez, e
disse:
-- Eduardo é um homem triste. Ele só
se distrai jogando.
-- Gasta muito?
-- Não, é jogo com as irmãs e um
cunhado, todos os domingos, religiosamente. Ele sempre foi assim, triste. E
piorou quando o nosso filho morreu.
Aí ela chorou muito, lembrando o
filho, e fizemos amor várias vezes, juntos até de madrugada, ouvindo discos bem
baixinho, como dois namorados. Ela gostava de beijar as pontas dos meus dedos.
E me ajeitava nos seus braços como seu eu fosse um menino. De repente dava uns
gritinhos, esfregando os seios no meu rosto. Botava gotinhas de vinho nas tetas
e pedia: chupe, mame.
A Lourdes eu contei tudo.
ESCLARECIMENTO
– XIV
Lu,
amor, Narda é realmente lindíssima,
inteligente e bastante culta. Nenhum exagero nas suas informações. Ela está
encontrando no Senador coisas que me passaram despercebidas.
Amor, querida, não hesite mais: eu
quero casar com você. Marque a data, abandone a datilografia, compre seu
enxoval. Eu pago tudo.
Abelardo
P.S. O Senador tinha razão: eu não
gosto de adiar o que sei inevitável, a perda de tempo me incomoda. A.
INTERRUPÇÃO
– XV
Meu, o que você disse de Narda, ela
disse de você, inteligentíssimo e muito charmoso. Me falou do quadro que o
Senador toda hora fala e me levou ao apartamento dela para me mostrar uma
reprodução. O quadro existe, portanto, não é mentira do velho. O nome, eu copiei,
é “La ville inquiete”, o autor é um belga, esqueço o nome. Eu disse: estas
pessoas estão vivas, não estão mortas e aí aconteceu uma coisa que lhe conto
como foi. Depois que eu falei naquelas pessoas do quarto, Narda botou a mão no
meu rosto e perguntou: não é quente, não
é viva minha mão? E depois a outra e perguntou: você sente o calor, você sente a vida?
Estou grifando porque ela falou
assim mesmo. Respondi: Sinto, amor, sinto.
E ela disse: É o calor de Deus!
Todo mundo hoje criando religiões
malucas, ela também?
Lhe digo, meu, lhe digo, que senti o
ridículo daquilo mas senti maior um desejo danado e fui para cima, que o
apartamento dela tem quartos em baixo e em cima, e ela ficou lá, na sala,
olhando para fora, para a noite. Não tinha quase nada para se ver, quase tudo
escuro.
O apartamento dela é na Vitória, o
lado que dá para o mar. Estava o mar mais escuro que já vi, quase nem se viam
as luzes da ilha e fiquei nua, na cama, esperando ela. Fiquei nua a primeira
vez, lhe falo com honestidade. É verdade que a gente já se beijava (umas
vezes), dançando lá em casa (mamãe sabe que sou assim, me compreende), mas cama
mesmo ia ser a primeira vez. E esperei. Eu chamava bem baixinho, “Narda, Narda”
e me sentia como com febre.
Ela não vinha. Quis gozar me bolindo
e não consegui: eu sentia uma falta. Como o Senador diz sobre o quadro: a quem
quer dar uma boneca à menina e ela não aceita e não recusa, e a bola e o
menino. Que menino não ama uma bola? Que menina não ama uma boneca?
Então, me parece que umas duas horas
da manhã, eu cheguei até a escada e fui descendo e vi ela lá, na sala, e havia
perfumes de incensos. Estava nua e eu nunca vi mulher mais linda, mais
perfeita, Abelardo! Sentava-se no jeito oriental e rezava. Eu desci e fiquei
perto, fiquei escutando o que ela dizia, mas ela dizia negócio em alemão, me
pareceu. Aí eu pensei assim: vou para mais perto dela prá ver se ela sente meu
cheiro. Cheguei pertinho e me boli, me boli muito, mas ela nada de me dar atenção.
Eu disse alto porra, Narda, porra! E
ela rezando, ou sei lá o quê, vivendo em outro mundo.
Eu mudei a roupa, quero dizer, vesti
o vestido e saí. Estava um aguaceiro, me molhei toda, eu nervosa, o carro não
quis pegar, demorou, oh! Deus, foi um inferno: o porteiro do edifício me
ajudou.
Por que diabo essa mulher apareceu
em minha vida?
Estou fossentíssima, nervosa, muito
nervosa, hoje quase gritei com mamãe, que tudo, meu, foi uma decepção.
Você vai deixar Cris ler isto, você
gosta!
Quando eu ainda estudava tinha um
professor que mandava a gente entrevistar pessoas. Sobre o que tinham visto ou
ouvido de mais interessante, mas isso que a gente não esquece. Entrevistei
papai... Mas não quero parecer o Senador. Papai me disse que Jesus foi a pessoa
melhor com a qual ele viveu. Eu não sei porque escrevo isso. Acho que é porque
Jesus disse a papai que ele, Jesus, não era bem compreendido. Que ele não era
mistério nenhum. Que era preciso arrancar os mistérios que cobrem com verniz
sujo a simplicidade. Você gosta desses mistérios, Abelardo. Eu não gosto.
Estou muito confusa. Por favor, me
deixe trabalhar.
Marluce.
Narda não vai mais ler coisa
nenhuma! Ela me fez uma desfeita. Eu esperei horas, no quarto, depois me
ofereci, já lhe contei, me ofereci! Complicam tudo, porra, complicam tudo!
3.
Em dia da primeira semana de
novembro, não sem me pregar um susto, o marido de Lourdes me surgiu no
apartamento. Vestia uma roupa escura, mas suas primeiras palavras me
aquietaram:
-- Vim me despedir do ilustre
vizinho. Fui transferido para Santos.
Eu sabia que o bom Eduardo Justino
era funcionário do Ministério da Fazenda, mas perguntei: o amigo vizinho trabalha onde? A resposta veio com pormenores
dispensáveis e indaguei: É o caso de eu
me oferecer para, como deputado governista, ajudar o amigo vizinho? Ele deu
de ombros, numa espécie de “tanto faz / tanto fez”, e sentou-se e aceitou a
taça de conhaque. Quis saber se podia fazer umas perguntas. Todas, eu respondi. Todas.
-- Vai dar em quê esta política que
esta aí? Tenho pena do Brasil.
-- Vejo que o estimado vizinho é um
patriota. Falarei com toda franqueza, mas peço reserva: estamos a beira de uma
crise e os paulistas são os culpados. É como pensam os altos chefes militares
com os quais tenho conversado. O nosso querido Brasil não estaria
experimentando as dificuldades atuais se meu discurso de agosto tivesse sido
bem avaliado pelos paulistas. Não foi. Em essência, meu caro, eu preguei o
diálogo, a união nacional, a conciliação, porque, e aqui repeti o nosso Ruy
Barbosa, não se cura doido cortando-lhe a cabeça.
-- Foi Ruy quem disse isto?
-- Foi.
Ah, afinal um manso com quem podia
conversar:
-- O estimado vizinho aceita outro
conhaque?
-- Estou de saída. Minha senhora
pede desculpas por não ter vindo também. Está nervosa e compreendo. Eu sou do
Maranhão, já palmilhei este nosso Brasil de norte a sul, mas ela nasceu aqui
mesmo e Santos será uma aventura.
-- Fique mais um pouco.
-- Não posso.
-- Que o senhor e sua senhora sejam
felizes em Santos. Tenho certeza de que nada perturbará a felicidade de um
casal tão unido, tão exemplar.
Já na porta o coitado me mandou a
pergunta: O senhor acha que haverá
revolução no Brasil?
-- Não, não haverá. Tenho informações
fidedignas. Como informei, tenho estado com altos chefes militares.
Lourdes
vai ficar mais calma, Ele disse, antes de sair, e eu pensei: É outro que está com medo, e lhe dei adeus.
Quando o sr. Eduardo Justino morreu,
depois da Guerra, eu já era senador, recebi convite para a missa de mês e fui a
Santos e de Lourdes ouvi a frase que nunca vou esquecer: Agradeço muito as alegrias que você me deu, Tônio. Eu disse a ela:
-- Você foi o lado alegre de minha
vida.
Ah, quase nós nos casamos. Não pôde
ser porque ela estava amarrada a um jovem muito necessitado de proteção.
INTERRUPÇÃO
– XVI
Meu,
Querido, Abelardo, proíba Cris de me
telefonar, imploro! O blá-blá-blá dele contra Narda vai terminar me botando
maluca. Pra Cris: me deixa, tá? Quem
sabe de mim sou eu, tá?
Meu,
Mamãe encucou com isso de casamento.
Mãe foi educada num tempo em que casar era o principal. Ela acha você joia, eu também,
apesar de algumas coisas, e você sabe bem. Tá, casamento. Se é para o bem de
todos... Se é para Narda ver que não sou rejeitada. Vou viajar! Sair daqui, me
sumir.
Marluce.
SÉTIMA PARTE
ESCLARECIMENTO
– XV
Aos
leitores:
em consequência de gravíssima
moléstia de origem nervosa, ocorrida após o nosso casamento, tão emocionante e
alegre nas primeiras semanas, minha querida Marluce está cega. Doravante, pois,
eu e Cris, sem pressa, datilografaremos o que resta para publicação.
Devo esclarecer que pretendi aceitar
sugestões de Cris e não divulgar a última “Interrupção” datilografada por
Marluce. A verdade é que Lu foi agredida por violenta emoção ao ser rejeitada
por Narda pela segunda vez e isso causou, segundo a própria Narda, o
desencadeamento de fatores etiopatogênicos relacionados com o glaucoma. Daí a
cegueira.
Perguntei-me se deveria atender a
sugestão de Cris. Acho que não. Este livro perderia e, com ele, eu,
autenticidade, comprometendo todo um trabalho meu – o mais interessante que já
realizei na condição de alguém apaixonado pelo metier jornalístico. E, nesta altura, este trabalho é tão meu
quanto do Senador. De resto, não foi a própria Marluce quem, sob insinuação
minha, defendeu a tese segundo a qual tudo aqui deve ser feito às claras? Não
foi ela quem disse que “se o Senador está fazendo o strip-tease dele nós devemos fazer o nosso?”
Vou, assim, reproduzir a última
“Interrupção”.
Cris: é hora de você parar de jogar
toda culpa em Narda. É verdade que, após o casamento, ele nos seguiu da
Guanabara à quantas outras cidades estivemos, Lu e eu. Saiba, porém, como a
última “Interrupção” prova, que aqui, na Bahia, ao voltarmos, quem teve a
iniciativa do desgraçado reencontro foi
Marluce e não Narda.
Outra coisa: Narda tem o direito de
entrar nesta casa, deve entrar com toda a liberdade e observar Luce o tempo que
julgar necessário, gravar o que ela quiser, etc., desde que está atuando como
médica e, se meu julgamento não me engana, uma médica altamente qualificada.
Quando ele achar que já dispõe do suficiente para informar a um grande
especialista em São Paulo, nós viajaremos. O pior não é, agora, a cegueira. O
pior é que Lu está se autodestruindo.
Salvador, 26 de outubro de 1069
Abelardo
INTERRUPÇÃO
Abelardo, Cris, onde foram vocês, em
que diabo de buraco se meteram?
Quase meia-noite, por que vocês me
deixaram sozinha?
Ela me telefonou agora, telefonou do
apartamento dela, dizendo que eu tinha telefonado prá ela, de tarde, deixando
recados, e eu telefonei mesmo. Eu vou lá, não importa que agora seja de
madrugada. Eu vou lá.
1.
O porteiro do edifício também
soubera do Golpe – dez, novembro, 1937 – e teve o desplante de subir até meu
apartamento, a repetir alegremente a terrível nova que Abelardo já me havia
passado pelo telefone. O parvo do porteiro, um cretino, disse: Doutor, a grande novidade está na rua. Me
disseram que os soldados do Forte de Copacabana estão cheios de armas... (
E feliz, o filho da puta) É verdade que o
senhor perdeu sem emprego de deputado, doutor?
-- A deputação, senhor porteiro,
não é emprego. É o exercício de um mandato cívico, é ser povo e falar em seu
nome, honra a poucos concedida. E agora retire-se, uma vez que devo me
comunicar sigilosamente com o Ministro da Guerra.
-- Pensei que o senhor não soubesse
de novidade.
-- Eu sabia disso que o senhor
porteiro chama de novidade desde ontem, à noite. O Presidente Vargas
comunicou-me sua decisão e também as Forças Armadas. Agora, por obséquio,
retire-se.
Ele saiu e eu fiquei sozinho.
Pensei: fechado a Câmara esses sujeitos me arrebentam, preciso de calma, e
olhei o telefone pendurado na parede, aparelho preto incrustado numa caixa
marrom, de madeira; a parede é azul, eu me disse, De que cor é a morte, Padre Matta? e ele me olhou e disse Ninguém sabe, menino Tonho, e me arrebentam e este telefone não chama, ninguém me
chama, ninguém me diz nada, ninguém teve a gentileza de um aviso prévio; Zito,
o sacana, cadê ele? Com certeza que desde ontem ou anteontem sabia da
estupidez, poderia me telefonar, e nada, se tivesse telefonado, se comigo
houvesse dividido as informações reservadas às quais tem acesso então à
desgraça do desemprego não se teriam reunido as violência destas surpresas todas,
e de novo olhei o telefone, maldito eis que silencioso, desejei pegá-lo,
usá-lo, mas a quem pedir informações seguras? de quem solicitar detalhes?
As emissoras que sintonizei
transmitiam músicas patrióticas e, de quando em quando, a 5ª Sinfonia de
Beethoven, Uma rematada heresia, haveria
Arimar de dizer, Uma rematada heresia!
Use as frestas, Tônio, saia disso, fuja, e morreu, Arimar, os bons morrem e
os maus sobrevivem, os nada-de-nada nem vivem e nem morrem, passam, o sr.
Ambrósio, por exemplo, uma merdinha de vida, e me beijou as mãos quando doei as
oficinas a ele. Abelardo, ao menos, tem mistérios, é intrigante, há de vir, com
certeza. É bobagem a gente estabelecer categorias, milhões que sejam, nelas
tentando encaixar as pessoas, tudo muda, tudo muda rapidamente, mas há coisas
constantes: Abelardo virá. Não devo fazer nada sem antes ouvi-lo, ele é hábil
bastante para sintonizar com a mediocridade e o que está aí, vitorioso, é o
espírito da mediocridade: por que fechar a Câmara, Meu Senhor Jesus?
Fechassem o Senado, aquilo é um
reduto de sobas, só serve mesmo para apascentar alguns velhos e muitos
velhacos, Muito bem, Presidente Vargas,
muito bem, indômitos generais e almirantes, se se trata, senhores, de acabar com certas
eleições espúrias, se se trata de, paralelamente, dar uma satisfação ao povo,
ao nosso querido povo, vamos fechar o Senado. Uma Nação precisa de quem
trabalhe duro, como trabalham os deputados, e se, entre nós, deputados, há
alguns descarados, -- e há, Excelências, há os que não vão nem ao Plenário e
nem às Comissões! – que sejam postos pra fora do Brasil, que sejam banidos e
vão plantar cana no Haiti ou calombudas bananas na Guatemala. Mas, Magníficas
Excelências, sejam também premiados os que trabalham com exação e sentido de
brasilidade! Quanto a mim, Excelências, bem educado que fui por minha mãe e meu
pai, e aprimoradas minhas tendências para a vida pública pelo inesquecível
padrasto que tive (calçar o povo brasileiro a preço de custo era o seu radioso
sonho!), indaguem o que fiz e tenho feito dentro e fora do País, e um automóvel buzinou forte, podia ser
chamado para mim, fui espiar,m não era, e recuei um pouco, devo espiar mas não
me expor nesta janela, eu disse ao porteiro que ia telefonar para o Ministro da
Guerra, se eu me inclino demasiado ele me verá e pensará que sou um mentiroso,
um espalha petas, e pensará certo, quase nada tenho feito senão mentir, oh!
Deus, meu senhor Deus, como deve estar sendo torturado o filho do deputado João
Otero, e o homem de Engrácia e todos os Artemísios! De que é feita esta gente
que enfrentas perigos, não mente?
Pensando bem, há três categorias de
pessoas: os cagados, como mamãe; os paridos, como eu, Lourdes, Lisa, Lucinha,
como Engrácia, e tantos outros, e os forjados em aço e fogo, produtos dos
amores de Deus com a Natureza, papai, tio Leonardo, o sr. Tarass Bulba, mas estou é me enganando com esta
teoriazinha de merda, estou é querendo mudar de assunto, porque na verdade me
aporrinha ter mentido tanto. Por que não disse à Epifânia o verdadeiro nome de
meu pai, por que falei em Bucéfalo? Que mal faria se eu dissesse Vincenzo, Epifânia, meu pai se chamou
Vincenzo? Mentiras, sempre mentiras, e agora entendo: as mentiras são
componentes de minha couraça, me protegem, eu preciso de proteção, de
segurança, vou é construir a Maior das Grandes Mentiras e caminhar os caminhos
que ela me indicar. Todos não fazem a mesma coisa?
Ainda na janela, recuado, vi a moça
de casaco bordeaux passar no outro
lado da rua. Mais importante que o casaco bordeaux
eram as tranças negras, brilhantes, cabelos sedosos, a moça caminhava e Lisa
estava morta. Quero falar dela. Lisa era meiga, bonitinha, gostava de bater
coxa quando nos sentávamos no mesmo banco do bonde. Eu a teria feito feliz,
juro. Filhos, com certeza desejaria filhos, claro,
amor filhos, eu sou estéril, minha querida, mas adotaremos duas crianças, um
casalzinho, e no entanto Lisa está morta! Cadê o Deus bondoso, alegre,
compreensivo, de quem tanto o senhor me falava, tio Leonardo? Por que me fez
assim, duro às vezes, muito sensível outras vezes?
-- Mas, querida, eu vi o modo como
tio Leonardo olhou o sexo de mamãe, os seios dela, eu vi fogo nos olhos dele,
juro!
-- Bobagem, Tônio, você está
imaginando – Lourdes me disse. Um homem como seu pai, Tônio, um grande homem,
jamais mulher nenhuma o trairia, nem em pensamento.
-- Você tem certeza?
-- Absoluta. Não é verdade o que
você conta sobre ele?
Excelentíssimo Senhor Presidente Getúlio
Vargas, Excelentíssimo Senhores Generais e Almirantes, eis que é chegada a hora
de reagir contra tudo que conspiram contra a humanização da mulher.
Defendamo-la, uma e todas (excetuadas as mães comprovadamente adúlteras) para
que possam crescer e cantar, e cantem e procriem novo mundo com os atributos
que lhes são inatos: beleza, bondade, singeleza, ternura. Olhai, Excelências,
olhai aquela mocinha de casaco Bordeaux,
simples e bela com suas tranças negras e longas, olhai-a, peço, é como um
animalzinho ferido, talvez estejam danificados os seus pulmões, mas nela ainda
há vida, há amor, há delicadeza em seus olhos, e bebi mais e me assustei com o
repentino aparecimento de Abelardo. Estava agitado e deixei que falasse à solta
e fingi-me calmo.
-- O senhor soube de outros détalhes?
-- Não, Abelardo, não soube, não sei, e
nem se afobe por isso. Numa hora dessas, num momento assim, a afobação leva
água aos moinhos dos inimigos. A gente fica imaginando coisas. Ponha-se à
altura dos acontecimentos e pare de andar de um lado para o outro, como barata
tonta. Sente-se.
Uma vez meu pai não veio para a nossa
casa da Pituba. Lembro-me de mamãe chorando, me lembro de tio Leonardo
acariciando o rosto dela, enxugando as lágrimas dela, usando os dedos para
fazê-lo, e fui para a praia, não queria ver aquilo, e quando voltei cada um
estava em seu quarto, o dele no quintal, e não dormi, e manhãzinha, o sol
nascendo, surpreendi tio Leonardo olhando minha mãe nua, deitada, as pernas
escancaradas, aquele brutal grauçá negro, e eu chamei tio, tio Leonardo, tio,e ele, olhos em fogo, me carregou para a
praia e gritou e se atirou nas águas geladas, em mim o demônio da suspeita.
-- Tome um conhaque, Abelardo.
-- Eu ficaria mais agitado.
-- Sim, Abelardo, vejamos: que fecharam
a Câmara, o Senado, as Assembleias Estaduais, sei, e o que mais? Botaram também
éclair nos chibius das mulheres? É o
que falta.., Puta vida esta! Que mais, Abelardo, que mais?
-- Hoje, de manhã, afirmando-se desprestigiado
porque não conseguiu defender o Legislativo, o deputado (...) seguiu para Minas
Gerais.
-- Não “seguiu” porra nenhuma, Abelardo,
ele fugiu. Ele nunca foi com minha cara
e nem eu com a dele. Logo, ele fugiu. É um maricas. Que mais?
-- A confusão é geral.
-- Que a confusão é geral, sabe-o o
próprio porteiro do edifício e não lhe pago e nem lhe protejo para ouvir
comentários desse tipo. Quero fatos, Abelardo, fatos! O rádio disse que a
Câmara está cercada, você viu?
-- Vi, fui ver, tropas da Polícia
Militar, soldados...
-- Polícia Militar?
-- Muitos oficiais e soldados, vários
caminhões...
-- Será que não se trata de uma medida
temporária? Por que não o Exército? Por que apenas a Policia Militar? Isto me
cheira melhor. Será que a intenção do Doutor Getúlio não é somente a de dar um
punhaço no Senado, chutar uns governadores rebeldes, botar os paulistas na
linha, ham? Me coça pensar... As dúvidas envenenam, Abelardo, saiba disso e
então vamos agir, vamos nos colocar à altura dos acontecimentos. Em primeiro
lugar me passe um telegrama ao Doutor Getúlio. Anote: aspas, Presidente Getúlio
D’Ornelas Vargas, bote o d maiúsculo, bote por extenso a coisa na base de
Excelentíssimo Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Doutor
Getúlio D’Ornelas Vargas, e apure se o
“Ornelas” dele tem um ou dois lês, ou eles, como dizem aqui. Vejamos, tenha
calma. Penso num telegrama de aplausos, nada de rastaquerismos. De apoio, sim,
só nos limitaremos ao apoio. Nada de abaixar as calças. Honra não se mercadeja.
Anote: aspas, Face anarquia a se
instalar País vírgula decisão patriótica Vossência vírgula adotada momento
exato vírgula corresponde e sintoniza superiores interesses da Nação ponto À
disposição Vossência vírgula servidor fiel vírgula de pé pelo Brasil vírgula
cordial et respeitosamente vírgula deputado Antônio Petrucci vírgula bancada da
Bahia ponto fechaspas. Está bom?
-- Não sei se ecoaria bem a referência a
deputado. Deputado Antônio Petrucci... O senhor não deu importância ao que eu
informei: a Câmara está fechada, o Senado está fechado. Se fosse uma medida
temporária, eu acho, o deputado (...) não teria seguido para Minas Gerais, como
fez.
-- Ele fugiu, o pulha, não me avisou
nada, ele fugiu! Não me repita mais que seguiu. Calhorda, covarde, ele fugiu.
Ele tentou arrebentar nossa iniciativa sobre a moratória para os pecuaristas.
Agora que está na desgraça, agora que se atreve, o pigmeu, a enfrentar o
Presidente da República e os Excelentíssimos Chefes Militares é chegada a hora
da forra. E isto, em política, é uma ciência e é uma arte, porque não se pode
arranhar a ética. Vou à forra contra pulhas como Moraes, o Teixeira e outros.
Quero pisá-los sem contemplação, porque se pudessem fariam o mesmo comigo; você
não acha que me pisariam?
-- O que acho, se o senhor me permite, é
que ao invés do telegrama o senhor deve mudar de roupa e ir ao Palácio, como os
outros.
-- Ainda não, ainda não é hora de
aparecer. Entendo que pode haver reação dos paulistas e dos gaúchos, assanhando os restos. Há muita gente
assanhada por aí e os gaúchos, você sabe, são uns malucos. A gente precisa de
ter sempre uma bússola e em política a boa bússola indica o Norte da prudência
e da informação. Se o fechamento da Câmara se confirmar vamos ter que manobrar
muito. Por exemplo: uma Secretaria rendosa no novo governo baiano, pois está
claro que vão chutar direitinho o governador Juracy. Ou então teremos de
descobrir outras janelas – e me sonhei,
talvez até tenha falado, eu me sonhei Presidente do Banco do Brasil, diretor
disso e daquilo, e só voltei à realidade quando Abelardo perguntou:
-- Deixo o deputado?
-- Você acha que devo anular minha
condição?
-- Eles já anularam. Ao invés de
deputado, proponho cidadão...
-- Você está maluco? Cidadão lembra
jacobinismo, é esquerda feroz, é comunismo. Eles pensam assim, devemos pensar
como eles. Ponha ex-deputado. Sim, ex,
uma manifestação de respeito, de acatamento. E não passe o telegrama agora.
Melhor esperar um pouco. Vou descansar, mas não saia. Detesto ficar sozinho.
Fique por aí escutando o rádio e de olho em Engrácia. Ela me causa cismas.
Não consegui deitar mais do que uns
quarenta minutos, umas coisinhas chatas cosidas na memória, formingado: o homem
de dona Jerusa apareceu de lepra e aí ficou-se sabendo que a burra abria as
pernas para “seu” Servílio, o galego do boteco de Amaralina, e “seu” Servílio
era amicíssimo de tio Leonardo, mas isto não tem nada a ver com o que eu estava
contando e deixei o gabinete direto para o telefone. Moraes, meu querido, tudo bem? E a excelentíssima esposa? Ótima! Estou
sabendo... Antes de tudo a Nação, e sicranos e beltranos, todos perplexo,
abestalhados. Ou fingiam a perplexidade e o abestalhamento. A girar
nervosamente o dial do aparelho de rádio, alemão, Abelardo esforçava-se por
captar as ondas da estação menos prejudicada pela estática. Lentamente, Abelardo, lentamente, afobação
dá em nada. Importante era ouvir o que o Presidente Vargas iria dizer. De
repente, a voz: Atenção, Brasil,
brasileiros e gritei: Aí, Abelardo,não
mexa mais neste rádio. Ele vai falar. Falou: Trabalhadores do Brasil... e imaginei um homem exausto, mas seguro
de si. As palavras que disse agora se embaralham em minhas recordações. Falou
da anarquia da produção, da moeda aviltada, no comunismo ateu e ameaçador, na
gritante falta de operosidade do
Legislativo que se entregava à politicalha, e por esse caminho seguiu, frases
curtas, medidas, e finalmente afirmou: implantava-se no País, um Estado Novo,
devotado ao trabalho e ao bem estar social e sobre a decisão do Governo o povo
se manifestaria, em plebiscito. Eu disse a Abelardo: Acaba de ser assinada a sentença de morte do Parlamento. Vesti o
paletó, Abelardo perguntou onde eu ia e fingi um ar despreocupado, de quem tinha
algo na cabeça, e informei Vou a um
cinema, me distraio, esfrio a cabeça e volto logo... Fica entendido que a
decisão do Governo é também uma vitória nossa. Sempre combatemos o comunismo e
a politicalha imunda e sempre defendemos um Estado Forte. Tente uma ligação com
Zito. Localize-o. E saí e dei umas voltinhas, a cabeça cheia de vento,
figurações absurdas, e quando voltei Abelardo disse que não conseguira
encontrar Zito. Você vigiou Engrácia? Vi
três mulatos em atitudes suspeitas na esquina.
-- Ela saiu do quarto.
Abelardo bebeu um conhaque e bebi cinco
ou seis. E de repente eu perguntei: Enquanto
andava tive ideia de escrever um conto. Ou um romance. Um enredo pavoroso.
Ouça: um irmão que ama a mulher do próprio irmão. A mulher o tenta, mas,
honrado, ele resolve matar-se. E mata-se! Você acha a história plausível?
-- Eu já vi um filme francês com esse
enredo.
-- Francês? Não era italiano?
-- Francês, com certeza. Mas, o senhor
sabe, em literatura o importante...
-- Abelardo, você é um rapaz de
qualidades notáveis, magníficas! Eu vou dormir. Fique à vontade, sempre
espiando a Engrácia e dê umas olhadelas naqueles três mulatos. Esta noite é
crucial e os comunistas podem tentar um arrebentemento contra mim.
Uma manhã bonita e Abelardo já se
encontrava na sala quando apareci. A cópia do telegrama congratulatório
preparado, letras certinhas, pediu que eu conferisse palavra por palavra, e
mantinha o ar apatetado da noite anterior. E apatetou-se mais quando avisei que
iríamos à Câmara, eu precisava apanhar umas coisas minhas. E ele disse: Acho que seria perigoso ir à Câmara. A
Vigilância é enorme. Estive lá ontem, estive hoje, cedinho. Repliquei: Dou muita importância ao que você acha,
Abelardo, mas enquanto tomo café, por obséquio, vá à rua e me passe o telegrama
ao Presidente Vargas. Ele obedeceu e Engrácia me surgiu com aipim muito bem
batido com manteiga, um manjar, e bebi café com leite e avisei: Vou sair com Abelardo e você só abra a porta sabendo antes quem é, e chame
todo mundo de excelência, num tempo desses a gente deve saudar com continência
até o soldado raso, e bote um brioso antes, entendeu? Falei assim e ri, e
ela estava com cara de quem tinha rezado a noite toda, se fé removesse
montanhas o homem dela não apenas estaria solto e sim teria asas, um anjo
negro. Será que existem anjos negros? Nunca vi, nas igrejas em que estive,
honestamente, nunca vi, Engrácia, minha filha, estão ocorrendo no País
transformações da maior gravidade e o Presidente da República, que ontem de
madrugada me telefonou, me honrou com missão secretíssima (mais ou menos
nesta altura Abelardo retornou) e estarei
ausente meses e meses e, lógico, não poderei mantê-la, talvez tenha que passar
meses no Haiti.
Abelardo, surpreendido, perguntou:
-- Doutor Zito... Ele conseguiu a
Embaixada do Haiti?
Ignorei a pergunta cretina e continuei
com Engrácia: Vou lhe pagar dois meses de
ordenado, faça sua trouxa e procure outro emprego. Não lhe será difícil. Você
tem méritos, minha filha. Você, além de mulher jovem, de boas carnes, é uma
cozinheira de mão cheia, e ela saiu e indaguei: Quem me garante, Abelardo, que em nossa ausência ela não aceitaria aqui
comunistas aliados de seu homem?
-- Uma medida de precaução, acho.
Certo. Pague três meses a ela. E que não
me apareça. Você também se comove quando alguém chora? Falo de alguém do povo.
Eu me comovo. Não, não falei com Zito e esqueça o Haiti, por favor.
-- O senhor é um homem admirável.
E ele afastou-se e pagou os três meses
de Engrácia. Vi Engrácia na rua ela e sua trouxa e perguntei: Alguma vez, Abelardo, eu lhe falei de Lisa?
Refiro-me... Esqueça. Ela morreu tuberculosa meses antes do nosso casamento.
-- Tuberculose é a pior doença.
-- Não, é a lepra. Talvez as duas se
equivalham. Se todos os sábios do mundo unissem seus esforços...
-- É uma ideia generosa, senhor, mas
impossível. Um engenheiro francês que conheci, e eu era bem jovem, me dizia que
as impossibilidades dos hojes não devem impedir ninguém de sonhar. Venha, vamos
a Câmara. Não pretendo reocupá-la, filho meu, quero apenas que me devolvam o
que se encontra em meu escaninho, o único retrato que tenho de meu pai, uns
apontamentos... Não há perigo. Tenho comigo aquele telegrama do Presidente
Vargas.
-- Temo pelo senhor.
-- Acredito em você, agradeço, mas confesso
que já estava pensando noutro assunto. Uma maluquice enorme: pensava em
arranjar lugar num avião da “Lati” e, com uns berros, libertar pessoas
aprisionadas num quadro que vi em Paris. Uma maluquice. Você tem esses excessos
de imaginação?
-- Raramente, senhor.
Abelardo não exagerara: o edifício da
Câmara Federal estava ocupado com soldados portando sabres, baionetas, cavalos
cagando nas escadarias. Por inadvertência, presunção, ingenuidade,
desinformação, tudo isto combinado, eu me dirigi à escadaria principal, a
estátua de Tiradentes lá em cima, projetando sombras que eu descobria pela
primeira vez, sombras que (julguei) me seriam protetoras, e os degraus de
pedras cinzentas me orquestravam um convite, “ Venha, Tônio Petrucci, valoroso,
venha, possua-nos, galgue-nos”, e, ademais, em meu bolso havia o telegrama do
Presidente Vargas, estandarte, passaporte, salvo-conduto, e eis que comecei a
subir os degraus e um tenente me barrou os passos -- Para trás, paisano! – e nesse momento eu deveria ter perguntado: Por favor, onde está o oficial mais
graduado? Não falei assim, falei: Sou deputado e...
-- Era. Hoje não há mais deputados,
senadores, nada assim. Para trás.
-- Vim apenas buscar os meus pertences e
não grite comigo! Vou retirar-me desta Casa do Povo com a mesma altaneria com
que nela ingressei. O senhor leia o telegrama do Presidente Vargas – e o
tenentezinho, com cara de paraibano, ter-me-ia dado voz de prisão as a tempo e
a hora não chegasse um Major simpático, educado, fino, gentil. Abraçando-me (Calma, senhor, calma, a medida é de ordem
geral), Major distintíssimo, ele conseguiu restituir-me ao meu modo de ser
autêntico uma combinação de comedimento, bom senso, realismo, e pedi: Leia este telegrama, Major! e leu,
reparou na data, murmurou “janeiro, janeiro”, e disse que o Presidente me
honrara ao assinar tal documento, Mas,
compreenda, temos ordens a cumprir, ordens novas.
-- Evidente! (O tenentezinho me olhava com raiva) Eu desejo apenas o retrato de
meu pai, minhas anotações...
-- O telegrama é de janeiro, estamos a
11 de novembro, mas acredito na amizade do senhor com o Presidente da
República. Proponho que vá ao Palácio, fale com o Presidente, o Presidente
falará com o Ministro da Guerra e virá uma ordem especial. Agora, como o
tenente ordenou, para trás. E o tenente tem razão: para trás é para trás. (Você, Abelardo, naqueles momentos
dramáticos, você foi de uma covardia revoltante! Onde estavam os restinhos de
hombridade que vivem em todos os homens?) Abelardo estava numa esquina...
ESCLARECIMENTO
– XVI
Corte a parte final deste capítulo,
Cris. O Senador jamais compreendeu que eu lhe seria mais útil solto do que
preso. Se ele fosse detido, quem adotaria as providências? Tornou-se
indispensável levar Marluce a São Paulo. Almoce aqui. Eu virei no fim da tarde.
Uma preocupação de Narda é a seguinte: se Marluce conversar com você sobre o
passado não se emocione. Grave tudo. Sobre as memórias: recomece a partir do
capítulo seis.
Abelardo.
Assim como faço. A.
6.
Eu disse a Abelardo:
Depois do que houve da manhã, me
faça o favor de esquecer aquilo do exemplo português. (Esclarecimento – XVII. Aos leitores: Após o incidente na Câmara, o
Senador julgou que talvez valesse a pena conceder uma entrevista. Nela, como me
disse, iria sugerir um Poder Autoritário, mas com a Câmara funcionando, de
acordo com o modelo português. Desenvolveu essa ideia nos capítulos 2 e 3, nos
quais, em meio a teorizações delirantes, me faz agressões as mais injustas. Ele
chegou a pensar em conseguir a Embaixada do Brasil em Portugal! A).
Falar em reabrir a Câmara agora é
uma besteira. Portugal e Câmara que se estrepem. Tenho que pensar noutro
esquema. Eu vou andar por aí, Abelardo, faça novas tentativas de localizar o
Zito. Bolas, ele não é invisível – e andando pelas ruas de Copacabana, cuidado
de não chegar muito perto do Forte, convenci-me que se o Flores da Cunha não
houvesse feito, em o mês passado, aquela gauchada idiotas, insistindo no
levante da Brigada Militar, talvez não sofrêssemos nada do que está
acontecendo. Importante, nessas maluquices de sublevações, é o Exército. Ah!,
esses militares... Eles não ajuízam as impossibilidades dos civis, acicatam,
querem definições na tampa. Arriscam-se (alguns) e querem a pulso que a gente
se arrisque. Em que baú meteram o bom-senso? Quero e exijo que compreendam meu
direito de não ser igual aos outros, eu fui feito de matéria estranha, eu fui
feito de grandes afetos e carinhos, eu fui feito de misteriosas invocações a
misteriosos Deuses e de repente a ponte de ternura que Lisa me estendeu foi
assassinada pela morte / -- Compartilho
do luto do senhor, de sua excelentíssima esposa, de toda a família; desejei
visitar Lisa, mas temi a emoção que certamente causaria à pobrezinha; digo que
se o senhor perdeu uma filha amantíssima, eu perdi uma esposa, eis que iria
pedi-la em casamento /, é melhor que não entre naquele cinema, lamentável
que Margarida Max tenha encerrado sua temporada no Teatro Municipal, do
contrário iria ouvi-la outra vez. Que voz! Dizem-na melhor do que Melba, pode
ser, mas já li que Melba tem é um canário enfiado na garganta, um canário
mágico; é melhor que eu vá mesmo a um cinema, uma comedia de Carlitos, ou não?
Com certeza, agora, enquanto estou aqui, diante desta árvore, outros deputados
estão no Palácio a parabenizar o doutor Getúlio, é uma ignomínia, uma ausência
de decoro, nesse Carnaval de impudência ninguém me verá; limitar-me-ei, por
enquanto, no telegrama congratulatório e permanecerei aqui até dezembro,
janeiro, nessas alturas / Que destino
teve Creusa, internada no Convento da Lapa? / se eu não conseguir, mas
trilhando caminhos corretos, uma boa achega, volto para a Bahia, até porque a
Bahia se tem defeitos, tem suas virtudes, aquela brisa é agradável, raramente
cessa de correr, é bom respirá-la, e de novo para a árvore eu disse: este é um
tempo horríveis privações para quantos acreditam no Homem e nas suas
virtualidades; há vendavais quando deveria haver brisas cálidas; há maremotos
onde antes eram mansas e azuis as águas, puta-que-o-pariu!, e os espinhos
sangram as rosas de que são parte e que devem proteger, e é isto o que está
acontecendo, é isto! Perversamente os espinhos sangram as próprias rosas! / Mon ami, mon cher Tonio: il est mort.
Rosenda. / Devo voltar ao
apartamento. Memórias assim me enfraquecem, me desarmam. Volto para o
apartamento. Não. Entro num bar, árvore, peço licença para telefonar, falo com
Abelardo / O que, Epifânia? Quem lhe
falou sobre Lourdes? Abelardo? O porteiro do edifício, esse canalha adesista?
Deixe-se desses salamaleques sentimentalóides que você não é disso; e quanto a
mim, saiba, meu território afetivo já tem dona e rainha, e me abra estas
pernas! /, e ele dirá se encontrou Zito ou não. Por enquanto o certo é
ficar aqui, me meter no meio do povo, não dizer nada mas ouvir muito, até
porque fui impulsivo com aquele tenente,
mas atendi o Major, homem de boas maneiras e gentil, severo, sem dúvida, claro,
um Major não pode discutir o que manda fazer um coronel. Árvore, ouça: no dia
em que, no âmbito militar, uma ordem se tornar questionável pelo escalão
inferior então tudo estará perdido. É assim que penso, senhor Major, mas não
pretendia violar as ordens, eu queria de volta o retrato de meu pai, um retrato
ovalado, é um único retrato de meu pai que existe, foi tirado na Itália,
semanas antes de ele embarcar para o Brasil,
(uma outra foto, Abelardo, feita
em Nápoles, mamãe e o sr. Giuseppe devem ter roubedo, destruído, queimado), note
o casario que faz paisagem, e se o senhor devolver a foto fará o favor de notar
que, do lado esquerdo, em baixo, há ainda a indicação do estúdio fotográfico,
Sterzi, o fotógrafo se chamava Sterzi, nunca esqueci porque um dos vinhos
italianos razoáveis que bebo é o Valporicella-Sterzi. Diga de novo para o
Major, Árvore, diga que de Nápoles ele saiu em busca de São Paulo, mas não
esteve a contento, brigou com um primo, e foi para a Bahia com tio Leonardo, e
maluco pelo mar e as coisas do mar, tio Leonardo embrenhou-se Pituba adentro e
meu pai passou a morar na rua do Tijolo, uma pensão mais ou menos para
proletário e ali minha mãe fazia as vezes de doméstica, e ele trabalhava no
couro, trabalhava e cantava e foi trabalhando / cantando / bebendo, a verdade é
que ele bebia muito, foi assim que se casou, levando minha mãe para os fundos
de sua lojinha no Taboão, uma casa encardida, me lembro, limo verde-escuro nas paredes do quintal de terra sempre
molhada, eis que para aquela área convergiam as calhas dos sobrados laterais,
mas nós não nos demoramos ali, isto quanto a morar, papai decidiu transformar
em casa atijolada a palhoça de tio Leonardo na Pituba, e foi ótimo,
maravilhoso, eu que era sempre doentinho passei a quase não ter doenças, meu pai não parava de cantar (“Oh!
Mari! Oh! Mari”) e seu italiano ele o abastardava cada dia mais, nem bem
italiano, nem bem português, e íntegra, poderosamente íntegra, a sua alegria,
íntegra a sua ingênua brutalidade, e me beijava na boca, e em mim persistia o
travo da bebida que o excitava para uma ternura só possível aos de grandes e
generosos corações, e isto o senhor há de perceber desde que olhe detidamente o
retrato, e uma força, senhor Major, que eu não sei mesmo definir, uma força a
deixar rastros em cada coisa apalpada em cada caminho percorrido; o senhor ri,
Major? Está bem, é explicável que o senhor me ache um homem estranho, isto eu
não discuto / Senhor doutor Enádio Pontes
de Azevedo: com estas linhas, meu prezer pelo infausto passamento do
eminentíssimo mestre e amigo, Professor (...). Transmita minhas condolências a
Lucinha, sua esposa fiel e minha afilhada, e à inditosa Creusa. Aguarde para
breves dias, o decreto de promoção já assinado pelo Ministro mas dependente de
publicação no “Diário Oficial”, cujo exemplar enviarei. Espero estar presente à
missa do trigésimo dia, se as circunstância políticas tanto me permitirem. Do
patrício, amigo e admirador, Antônio Petrucci /, nunca discuti com quem quer que me considere
esquisito, eis que ninguém me entende. Você, não, árvore, você entende porque é
árvore. Vocês, as árvores, trocam mensagens secretas. A vocês aves contam tudo
e de tudo os pássaros sabem. Se dependesse de mim eu entenderia o que me
rodeasse, eu saberia da alma de cada pessoa, mas isto é impossível, eu sei,
isto é uma maluquice, porque há um erro de essência na formação do Ser Humano.
Por que não um tempo de Vincenzos e Lisas, a prolongar, desde o princípio, outros Vincenzos, outras
Lisas, outros Leonardos, outros Arimar, outros Artemísios, outras Rosendas e
tantas e tantos outros mais? E não me venha dizer que seria monótono. Por que?
Acaso não seríamos solicitados a distinguir, e mesmo até a nos conflitarmos,
entre diferentes formas de beleza e de virtude? Não têm, elas, virtudes e
belezas, diferentes gradações? Arimar me disse, recordo: Não há um azul, Tônio, há azuis; não há um sorriso, há sorrisos; não há
amor, há amores. Entendeu?
-- Quero fósforo, uma caixa.
-- Dos de cera?
-- Não importa.
No barzinho, esquina da Hilário
Gouveia com a Avenida Atlântica, resolvi espiar os que me cercavam, apanhando
palavras ao acaso. Um sujeito disse que o Governo devia era prender não um ou
vinte deputados, devia era “meter todos os cornos, sem exceção, no xilindró, e
pau neles”, e saí, e me disse: entro num cinema ou volto para casa, imprudente
é andar sem destino, a ouvir cretinos que não entendem de nada e opinam sobre
tudo, sobre o que há de mais sério, sim, o povo é perigoso, neles se mesclam
Artemísios, Ambrósios, Honórios, Engrácias, e órios escondidos em catacumbas e ácias disfarçadas como domésticas, e um dia se juntam arrombam a
cerca e tudo estará perdido, Vossa Excelência tem razão, Excelentíssimo Senhor
Presidente Vargas / Rosenda, minha cara
amiga. Beijo seus olhos e neles, beijo suas lágrimas de dor e de saudades. Tônio,
/ este povo maluco, ignorante, merece é porrada, isto eu sempre disse a Arimar,
um grande amigo, eu a favor de Teogne, ele contra; Teogne, Excelência? Um
grande poeta grego. Vossa Excelência quer ouvir um trechinho dele? Não quero
bancar o importante dizendo em grego, vou direto no português, Excelência:
“Calça com o tacão a plebe imbecil, pica-a com chuço bem pontudo e prende-a com
jugo bem apertado, porque jamais encontrarás gente mais amiga da servidão,
entre os mortais que o sol ilumina”, e eu, meu amor, eu vou ficar desempregada?, se
Epifânia ainda não me telefonou para fazer uma pergunta de tal jaez é porque
está se torrando de medo. Por que agora me recordo de insignificâncias como
Epifânia? Meu mal, meu grande erro, foi jamais ter conseguido a amizade dos
poderosos deste País, amizade férrea e não isto de bom dia, Excelência, pois
não, Excelência, certamente que sim, Excelência. Um defeito de caráter, má
influência do Professor (...), e não só isto, e sim principalmente o peso dos
antes. Hoje eu não consigo despir a armadura com a qual sempre me protegi e me protejo
de todos, por isso eles não ficam nus em minha frente, têm medo que eu os
golpeie, tanto quanto os temi e temo. Até com Zito tenho minhas reservas, medos
armazenados em minhas mentiras, meus silêncios, minhas ambiguidades. Se um
pouco de minha infância contei a Zito, não lhe falei do tio Leonardo olhando
minha mãe nua, escondi meu ódio ao sr. Giuseppe. Não lhe falei de Lisa, e
entendo: se de Lisa lhe houvesse dito algo eu o faria de modo tão romântico,
tão terno, tão sem minha armadura protetora, que ele, Zito, me consideraria um
fraco. Abelardo poderia saber tudo de mim, e jamais desejou, sempre me impediu.
Uma vez fomos juntos ver os túmulos de meu pai e de Arimar e chorei e disse
versos de Gothe: “Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de sol / Eles não
poderiam vê-lo. Se na borboleta noturna não houvesse qualquer coisa de morcego
/ Sua vida pouco duraria”, você entendeu?
E fingiu olhos úmidos e nada
perguntou. E me irritei e disse: Vamos,
depressa, cemitérios me deprimem. Você é sepulcral, Abelardo! Ele simulou
não compreender a alusão, simula ainda, simulará sempre. Epifânia? Sequer sou
íntimo dela, espiritualmente. Sirvo-me, pago o que devo pagar e, depois do
gozo, logo depois, out, se vista,
estou com sono, todo nervoso necessita de muitas horas de sono e sou um grande
nervoso. Vá, saia. Eu devia ter explicado a Zito que sou um grande nervoso, e
não lhe revelei quão vadia é a minha imaginação (pouco percebeu depois que vi o
quadro, em Paris, a mudança do meu comportamento), nem lhe confidenciei que,
por vezes, reúno em meu gabinete grandes personagens literários, meu pai num
canto, tio Leonardo no outro, ambos em cadeiras de balanço, Arimar... e agora,
aqui, neste caminhas, eu, Tônio Petrucci, sou um bagaço, nada mais do que um
bagaço. Se eu for ao Palácio do Catete, em este momento, é assim que vão me
considerar. Vou é para casa.
Ele estava intranquilo, Abelardo, e eu
pensei: demitiram-no. Decerto falou com Zito e recebeu a má notícia. Isto é bom
(pensei), o desemprego é garantia de que ficará ao meu lado; dependente, não me
deixará sozinho. Perguntei: Falou com
Zito, conseguiu? Respondeu: Ele está
no Paraguai. Exaltei-me: Trepando
paraguaias, o cretino! É o fim. Onde é que anda o patriotismo dessa gente?
Tomara que pegue um cancro! Que mais, Abelardo, fale. Ele bebeu um resto de
conhaque: Trote contra o senhor. Voz de
homem, dizendo que é militar, fazendo ameaças. Disse que não passará em brancas
nuvez a defesa que o senhor fez em favor de militares que apoiaram Prestes,
Luis Carlos Prestes, em aquele discurso do ano passado. Voz fanhosa...
-- Tolice, um trote maluco. Bom, que
mais?
-- Ouvi no rádio que alguns deputados
foram presos. Muitas manifestações de apoio ao Presidente. Todos estão
aderindo.
-- Menos eu. Não vou combater, mas
igualmente não vou aderir sem mais aquela. Por que aderiria, por quê? Fico
espiando até Zito voltar. É o que convém também a você. Durma aqui, hoje. Está
esfriando lá fora. O clima anda doido. É verão e está esfriando. A maluquice é
geral. Você quer sair? Saia. Apanhe meu guarda-chuva e não venha cedo. “Se na
borboleta noturna não houvesse qualquer coisa de morcego / A sua vida duraria
pouco”, isto é mesmo de Goethe? Isto não é de Uexkull? Apure isto amanhã. E,
agora, saia.
Ele saiu e abri uma garrafa de Graves. E pensei em Lourdes. E pensei em
minha mãe. É curioso: além de ser excepcionalmente mulher de cama, Lourdes era
maternal. Gostava de cortar minhas unhas e os muitos cabelos que sempre tive
nos ouvidos. Gostava de cantar (e docemente) para que eu dormisse, e eu dormia
não mais que meia hora, quarenta minutos, que de novo em mim se enroscava,
ávida de gozo ciumentíssima contra Epifânia, muito a querer que eu chupasse os
peitos e eu chupava. Ao abrir a segunda garrafa de Graves, tentei ler uma noveleta policial, “Rafles”, muito primária,
e na janela ergui minha taça a saudar a memória do sr. Lauzimier. Bebi por
Anália, por Rosenda, pelo sr. Ambrósio, por Lucinha, e Arimar me apareceu, taça
na mão, pedindo sua parte, e fomos longe e convivemos com estranhas pessoas da
Índia, da China, da Grécia, e deitados numa nuvem nós vimos Deus, alegre,
acendendo girândolas,
--
Acuda-me, sr. Bulba!
E
meu grito paralisou o cão de Epifânia, e o sr. Tarass Bulba, bravo cossaco,
postou-se ao meu lado e disse com voz de Charles Boyer: Este cão para mim é pinto. Mato-o com um sopro. E o cão de Epifânia,
monstruoso pastor alemão, zanzou de uma lado para outro e sem aviso-prévio
saltou com agilidade contra sr. Bulba, querendo abocanhar-lhe o pescoço, nos
olhos e na baba um prometimento de sangueira. O sr. Bulba, porém, esquivou-se à
direita e com sua espada especial decepou-lhe uma das patas trazeiras, e o cão
passou a correr, ganindo, pela estepe gelada, e era um cão-grauçá, um cão
assassino, e outra pata já nascia. E implorei: Monte em seu cavalo, sr. Bulba, mate aquele cão, é um cachorro de puta
ruim, mate-o pelo amor de Deus.
-- Não invoque o amor de Deus para as
pequenas coisas, Tônio, não O amesquinhe! – exclamou tio Leonardo e eu insisti:
Mate o cachorro, sr. Bulba!
--
Não me compraz matar cachorros, sr. Petrucci, e a um homem como o senhor
assenta melhor não o medo ou o ódio irrazoável, mas a singeleza. Um compatriota
seu irá dizer o que agora digo: decerto o senhor perdeu os olhos que tinha
quando era criança e agora, à beira do negro poço, o senhor se debruça e nada
alcança. Acompanhe-me. E você, Leonardo, seja o cavalheiro da senhora Lourdes.
--
Enganaram-me, sr. Bulba. Prometeram-me um mundo bom, calmo, belo, compassivo, e
este mundo não existe. Falaram-me de um Deus alegre, bom, compreensivo, e este
Deus não existe.
Bucéfalo,
inacessível, todo poderoso, espreitava-nos da montanha mais alta do mais alto
mundo. Como se fora uma das estátuas daquele quadro que vi em Paris, e o sr.
Bulba a puxar-me entramos num barco amarelo-ouro, guirlandado de muitas flores
azuis acácias brasileiras, vermelhas papoulas da Holanda, azaleias puras
nascidas na Itália, e o rio em flor, nosso barco a deslizar entre buquês de
ciclames, vitórias-régias, anêmonas, e alcançamos a praça embandeirada, e o
barco era então imponente carruagem escoltada pelos mais adestrados cavaleiros
de Siena, fanfarras, sirenes, sirenes,
--
Por
que tão cedo, Abelardo?
-- Porque a “Folha do Rio” fez uma
perversidade com o Senhor.
-- Você me acordou. Eu estava sonhando,
eu ia ser coroado Imperador de Siena, a mais bela das cidades italianas.
Ele não me pareceu, na oportunidade, um
homem dado a aumentos ou diminuições. Apossei-me do jornal e fui para o sanitário.
Evacuei ralo, mas evacuei. O pasquim com eleito, inserira meu nome extensa
reportagem sobre “o pacífico e ordeiro fechamento da Câmara e do Senado”.
Lia-se que “o único incidente de nota” se dera, na porta da Câmara, “entre o
ex-deputado pela Bahia, sr. Antônio Petrucci, e brioso oficiais da Polícia
Militar”, e dominei minha ira o suficiente para a barba e o banho e ao
ressurgir na sala, em robe-de-chambre,
gritei para Abelardo: Isto é uma
capadoçagem e vou exigir daquele Major que desminta tudo, explique o que
aconteceu. Sim, eu vou exigir. Porque esta nota o que faz é me apontar como
rancoroso inimigo do Poder. Abelardo disse: Eu acho que não estamos em condições de exigir nada de ninguém. Podemos
pedir uma retificação. E eu admiti: Está
bem, me faça um esboço, uma coisa hábil. Não confessarei nunca um sentimento
que não abrigo, o da covardia. Mas, ao mesmo tempo, não sou um temerário. Faça
o esboço.
Abelardo sentou-se. Leu de novo toda a
infamante reportagem e antes que começasse a escrever eu perguntei: Você acha que há em curso um plano para me
arrebentar? Lembre-se: o trote de ontem, esta reportagem de hoje... Você acha?
-- Se o ex-deputado Otero não tivesse
sido preso, eu diria...
-- Não, Abelardo. O Otero me fuzilaria,
é um fanático, me fuzilaria, tudo nos quadros de suas leis, mas não chegaria a
tal requinte de indecência. O Moraes, idem. Ele é bastante forte para me esquecer
num momento destes. O Teixeira? Sim, ele sim. Nele conflitam-se ambições
desmedidas e impossibilidades que o desgraçam. Por isso ele é invejoso, é mau,
traiçoeiro, é um homem sem calor humano, não olha nos olhos de ninguém,
alegrias e remorsos são sentimentos que jamais viveu, o riso que ri é de
víbora, é escorregadio, infiel, a maldade lhe corre nas veias e o envenena sem
que disso se aperceba. Vai morrer seco, ainda que gordo, barrigudo, porque a
maldade seca por dentro, esturrica por dentro, gela por dentro. Ou morrerá por
excesso de fezes no coração, no cérebro, nos pulmões, e os filhos terão
vergonha do nome herdado. Moraes, João Otero, Artemísio, homens assim, são
capazes de agredir a tapa, a facão, a chicote, e assumem o risco. E pagam o
preço. Dou-lhes as costas sem medo de ser esfaqueado.
-- Este senhor Artenísio...
-- Artemísio, Abelardo, Artemísio! Um
operário. Ouça: acusaram o sr. Artemísio de um roubo. Amarraram-no numa
pilastra e dois meganhas o espancaram, com cintos e chicotes. Isto foi na
oficina de meu padrasto. Bateram, bateram, e você pensa que ele chorou? Não,
não chorou. O ódio, o justo ódio dos ofendidos, o ódio inflou-lhe os peitos, e
arrebentou as cordas... Era mesmo fanhosa a voz do sujeito de ontem, o do
trote? Vejo por sua cara que era. Me xingou muito? Muito disse que me prenderá,
muito?
-- Muito. Penso que o senhor não deve
sair hoje.
-- Dispenso os seus “pensos”! Tenha
humanidade, permaneça em seus habituais “achos”. E não se zangue comigo. Estou
irritado. Tive um pesadelo, um amigo meu me traindo com Lourdes. Você acha
demasiado a Epifânia vir aqui, hoje? Não, não ache. Escrevo um bilhete e você
leva na casa dela. Uma vez entregue o bilhete, não volte aqui. Aliás, volte à
oito horas da noite. O pasquim é matutino, você me trará o esboço da carta. (Você veio, Abelardo, você veio às 5:30 da
tarde? E esperei, e esperei com ânsia. Preparei-me para recebê-la com dengos,
presentes, gentilezas, verdades, “Epifânia, querida, em uma vez perguntou
porque minha avó italiana havia posto em meu pai um nome tão estranho como
Bucéfalo e eu lhe dei uma resposta cujo teor não me lembro, mais mentira minha,
Epifânia, meu pai se chamava Vincenzo, um belo nome, hã?. E explicara sobre
Bucéfalo, o heroico Alexandre a domá-lo com astúcia, e de noite, Abelardo, eu
lhe disse que tinha passado uma tarde maravilhosa. Mentira. Fique sozinho,
horas e horas esperando, sozinho, e a burra da Epifânia não sabe o que perdeu:
se fosse em casa eu botaria ela em meu testamento. Não boto. Ela não foi. Não boto.
Você e Lourdes, e só. Nezinha está aquinhoada. Você tratará de Ivo, sei disso.)
7.
A carta à direção da “Folha do Rio”,
um documento primoroso, dezoito a vinte linhas, e Abelardo o potencializara com
expressão chave: Mal-entendido. O
jornal não tinha culpa, eu também não, o tenente igualmente, tudo na santa paz
do Senhor. Parabéns, Abelardo, e agora
vá, pegue um automóvel de aluguel, entregue a carta ao diretor do jornal ou ao
secretário da redação. Não confie em favores de terceiros. E Abelardo saiu
e (pensei) isto vai durar uns quinze, vinte anos, um século e cheguei à janela
e via a lua perto do mar e imaginei os homens feitos de aço-e-pedra, poderosos,
alegres, honrados, a alegria e a honradez depende da força de cada um de nós, ser
forte é uma obrigação até porque a vida é um trançado de desafios, em toda a
parte e a todo momento multiplicam-se convites à luta e em muitos casos não são
simples convites, uns vamboras, e sim atos impositivos. É o que estão fazendo
comigo agora, exigem-me definições terríveis, forçam a que eu escolha numa
situação ainda fluida e não me habituei para opções em momentos como este, de
tal forma fui fabricado que só posso escolher entre muitas possibilidades de
êxitos, reconheço e proclamo que numa
situação assim meu pai marcharia em direção à Câmara, para libertá-la, e
cantando “Allons enfants de la patrie” ele, tio Leonardo, o sr. Bulba, Arimar,
o sr. Artemísio, Garibaldi, a multidão dos sem medo, restabelecendo a plenitude
do Poder Legislativo e reimplantada a ordem. Cessados os tumultos, eu diria da
tribuna: Esta Nação não será mais escreva de ninguém; esta Nação de heróis
inscreverá em bandeiras a palavra liberdade, em letras de ouro, sangue e ouro,
liberdade para os fortes e para os fracos, porque também os fracos precisam de
ser livres, eis que não têm culpa do medo que os infelicita, sei do que falo:
este medo é o resultado de muitos medos reunidos na infância, (E de repente)
-- Deputado Leonardo Petrucci, levante-se e responda: não
foi por medo de ser desleal ao nosso líder e seu irmão, o heroico Vincenzo, que
Vossa Excelência decidiu-se a morrer no mar?
O telefone e atendi. Era Abelardo,
falando lá do jornal: O diretor não
chegou ainda mas o secretário da redação quer falar com o senhor. Um momentinho.
(Pausa e bebi outro gole de conhaque) Deputado
Petrucci? Respondi afirmativamente e ele prosseguiu, voz de barítono: Tenho autorização do dr. Geraldo para ler
toda a correspondência a ele dirigida e me inteirei da carta do senhor. Não
garanto que seja publicada, o próprio dr. Geraldo não garantiria. O seu
secretário, Abelardo, a quem muito estimo, explicará o que acontece. O senhor
diz, na carta, que há um mal-entendido, eu acredito, mas não terá de ser
desfeito apenas conosco.
-- Com quem, então? Com minha mãe?
-- Compreendo sua irritação. Boa
noite e passe bem.
-- Chame Abelardo! Chame ele! – o
estúpido, no entanto, já havia desligado. Fiquei alguns minutos junto do
aparelho, julgando que Abelardo teria a iniciativa de nova ligação. Não teve.
Outro conhaque e debrucei-me na janela: valerá a pena visitar o Presidente
Vargas, abraçá-lo? Eu entraria de mansinho no Palácio, ficaria bem quietinho,
até que o Presidente me visse e então se, com o gesto mais simples, me
estimulasse, eu o abraçaria... Bobagem, idiotice! Nessas coisas de movimento
armados a Bahia é gota d’água no oceano. Talvez, ainda, uma visita minha, a
esta hora, seja interpretada como uma confissão de culpa. O descarado – pensariam os maldosos – teve a ousadia de destratar briosos oficiais da Polícia Militar e agora
vem pedir pê-pê-u... Um sacana, esse Abelardo, já devia ter chegado. General
Góes Monteiro, me ouça: que é que eu disse demais ao jovem tenente? Pedi que me
respeitasse, um pedidozinho, não pretendi agravar o Poder. Meus inimigos
exploram o episodiozinho em termos de politicalha regional. Um conhaquezinho,
meu general? Não quer? Eu bebo outra dose, Abelardo me desaconselharia.
Conhaque excita, e só. Coragem, eu sei, é algo que não se compra engarrafado, Feliz, venturoso, é aquele que desce à
cripta negra do inferno antes de se deixar espantar pelo inimigo, de se haver
dobrado à fatalidade, e isto é de Teogne, sr. Bulba, angústias, espantos,
fatalidades, eu não devo mais beber; eu devia ter perguntado ao secretário da
redação: Como matéria paga vocês publicam
minha carta? e não perguntei, burrice!
Anália, minha boa velhinha, você sabe que eu sempre fui
muito cauteloso, não tivesse sido e minha mãe e o sr. Giuseppe me expulsariam
de casa ( “puxa daqui prá fora, seu ingrato”). Terríveis aqueles tempos,
Arimar, e está aqui Anália que não me deixa mentir, e Abelardo não chega, o
estafermo, e o telefone tilintou e fui atender e era o homem de voz fanhosa: É o ex-deputado Petrucci? A voz fanhosa
e tremi as pernas: É bom que você fique
mesmo às ordens, comunista de merda! Você pagará por ter defendido Luiz Carlos
Prestes, você pagará a agressão cometida contra o tenente Borja, russo
descarado!, e bati o telefone, atônito.
Não
era a voz do (...) Teixeira. O tenente? Como ele saberia de discurso proferido
há mais de um ano? Epifânia, ela, Epifânia? E recorri, sôfrego, a uma das
minhas anotações: “Rio, 22 de outubro, 1936. Epifânia. Guarda o dinheiro que
recebe. Empresta a juros. Medo da velhice. Gasta a mocidade pensando na
velhice. Horror a filhos. Os filhos traem, fogem. Não fugi porque o senhor me arranjou o emprego, Mentira: eu não
descabacei ela!” E Abelardo não chega. Se já o prenderam, falará, inventará
coisas, é um sujo. Nada dirá, claro que não, sobre as coisas em que juntos nos
envolvemos (paguei a fatia dele no negócio da moratória com cheque nominal, e
os outros, que não sou besta), mas sabe o nome de marido de Engrácia, o tal
Honório, sabe que eu paguei três meses a ela, eu sou um maluco, onde já se viu
alguém pagar três meses a uma empregada despedida e isto a mulher de homem
comunista?
É um poltrão, de gente como Abelardo
é de se esperar todo o tipo de vilanias, se acovardou diante do tenentezinho,
eu fique só nas escadarias, ele na esquina, e não chega, eu não suportaria
viver sozinho, dias, semanas, meses, anos, preso entre quatro paredes, torturado,
longos estiletes de aço metidos sob minhas unhas, estrume em minha boca, ácido
fênico num dos meus olhos, não, não beberei cock-tail
à base de óleo de rícino, mas não são as torturas físicas que mais me
atemorizam e sim a solidão, a cela fria, frio e longo o silêncio, eu não fui
feito para que tamanha maldição me alcance, melhor a morte, vou no sanitário
agora, acondiciono um pedaço de lâmina de barbear, protegido por algodão; entre
o lábio superior e o maxilar, e com ele, se me prenderem, eu cortarei os pulsos
e morrerei. Estou com o lábio superior um
pouco inchado. Entre. E quando Abelardo entrou, afobado, perguntei sobre
edições extraordinárias dos jornais, por que não as trouxera? (O apartamento estava à meia-luz, Abelardo,
por isso você não percebeu quão lívido eu me encontrava ao lhe abrir a porta.
Lívido e trêmulo.)
Sente-se. Eu tenho de voltar ao
sanitário. Receio de ter de procurar um dentista.
E no sanitário, um tanto aliviado,
eu me disse: Tônio, se você não vencer esta inquietação, se você perde o rumo,
os benefícios não se farão e as desgraças se multiplicarão por mil. Respire
fundo, de dez a vinte vezes, compassadamente. Isto, assim. Agora dê uma
descarga na latrina. Isto, assim. Demore mais um pouco. Perfume-se
discretamente com eau de Cologne, e
voltei à sala.
-- Muito bem, Abelardo. A inchação
do meu lábio não é nada mais sério. Vamos, me conte tudo, controle sua emoção.
Tenha calma.
-- O tópico contra o senhor foi
encaixado pelo censor. Eu vi o original. Coisa emprenhada, com certeza.
-- Ele não podia. Censura é para
cortar, e só.
-- Não podia, mas pode. O capitão
censor pode, capitão. Euríalo Borja Pinto Trigueiro.
-- Borja?
-- Borja, tio daquele tenente.
-- O “parentelismo”! A
“parentelada”! Cretinos, canalhas! Esses fracos me dão pena. Aleitam-se em
fezes, coitados. Que mais?
-- O secretário da redação, que é
meu amigo, acredita que o dr. Geraldo se empenhará em favor da publicação da
carta.
-- Uma ova, Abelardo, uma ova que se
complicará com o capitão por minha causa! Não seja ingênuo. O sujeito com voz
de fanho voltou a me ameaçar. Acho que serei preso nesta madrugada. Os três
mulatos continuam rondando a rua.
-- Ficarei com o senhor. Disse assim, Abelardo, e olhou a garrafa
de conhaque, sugeriu que eu não deveria beber mais e o interrompi: Aprecio seu conselho, Abelardo, mas eu sei que
quantidade devo beber, não preciso da coragem que o álcool dá e sim do
discernimento que favorece. Tenho sido agredido e não quero perder a
tramontana. Quem quiser me ferir muito, profundamente, que me traia. E eu me
considero traído. Eu posso compreender erros e perdoar muito, mas não
compreendo e nem perdoo a traição. É a pior das ofensas. O traidor me anula
todas as oportunidades da competição. Porque a traição supõe, necessita, impõe,
ciganiza, conspurca, viola, violenta com perfídia a boa-fé do traído. Espero
que você me entenda...
-- Reafirmo que ficarei com o
senhor.
-- Jamais duvidei disso. Agora,
traga-me duas cópias daquele discurso sobre os oficiais do Exército que foram
aludidos pelos Luis Carlos Prestes. Quero tê-las comigo. Se me prenderem
exigirei que o texto do discurso conste do inquérito. Meu beiço está muito
inchado?
Senhoras e senhores, Abelardo,
Nezinha, meu inesquecível dr. Augusto: eu poderei escrever páginas e páginas
sobre o que sofri naquela noite. Eis um pequeno exemplo: lá pelas onze horas,
Abelardo se propôs a comprar sanduíches, antes que a pastelaria fechasse,
aquiesci mas me disse: Arranjou uma boa
desculpa e vai embora, o safado. Abri uma garrafa de uísque (bebida
raríssima, naquela época, em termos de Brasil) e bebi duas doses e robustei o
compromisso: se recorrerem às torturas cortarei os pulsos, a jugular, morrerei.
E Abelardo voltou e a meia-noite, por aí, quando o telefone voltou e a meia-noite,
por aí, quando o telefone voltou a tocar, eu disse: Vá, atenda. Mexa-se! E vi como, um a um, à medida em que ouvia o
interlocutor, os músculos da face de Abelardo se foram descontraindo, e pensei:
Não é o fanho, é Zito! Deus seja louvado,
é Zito. E bebi mais um uísque.
-- Publicam! – Abelardo exclamou, e
tirando a mão do bocal do aparelho continuou a falar: Sim, nós agradecemos, diga ao dr. Geraldo que nós agradecemos,
penhoradamente. Em seguida, preferindo conhaque ao uísque, Abelardo
explicou que a carta sairia, na página sete ou oito, mas, em troca, eu deviria
escrever uma carta ao tenente, oferecendo desculpas, uma carta pessoal, não
seria publicada, iria constar do curriculum-vitae
(?) de maçote atrevido, e decidi: Faça
a carta. Abelardo, faça dez cartas, se ele quiser mais, faça cem cartas!
Sapeque o “mal-entendido” e pronto, assunto encerrado. Agora o que resta é o
fanho...
-- Um trote, algum inimigo gratuito.
Se houvesse um esquema armado, senhor, o capitão Borja não autorizaria a
publicação da carta. Aliás, acho que a carta deve ser reproduzida em todos os
jornais, como matéria paga.
-- Não. Você atuou excelentemente,
você será meu herdeiro. Mas republicar a carta seria chamar a atenção de
terceiros. Se a malvadeza saiu na “Folha” que morra na “Folha”. Abelardo, por
favor, ouça: pegue um carro de aluguel, vá ver o tal capitão Borja, se grude
nele, seja amigo do sobrinho dele, e faça tudo – tudo! – para eu ter de volta o
retrato de meu pai. Não importa quanto custe: eu quero de volta o retrato de
meu pai. Você fará isto para mim? Eu lhe peço. Não é uma ordem, e um pedido.
Por favor.
E Abelardo saiu, decidido,
determinado. Às três e quinze da madrugada eu fui ao sanitário e livrei-me do
pedaço de lâmina e me disse diante do espelho: Malgrado tudo, Tônio Petrucci,
você é um homem. Não é um Vincenzo, um sr. Bulba, um Artemísio, um João Otero,
mas é um homem. Uma Nação não é composta de heróis e heróis, ou mártires, mas é
de igual modo feita por homens somente, não haveria heróis se todos fôssemos
heróis, inexistiriam os heróis se não vivêssemos, para aplaudi-los, os homens
simples.
O sanitário estava deserto, como
sempre, sem testemunhas. Pensei em Abelardo: ele teria êxito junto aos Borjas?
Depois de retirar o pedaço da lâmina de barbear, envolto em algodão, joguei-o
na latrina e, por força do hábito, puxei a descarga. Eu.
ESCLARECIMENTO
– XVIII
Marluce está morta.
Não tem mais sentido insistir nas
“memórias” do Senador Petrucci. O essencial, por enquanto, já foi dito. Nas
atuais circunstâncias, ou, como ele diria, “considerada a atual conjuntura”,
liberei o máximo possível. Como antes prometi, os originais serão enviados ao
arquivo da Biblioteca Nacional.
Por dever de justiça peço aos que
nos acompanharam ao longo do que eu considero uma tragédia, a de Marluce, peço
não sejam precipitados ao julgar a doutora Narda. Agora, quando datilografo
estas últimas linhas, estas palavras finais, o corpo de minha esposa está sendo
velado no Cemitério do Campo Santo. Nós, Narda e eu, o trouxemos de São Paulo.
Aos leitores e, especialmente, a você, meu querido Cris: Marluce não se matou.
As versões que correm sobre o suicídio são absurdas. A morte, que já estava
nela, a consumiu em semanas. Vou transcrever um dos trechos mais importantes do
diálogo de Marluce com um dos mais renomados psiquiatras do Brasil e, sem
favor, do mundo, omitindo-lhe o nome por dever ético:
Voz
do médico – Vejamos se eu entendi: poucos anos depois da senhora nascer,
seu pai abandonou a casa.
Voz
de Marluce – Um ano seis meses, mas ele não teve culpa. Ele não sabia o que
estava fazendo. Ele sempre vivia bêbado.
Voz
do médico – A senhora tinha, como disse, um ano e seis meses. Como a
senhora pode afirmar que ele não teve culpa?
Voz
de Marluce – Tia Gertrudes me contou.
Voz
do médico – Segundo o que li na ficha da senhora, a senhora não admite um
caso amoroso entre...
Voz
de Marluce – Não! Tia Gertrudes era corcunda e nunca abandonou mamãe,
nunca! Por que estas perguntas? Abelardo, eu quero ir embora. Este homem está
me torturando!
Eu
– Tenha calma, Lu, querida, tenha calma.
Voz
do médico – Minha senhora, por favor, estou tentando ajudá-la. Não tenha
medo. Responda: de algum modo a história do Senador Petrucci influiu...
Marluce
– Eu chorei, no começo. Enquanto ele era criança.
Voz
do médico – Acredito que estamos progredindo. Ontem, lembre-se, a senhora
quis contar sua última visita à doutora Narda. E eu a impedi. Presumo que a
senhoras parece demonstrar muita necessidade de contar. Conte.
Marluce
– Foi de madrugada. Abelardo e Cris tinham me deixado sozinha. Antes de
pegar o carro, eu peguei o telefone e avisei a ela. Avisei: vou pra ir ver
você. Ela disse: venha. E eu fui.
Toquei a campainha e ela abriu a porta e ela estava linda, inteiramente nua, e
me estendeu a mão, disse que estava esperando que eu chegasse. O senhor não
conhece ela, doutor, ela é lindíssima, eu tinha telefonado pedindo que ela não
me abandonasse.
Eu
– Você já contou isto ontem.
Voz
de Marluce – A cama dela é das antigas, dessas bem largas, e ela se deitou
e eu pedi um uísque. Respondeu que não, para que eu ficasse pura, tirasse o
vestido e deitasse. Disse depois que me amava e que a gente ia sentir um prazer
como nunca, porque Deus estava a favor. Então eu deitei ao lado dela. Abelardo,
me dê sua mão, eu estou nervosa... Doutor, não é que eu esteja toda cega, eu
vejo névoas... Conto tudo a ele, Abelardo, tudo?
Eu
– Conte.
Voz
de Marluce – Eu deitei, já disse, eu deitei, mas aquilo de Deus me botou a
cuca ardendo. Aí ela pegou em minha mão, com muita delicadeza, pediu que eu
fechasse os olhos. Eu pensei que ela fosse me beijar, que é o que eu queria,
mas o que ela fez foi pedir que eu me concentrasse, imaginasse uma cascata, a
água da cascata a cair sobre pedras, água límpida, água pura, caindo, caindo,
ela repetia, “água límpida, pura, sobre blocos de pedras brancas”, e repetia o
“caindo, caindo”, e eu pedi “me beije, Narda”, ela respondeu “não ainda não,
tenha calma”, ela uniu nossas coxas, exigiu que eu pensasse na cascata,
pensasse, ficasse pensando, Deus faria o resto, e eu pedi “pegue em mim, pegue
dentro de mim”, ela respondeu “não Marluce, não seja imunda”, e eu soltei a mão
dela, beijei ela na boca; ela lutou comigo, me expulsou da cama. “Você não me
merece” – ela disse – você é imunda”. E passou a gritar comigo: “imunda!
Imunda!”, e eu gritei, gritei...
Penso que basta. Não sei em que
medida cenas que se passaram na residência do falecido Professor (...),
narradas minuciosamente pelo Senador Petrucci, teriam contribuído para
exacerbar certos instintos de Marluce. Não pretendo dar respostas sobre
questões que estão acima dos meus conhecimentos e da minha experiência.Após o
enterro de Marluce, confessando com honestidade um certo sentimento de culpa,
Narda me disse que, bem intencionada, tentara usar Marluce como uma cobaia,
lamentando-se por ignorá-la tão frágil. E aconteceu-me, Cris, uma decisão: a de
seguir Narda, viver com ela emoções novas, provar que os homens, se delicados,
e ao mesmo tempo, se viris, não são porcos. Um desafio e ela disse que
aceitaria. Viajei para Zurique, onde ela já se encontra. Que resta a pessoas
como eu senão incessante buscas de emoções novas? Antes que os Artemísios nos
esmaguem que nos resta senão aproveitar cada sensação permitida pelo corpo e
pela mente?
Deixo cópia desta última lauda para
você. Viajarei amanhã para o Rio. Escreverei de lá. Até breve, Cris. Salvador,
11 de dezembro de 1969. Abelardo D’Antunes.
Os textos em grego e as traduções
eu os devo a Julimar Cardoso, in “No
País de Ulisses (Uma História da Literatura Graga)”, 1953, livraria Progresso
Editora, Salvador, Bahia. A.M
